Salvaterra-te
O FDS passado passei-o em Salvaterra do Extremo no festival Salva a Terra. Fui por impulso, sem ligar a programa do festival, voluntariei-me para ajudar na organização, e para além de pessoas puras conheci um espantoso Parque Natural do Tejo Internacional ao qual irei um dia regressar para valentes caminhadas.
O ambiente inspirador provocou em mim um alto débito de micro-pensamentos desconexos resultantes do olhar, escutar e sentir toda a envolvência humana e natural.
Aqui ficam alguns para registo e partilha.
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Sempre que Eu
Tu
Sempre que Tu
Eu
Sempre
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O lobo mau contemporâneo é o soprador de folhas.
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No passado, ao abandono do método tradicional chamou-se inovação. No futuro, ao retorno do método tradicional chamar-se-á inovação. O presente é mero desperdício residual.
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De nada adianta o acordar matinal quando o viver é tarde demais.
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"Eu não sou de ferro" lamenta-se a vergada estátua de latão.
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Lutar contra o Universo é o viver no seu reverso.
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Tudo o que é preciso para tornar os outros felizes é ser-se um bom taberneiro.
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Apesar do riso dos outros o riso supremo é posse do louco em cuecas.
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A velocidade da vida é melhor entendida quando a condução das suas rédeas é feita por um cão idoso.
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Continuarás a sentir-te perdido enquanto a tua boca falar mais do que o teu olhar.
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Mais do que ensinar as crianças a lidar com o monstro debaixo da cama deveríamos alertá-las para os perigos do monstro que dorme em cima da cama.
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Não raras vezes o emprego é o trabalho organizado executado por pessoas caóticas e o voluntariado é o trabalho caótico executado por pessoas organizadas.
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Aparentemente ter filhos é fácil quando se é despojado de tudo o resto. Do nada ter, tudo se obtém, sendo o próprio Universo prova disso.
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Aninha-te como um pássaro, persuade como um gato, defende como um cão, fazendo-te assim um bom homem.
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Não percas tempo a tentar encantar um bruto. Fascina-te antes pelo encanto que também nele reside.
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No campo existem tantas espécies de sombras como espécies de árvores.
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Os idosos tragam a vida da juventude saboreando a qualidade da sua sementeira.
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A melhor maneira de manter amizades é ser-se gentil para com forasteiros.
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Cria as tuas crianças como animais, com pouco mais que afecto, ração, água, e arrisca-te a que elas sejam livres e felizes como animais.
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Pro-bono deveria significar que toda a remuneração foi gasta ao conseguir reunir as condições necessárias para o garantir de uma excelente performance.
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Se ao viajares te sentes confortável em lugares estranhos, demoras a ter saudades, então já terás percebido que a tua primeira casa és tu.
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Não persigas as lições de quem detém o conhecimento. Recebe-as de quem o tem, partilhando-o espontaneamente.
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Por vezes quando és abordado num mar de estranhos deverás ter a sabedoria de te deixares embarcar aproveitando a viagem.
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A vida que passa
A morte que chega
Antípodas falsas gémeas
Siamesas
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No corpo tela
A vida é aguarela
A tatuagem é fábula
A cicatriz é rábula
A ruga é escória
O todo é história
segunda-feira, junho 26, 2017 | Etiquetas: Devaneio | 0 Comments
Trinca
Poesia na ponta da língua
Entusiasmado ... dentei-a
Uma trinca de dor e apneia
Sangue em boca à míngua
Poema ceifado
Poeta desesperado
Tentei os neurónios
Que assombrados por demónios
Me entregam peças travessas
De outros enigmas, reprimidos à parte
Num tetris de estigmas. amontoado sem arte
Remexer com pinça
Entre casos de amor
Entre casos de piça
Entre drama e horror
Poeta desolado
Poema poetizado
domingo, maio 28, 2017 | Etiquetas: Poesia? | 1 Comments
Passeio serrano
A flor floresce
O insecto urge
O pasto cresce
O bovino muge
A árvore cortiça
A ave aninha
O vento atiça
O pinhão pinha
A água corrente
A pedra escalda
O cágado contente
O caminho balda
O caracol lento
O tempo ... tempo
O jumento passa
A serra esgueira
O jumento caça
Bala traiçoeira
Animal ferido
Vida morta
Pena torta
O poema ... perdido
domingo, maio 21, 2017 | Etiquetas: Poesia? | 0 Comments
Caminhada da Via Algarviana
Em Abril de 2017 caminhei os 300 km da Grande Rota Via Algarviana e uma vez que não encontrei muitas referências de pessoas que o tenham feito irei aqui partilhar a minha experiência pessoal para que futuros caminhantes possam retirar algumas dicas e melhor preparar a sua aventura.
Dicas Globais
O tipo de piso é maioritariamente terra rija ou rocha recortada, normalmente em caminho com dois metros de largura utilizada para acessos a exploração florestal e apagar de fogos. Existe muita pedra solta que cortam a estabilidade do pé, em alguns locais gravilha profunda. Só uma pequena parte será em via asfaltada ou trilhos apertados.
Pessoas
A uns 8 km de chegar a Silves apanhei um Holandês de 20 e poucos anos que fazia a via Algarviana no sentido contrário. Trazia tenda consigo tendo a flexibilidade de pernoitar em qualquer ponto. Estivemos meia hora na galhofa a trocar dicas sobre os caminhos futuros. Só tinha consigo garrafas para um litro de água, dizia que as enchia pelo caminho. Estava já todo ressequido e tinha 10 km até à fonte de água mais próxima. Avisei-o de que dali para a frente a água não era propriamente potável e dei-lhe meio litro de água, aliviando meio quilo de peso, já que me faltavam duas horas de caminho e a ele provavelmente umas seis.
Em Barão de São João uma senhora mete-se comigo em português, pensei que tivesse uns 60 e picos, tinha 73, holandesa, vivia cá há 20 e tal anos. Queria rodar o português, disse-me que o caminho que eu ia fazer no dia seguinte era muito bonito e que ela própria o fazia de vez em quando porque eram só umas 4 horas de caminhada.
Por fim quando me arrastava entre o Cabo de São Vicente e Sagres sinto uma passada fortíssima atrás de mim, uma alemã robusta, de 50 e picos, que também ia para Sagres, juntou-se a mim e fomos falando o que me fez esquecer a falência física em que me encontrava. Tinha tido uma carreira ao mais alto nível como controladora financeira de um grande grupo alemão, até que há poucos anos achou que isso lhe estava a roubar o tempo de vida, devido à responsabilidade e disponibilidade exigida. Deixou esse emprego conseguindo mesmo assim uma posição confortável como auditora externa para trabalhos ocasionais. Visitou Sintra onde por acaso viu a brochura da rota no Alentejo, 260 km que partem de Santiago do Cacém com junção da rota histórica e da rota de costa Vicentina. Nunca tinha feito trekking na vida, arriscou. Adorou a experiência e diz que vai voltar para fazer a rota Algarviana pois perdeu-se tendo ido parar a Marmelete tendo gostado muito da zona apesar da maior dificuldade do percurso. Ficou maravilhada com a hospitalidade dos portugueses tendo-se entendido às mil maravilhas até com os seus anfitriões que não falavam inglês. Dei-lhe dois xicorações de despedida pela companhia e alívio que me fez aos kilómetros finais, deixei-a na paragem para Lagos e segui para a praia.
Posto estas dicas e partilha de experiências sigo agora para a caminhada em si que é o que interessará mais aos que projectam fazer esta grande rota.
Dia 1 - Alcoutim - Balurcos - Furnazinhas = 40 km
Dia 2 - Furnazinhas - Vaqueiros - Cachopo = 35 km
Existe um alojamento 4 km antes de chegar a Cachopo, eu pernoitei mesmo em Cachopo em quartos disponibilizados pelo restaurante "Retiro dos Caçadores". A dona Olímpia e seu marido fizeram questão me fazer companhia ao jantar falando sobre os velhos tempos e os novos tempos daquela zona.
Dia 3 - Cachopo - Barranco do Velho = 30 km
Dia 4 - Barranco do Velho - Salir - Alte = 30 km
Mesmo antes de Alte há um local onde fica confuso para onde é o trilho, induz mesmo em circulo, o caminho é subir a serra em frente com piso de gravilha branca. Há depois uma parte de trilho apertado que parece entrar em mato denso, é mesmo por aí, a vegetação é que é vigorosa e cobriu o trilho por não ter a intensidade de utilização que o impeça. Em algumas zonas usei o bastão quase como catana para afastar o mato.
Dia 5 - Alte - São Bartolomeu de Messines = 20 km
Dia 6 - São Bartolomeu de Messines - Silves = 30 km
Atenção que quando estão a fazer os 10 km ao largo da reserva de água vai haver um ponto em que dois cães vos vão 'atacar'. São de uma das casas junto ao trilho, não existe escapatória, ou se avança ou se recua ou se espera que apareça o dono para resolver. São cães de uns 25 kg cada bastante atrevidos. Caminhei de marcha atrás usando os bastões cruzados para servir de barreira e chegaram-se a um dedo dos mesmos a ladrar/rosnar.
Dia 7 - Silves - Monchique = 30 km
Dia 8 - Monchique - Marmelete = 15 km
O Restaurante "Sol da Terra" oferece quartos porreiros sendo que ficam nas traseiras da taberna podendo ser algo barulhento, depende da bebedeira dos clientes. Se forem muito sensíveis a barulho para conseguir adormecer tentem a casa de acolhimento do povo que é gerida pela dona do restaurante que fica em frente à caixa multibanco.
Dia 9 - Monchique - Bensafrim - Barão São João = 35 km
Dia 10 - Barão São João - Vila do Bispo = 25 km
Dia 11 - Vila do Bispo - Cabo São Vicente - Sagres = 22 km
sexta-feira, maio 05, 2017 | Etiquetas: Trekking | 0 Comments
Vidas Particulares
No maior acelerador de partículas conhecido, o circuito da existência, são disparados a alta velocidade, em todas as direcções, milhares de milhões de fachos de partículas de vida. Dividem-se em três grupos. As partículas solitárias, que percorrem rapidamente todo o circuito sem se cruzar com nenhuma das outras. As partículas estacionadas que entendem suspender a sua rota à primeira colisão frontal, pois a inércia exige muito menos esforço que o movimento perpétuo. E por fim as partículas propulsoras.
A partícula propulsora é a génese do sistema, é ela que o enriquece com a sua complexidade, tornando-o interessantíssimo de observar. A partícula propulsora tem uma dinâmica muito particular, apresenta velocidades diferentes em momentos diferentes, sendo capaz de impôr desvios não só à sua rota original como à rota de todas as partículas que dela se aproximem, conseguindo mesmo a proeza de impelir movimento renovado em partículas estacionadas. Uma partícula propulsora sente-se sobretudo atraída por partículas de natureza distinta, que a abismem, repelindo partículas de natureza demasiado similar, que se limitam a ser um seu reflexo.
Sempre que uma destas vidas propulsoras se envolve com uma outra vida, ambas espiralam vagarosamente, interseccionam-se, colidem, procurando concertar um novo rumo que sirva a ambas. O ponto crucial é o momento em que se enfadam do espiralar. Aí chegadas é iniciada uma delicada negociação, que tanto se pode revelar um elegante duelo de esgrima olímpica como um sangrento duelo de espadas medievais. Os argumentos dividem-se em duas categorias. Os do sagrado coração contra os da estupidez da razão. Os idílicos e belos argumentos do coração vêem-se muitas vezes esmagados pela estupidez dos argumentos da razão, que, por muito que custe, não deixam de ter o que são. No final dá-se o embainhar de línguas estando encontradas as novas rotas de duas partículas.
No final deste processo qualquer uma destas partículas se pode transformar numa solitária, estacionada ou disparar a alta velocidade em nova direcção, mantendo a sua propulsão. Com um pouco de sorte seguem paralelas, lado a lado, à mesma velocidade, tornando possível observar a olho nu o traçado das mais belas trajectórias de vida.
domingo, março 26, 2017 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
O abismar da fé
Roçando o abismo encontra-se abismado um pároco ímpar, com coração vago de amor, divagando sobre um mar de vagas cheias, do mesmo sal de suas lágrimas salteadas.
Agarrando a corda da batina recorda com agrado as leituras deleitadas dos escritos sagrados. Dizem os homens cultos serem escritos plenos de planos ocultos. Será que o melhor esconderijo de significados por entre palavras é a ignorância de quem as lê e delas tece juízo?
São textos e discursos à época inspiradores, ainda hoje sugados por aspiradores à ascensão, que muitas vezes atingem a mera cessão. Algures pelo meio encontra-se este prior, gerindo sua dor, sendo notória a tensão da retenção dos velhos ensinamentos dos evangelhos. É uma apneia difícil pois tudo o que é inspirado mais tarde ou mais cedo terá de ser expirado. A curto, médio ou longo prazo apenas uma ínfima fracção será retida, sendo tudo o resto expelido como se nunca fora lido. Será sempre este o resultado das lições fatídicas sine qua non de qualquer vida empírica.
Ele encontra-se no ponto em que o tempo deixa de existir, o tempo passa a coexistir. Dentro de sua cabeça o que aconteceu está equidistante do que acontece, do que planeia vir a acontecer, milénios separados por escassos milésimos de segundo. Se assim é na sua simples cabeça porque num Universo muito mais complexo também o passado, presente e futuro não poderão coexistir de mão dada?
Ao pensar sobre de quem serão essas mãos repentinamente dá-se o advento de vento, abruptamente brumas abatem-se sobre o abade que, mostrando-se inabalável, bate pés pacificamente e abala.
quarta-feira, setembro 07, 2016 | Etiquetas: Crónica (ou género disso), Poesia? | 0 Comments
A noite da resolução
Hoje é noite de resolução.
Na minha curta vida experimentei de tudo nesta noite. Passá-la em recato, a sós ou a dois, em alvoroço de eventos privados de poucos mas bons, rodeado de familiares e amigos, no meio de desconhecidos, na rua, sóbrio ou alcoolizado, de cabeça na lua como na última destas noites em que acabei com a cabeça na terra.
Foi um baque seguido de CRACK, gritos ?e risos? polifónicos de bebedeiras a destilar baboseiras. Depois luz e som. Lembro-me de olhar para a lâmpada no topo da ambulância, perder-me embalado pelo duo azul estroboscópico secundado pela sirene estridente, pensando que aquela cúpula translúcida seria a prisão de uma bela fada que fluorescia enquanto gritava por socorro.
Pudera eu mexer uma palha e teria lutado com todas as minha forças para libertar aquela magia aprisionada. Infelizmente nem uma palha sou hoje capaz de mexer. Nessa noite disse adeus à integridade da minha quinta vértebra. A subtracção de um dos elos mais fracos do corpo humano retirou-me toda a força física e a mando da ciência passei a ser catalogado de tetraplégico. (isto também com alguma certeza matemática já que 5 -1 = 4!)
Há um ano, nessa noite, a minha vida mudou. Hoje apenas consigo mexer olhos e maxilar. Dependo de outros, tenho o corpo definhado num colchão e a mente confinada às rotinas, dramas e TVs hospitalares. Dizem-me para acreditar no avanço da ciência, sendo tão novo existe grande probabilidade de um dia vir a recuperar mobilidade. Só não me dão solução para o até lá. Para gerir o querer e não poder, para libertar aqueles que teimosamente me visitam. Ouço-os respirando fundo antes de entrarem altivos para me animarem com conversas de diversão, ouço-os a desabar após saírem. Peço-lhes sempre para não virem tantas vezes. Vivam as suas vidas sem este fardo que é meu e só meu. Eles fingem que não me escutam e que retiram prazer destes momentos. Assim como eu.
E eis que hoje chega mais uma daquelas noites. Eu, como todos deveríamos fazer, procuro realinhar-me. Mudar, melhorar, evoluir, seguir em frente, evitando a paralisia do ser e do viver. Posso-vos confessar que cheguei à minha resolução. No passado tentei matar-me. Tentativa falhada. Simplesmente deixei de respirar. Exerci a réstia de comando que tenho sobre o meu corpo para deixar de respirar. Descobri que é impossível. Primeiro deparei-me com um ponto em que, ainda consciente, o corpo domina a mente, força a abertura máxima da boca e fossas nasais, tragando metros cúbicos de ar de uma vez só. Depois consegui domar esse instinto de sobrevivência, descobrindo que o corpo reage apagando a mente, num desmaio involuntário, durante o qual se repete o processo de inspiração compulsiva.
Hoje tenho tudo preparado. Quando me servirem o copo de água a sorver, vou retê-la na boca, de forma não perceptível aos meus cuidadores. De seguida acumularei cuspo, enchendo a minha cavidade bocal com o máximo volume de líquido, imagino-me um daqueles hamsters bochechudos, ridículos de lambões que são, então susterei a respiração e canalizarei parte desse líquido para as fossas nasais. Se tudo correr bem conseguirei levar o meu corpo ao limite da falta de oxigenização, até que quando, em desespero, ele assumir o controlo, ávido por oxigénio, receberá ao invés uma dose fatal de água e saliva que decerto o/me afogarão. Como é típico desta noite dependo apenas de umas boas entradas.
Pergunto-me se ouvirão falar da minha escolha num jornal sensacionalista ou se não passarei de um drama pessoal para os mais chegados. Ou pior, se acham que foi um acidente ou um homicídio, talvez devesse tê-lo discutido com alguém antes para evitar interpretações erradas.
Seja como for, aqueles que leram este meu último pensar, desejo-vos uma boa noite e que a vossa resolução vos proporcione uma vida um pouco mais desafogada.
quinta-feira, dezembro 31, 2015 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Tábula rasa
Um novo rebento brota, virgem e fértil, do seu invólucro protector, para o mundo que o disputará insistente, frenética e intensamente durante esta nova fracção da sua eternidade. A contenda será mascarada como uma série de acasos, coincidências, acontecimentos, ora de sorte ora de infortúnio, cada um dos quais lapidar, deixando a sua marca, conquistando, pouco a pouco, todo um ser, definindo-o.
Seja ou não capaz existirão tempos de paz, etapas que se confundem com meta definitiva, que farão esquecer partes importantes do percurso. Até ao início do próximo round, que obrigará à reconstrução de todo o caminho a fim de evitar o repiso dos pântanos do passado.
Esse será o seu futuro e presente recorrente.
Por agora não é nada. É um vazio. À mercê de forças opostas. A acolhedora luz, não invasiva, que o afaga, o escuta, o nutre. As perigosas trevas primordiais, que consigo nascem, a todo o momento o atentam, o corrompem, o corroem. Uma trabalhando de fora para dentro, a outra de dentro para fora, duas forças opostas que se encontram nele, epicentro do apocalíptico choque frontal.
Sê bem-vindo e boa sorte.
![]() |
| Foto de Julieta Domingos |
quinta-feira, agosto 20, 2015 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Desvulcanização
Abrupto, de sangue demasiado quente, fluindo em imparável circulação até à súbita erupção, qual magma verbalizado, expelido por todos os poros, acumulando-se em camadas sobrecutâneas de alma carbonizada, esterilizantes de suas capacidades oral e sensorial.
Transformado em vulcão inerte, inflama todo e qualquer toque, abafando com trovões pulsantes todos os dizeres que lhe eram dirigidos. Deixara de respirar passando a imolar. Nem a fotossíntese de toda uma floresta tropical seria suficiente para anular a toxicidade da sua fumigação. Apesar de vivo deixara de ser sujeito transformando-se num coiso, um coiso ao descaso.
Assim existia na mais completa analgia física, emocional e espiritual, sem sentir sequer o contínuo e paciente gotejar que nele se infiltrava. Gota a gota, sendo as primeiras milhões evaporadas instantaneamente, se formaram veios trespassantes, abrindo canais de lágrimas vitais, dissolventes das toneladas de suas matérias e imatérias mortas que o mantinham prisioneiro inerte e fossilizado.
Sem agitação esta delicada e zeladora liquidez engoliu-o numa lenta curtição, diluindo-lhe toda a amarguez e insalubridade, num processo que requereu uma incerta quota parte da eternidade, culminando num violente agitar de águas. Primeiro um regurgitar! Golfadas dos resquícios de carvão e lodo que bloqueavam o seu ser. Depois um despertar com um esbracejar e um violento gritar
AAAAAAAARRRRRRRRRRGGGGHHHHHHHH!
Ecoou a uma velocidade 4x superior ao normal gerando em seu redor um turbilhão de bolhas de oxigénio que se elevaram para a superfície. Ainda inebriado pela recém-adquirida senciência segue-as como que por instinto. E é durante essa ascensão emergente que se questiona como terá transitado de homem condenado em vulcão a homem recuperado em Aquário.
segunda-feira, março 30, 2015 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Fragmentos de personagens e suas histórias
Eis Teresa. Toda a sua vida é uma inquietação. Insegura, com sobressalto ao mais
pequeno imprevisto, reage disparando argumentos histéricos aos ladrões
da sua razão e dos seus valores, Procurando protecção criou em seu redor
uma redoma que é a sua caixa-forte. Para Teresa, a única
fonte de tranquilidade é a sua profissão de vigilante nocturna. Aí Teresa é tesa.
...
Sempre em voga, Olga é uma advogada de sucesso, carrega de toga,
descarrega no yoga. Todas as noites se logga, estudando o que todos os
dias advoga. Sem descanso, compila as suas razões argumentando e
contra-argumentando para com os seus botões. Não tem qualquer
preocupação com o ser feliz ou infeliz. É apenas ocupada. Tão ocupada
que nem se apercebe daquilo que é para os que lhe são próximos. Uma
acusada sumariamente condenada.
...
Chegara o dia de Renato sair da prisão. Anos de terror temendo a violação à
bruta por parte dos outros reclusos, munidos dos seus pénis sujos e
animalescos. Finalmente Renato está livre! Incólume! Podendo agora desfrutar de
tudo isso, em qualquer estação de serviço, devidamente protegido pelo
anonimato de um glory hole.
...
Para Vicente cada vez mais o horizonte era um local longíquo e imperceptível. Progressivamente deixara de vislumbrar a vida com a clareza de outros
tempos. Para os outros o seu olhar tornara-se minusculo e baço. A culpa é
do par de óculos hipster que comprara há dia pois sem o saber são altamente
graduados.
...
Igor é o melhor técnico de suporte no mundo. Quando todos os outros
falham é ele o chamado em último recurso. Actua como que por magia. Segundos depois de falar com os
utilizadores, muitas vezes sem sequer tocar no teclado, estes confirmam
que está tudo ok e despedem-se efusivamente. É um dom natural que consigo nasceu ao qual
deram o nome de halitose crónica.
...
A António chamavam-no de poeta, coisa de que nunca se auto-intitularia.
Escrevia umas coisas quando elas queriam ser lidas. O seu sonho era o de
escrever um livro de tirar o fôlego a qualquer um. Uma epopeia árdua
pois sempre que a iniciava dava-se a sua imediata desinspiração. Até que
um dia decidiu deixar de ser refém das suas próprias limitações,
inspirou profundamente, sentou-se, bateu tecla atrás de tecla, as linhas
transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em capítulos, num só
respirar escreveu todo um livro de fio a pavio, juntado-lhe ao seu final
o seu próprio falecimento. A autópsia não deixava margem para dúvidas.
"CAUSA DE ÓBITO: falta de ar"
PS - Estes pequenos perfis e/ou histórias de hipotéticas personagens resultam da compilação de alguns dos meus posts de Facebook a que achei piada particular e aqui registo para melhor partilha e referência futura.
domingo, fevereiro 22, 2015 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Escrito de Fresco porquê?
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