Desvulcanização
Abrupto, de sangue demasiado quente, fluindo em imparável circulação até à súbita erupção, qual magma verbalizado, expelido por todos os poros, acumulando-se em camadas sobrecutâneas de alma carbonizada, esterilizantes de suas capacidades oral e sensorial.
Transformado em vulcão inerte, inflama todo e qualquer toque, abafando com trovões pulsantes todos os dizeres que lhe eram dirigidos. Deixara de respirar passando a imolar. Nem a fotossíntese de toda uma floresta tropical seria suficiente para anular a toxicidade da sua fumigação. Apesar de vivo deixara de ser sujeito transformando-se num coiso, um coiso ao descaso.
Assim existia na mais completa analgia física, emocional e espiritual, sem sentir sequer o contínuo e paciente gotejar que nele se infiltrava. Gota a gota, sendo as primeiras milhões evaporadas instantaneamente, se formaram veios trespassantes, abrindo canais de lágrimas vitais, dissolventes das toneladas de suas matérias e imatérias mortas que o mantinham prisioneiro inerte e fossilizado.
Sem agitação esta delicada e zeladora liquidez engoliu-o numa lenta curtição, diluindo-lhe toda a amarguez e insalubridade, num processo que requereu uma incerta quota parte da eternidade, culminando num violente agitar de águas. Primeiro um regurgitar! Golfadas dos resquícios de carvão e lodo que bloqueavam o seu ser. Depois um despertar com um esbracejar e um violento gritar
AAAAAAAARRRRRRRRRRGGGGHHHHHHHH!
Ecoou a uma velocidade 4x superior ao normal gerando em seu redor um turbilhão de bolhas de oxigénio que se elevaram para a superfície. Ainda inebriado pela recém-adquirida senciência segue-as como que por instinto. E é durante essa ascensão emergente que se questiona como terá transitado de homem condenado em vulcão a homem recuperado em Aquário.
segunda-feira, março 30, 2015 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Fragmentos de personagens e suas histórias
Eis Teresa. Toda a sua vida é uma inquietação. Insegura, com sobressalto ao mais
pequeno imprevisto, reage disparando argumentos histéricos aos ladrões
da sua razão e dos seus valores, Procurando protecção criou em seu redor
uma redoma que é a sua caixa-forte. Para Teresa, a única
fonte de tranquilidade é a sua profissão de vigilante nocturna. Aí Teresa é tesa.
...
Sempre em voga, Olga é uma advogada de sucesso, carrega de toga,
descarrega no yoga. Todas as noites se logga, estudando o que todos os
dias advoga. Sem descanso, compila as suas razões argumentando e
contra-argumentando para com os seus botões. Não tem qualquer
preocupação com o ser feliz ou infeliz. É apenas ocupada. Tão ocupada
que nem se apercebe daquilo que é para os que lhe são próximos. Uma
acusada sumariamente condenada.
...
Chegara o dia de Renato sair da prisão. Anos de terror temendo a violação à
bruta por parte dos outros reclusos, munidos dos seus pénis sujos e
animalescos. Finalmente Renato está livre! Incólume! Podendo agora desfrutar de
tudo isso, em qualquer estação de serviço, devidamente protegido pelo
anonimato de um glory hole.
...
Para Vicente cada vez mais o horizonte era um local longíquo e imperceptível. Progressivamente deixara de vislumbrar a vida com a clareza de outros
tempos. Para os outros o seu olhar tornara-se minusculo e baço. A culpa é
do par de óculos hipster que comprara há dia pois sem o saber são altamente
graduados.
...
Igor é o melhor técnico de suporte no mundo. Quando todos os outros
falham é ele o chamado em último recurso. Actua como que por magia. Segundos depois de falar com os
utilizadores, muitas vezes sem sequer tocar no teclado, estes confirmam
que está tudo ok e despedem-se efusivamente. É um dom natural que consigo nasceu ao qual
deram o nome de halitose crónica.
...
A António chamavam-no de poeta, coisa de que nunca se auto-intitularia.
Escrevia umas coisas quando elas queriam ser lidas. O seu sonho era o de
escrever um livro de tirar o fôlego a qualquer um. Uma epopeia árdua
pois sempre que a iniciava dava-se a sua imediata desinspiração. Até que
um dia decidiu deixar de ser refém das suas próprias limitações,
inspirou profundamente, sentou-se, bateu tecla atrás de tecla, as linhas
transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em capítulos, num só
respirar escreveu todo um livro de fio a pavio, juntado-lhe ao seu final
o seu próprio falecimento. A autópsia não deixava margem para dúvidas.
"CAUSA DE ÓBITO: falta de ar"
PS - Estes pequenos perfis e/ou histórias de hipotéticas personagens resultam da compilação de alguns dos meus posts de Facebook a que achei piada particular e aqui registo para melhor partilha e referência futura.
domingo, fevereiro 22, 2015 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Break a Leg
Estaciono, saio do carro, pego nos meus pertences, nas laranjas que colhi, no bolo rei que trouxe por cortesia fecho a porta e tranco o carro. Aqui vou eu. Atravesso a estrada a caminho de mais uma visita de neto. Deparo-me com o teclado numérico. Código? Caderninho! Merda... está sempre no outro... Arrisco 1942
Preparo-me. Mais de 90 anos, praticamente cego, mouco, fractura de fémur recuperada em três meses durante os quais esteve alojado, junto com a minha avó, num lar de idosos, um monologante, contador das mesmas histórias com o mesmo pormenor todas as vezes. Basta ouvir, sorrir e pelo meio falar com a minha avó.
Faz o mesmo de sempre. Abre a porta sem perguntar quem é. Eu silêncio. Estamos a dois palmos. Ele especado a fingir que olha para mim. Eu especado a olhar para ele. Quem está aí!? diz-me com tom autoritário. Isso devia dizer você antes de abrir a porta! Já estava a ser roubado para não se armar em forte! preocupa-me esta forma confiante como abre a porta sem saber quem é. Ôôôôôôôlha quem é ele! Olha quem é ele! num ar de surpresa agradada que rapidamente muda de registo para um Agora à hora de comer é que vens? porque apareço sempre à hora que sei ainda não ter começado a sesta e levo-lhes a sobremesa.
Entro, imagino que para ele sou uma mancha negra com um travessão cinza claro no final do rosto, cumprimento a minha avó, largo as laranjas e o bolo rei. Levo sermão por levar fruta porque já não tem espaço para a guardar, está cheio de pêras e pêros que lhe trouxeram, ai Jesus que lhe dou cabo da organização! Por fim decide-se a guardá-las na gaveta do frigorífico, que está vazia... Eu atiro-me ao bolo. Um bolo!? Sabes bem que eu não posso comê-lo! Não come você como eu e a avó, não se preocupe! Saco de uma faca, corto uma fatia como deve de ser para mim, levo-a à boca e caiem-me crotões de açucar para o chão. Olha para isso! O que tu estás a fazer! Essas migalhas, pá! Imediatamente volto à infância, ao tempo em que ele me perseguia com um pires atrás das minhas carcaças para não deixar cair migalhas para o chão. Sempre foi um fanático do asseio. Como terá ele visto aquilo? Açucar como será no seu mundo? Branco-luz? Um raio de luz a rasgar a minha negridão de alto a baixo?
De seguida pede-me uma fatia, já que está ali lá tem de ser, mas uma pequena, uma pequena, para a minha avó anui a que seja uma grossa. E volta à sua rotina, às suas queixas, aos seus despiques com a minha avó. Que chegam a ser engraçados de tão non-sense, picuinhas, rabujentos, juro que gravados dariam uma série de humor de sucesso.
Vou para a sala com a minha avó enquanto o meu avô arruma a cozinha às apalpadelas. Ao jeito, não o mais correcto será dizer ao alcance, dele. São os únicos momentos dela nestas visitas, até que ele chega e imagino que pronto para uma das suas histórias de vida. No entanto surpreende-me. Fala do lar, dos seus utentes/inquilinos, da equipa que deles cuidava, da direcção, do que aconteceu nestes últimos três meses. Descreve ao pormenor a dinâmica social dos que ali se encontravam, insurge-se contra os modos como tratavam alguns deles que, segundo ele, sofriam de 'doenças do cérebro', relata chocado a forma como um deles, de 99 anos, ali esteve moribundo até partir de ambulância para falecer chegado ao hospital. Sim, continua a fazê-lo no seu jeito monólogo, impeditivo da complementaridade da versão da minha avó, surdo às minhas questões/observações, mas porra! Está a falar com tal paixão e eloquência que me revejo nele. Naquela capacidade de observação detalhada, naquele sentido de justiceiro, metendo o bedelho em assuntos para o qual não é tido nem achado, naquele sangue na guelra, naquele chispar de olhos indignados! E a forma como fala, referindo-se às possantes empregadas como mulheres que vieram da Guiné, que trabalhavam no arado, a puxar bois, com uma força tremenda, que praticamente o jogavam pelos ares da cadeira para a banheira e o lavavam em duas voltas, POÇA! E eu pensando As metáforas, os adjectivos, as hipérboles, perfeito, perfeito! Os genes estão cá, os genes estão cá!
Saí de lá com a certeza de que aquela queda lhe quebrou bastante mais do que a perna. Quebrou-lhe a rotina. Forçou-o a adaptar-se, a sair da sua estéril redoma protectora, desassossegou-o. No meu egoísmo dou por mim a pensar, se é este o resultado final, talvez devesse partir algo mais vezes ao ano pois, de uma estranha forma, acabou por funcionar como uma infusão de vida.
segunda-feira, dezembro 15, 2014 | Etiquetas: Crónica (ou género disso), Diário de Bordo | 0 Comments
Stand-up @ Estabelecimento Prisional
Algures em 2014 surgiu-me a vontade de provocar o riso em locais onde ele habitualmente não acontece no dia-a-dia. Os locais de eleição seriam lares de idosos e/ou prisões.
Por acaso do destino fui forçado a ter contacto mais directo com a realidade dos lares e percebi que são um ambiente muito específico, com utentes que apresentam notórias debilidades cognitivas, aos quais será mais adequado um tipo de entrega de humor que passe por um formato de "contador de histórias", com inclusão das vivências dos próprios já que grande parte da sua alegria consiste no partilhar as suas memórias e ter quem as escute e por elas se interesse.
Por exclusão de partes sobraram as prisões. Disparei e-mails, fui contactado confirmando-se que efectivamente não existem meios e a animação cultural está dependente de voluntariado. Que é feito por desconhecidos e a espaços também por nomes conhecidos sem o publicitarem, por razões óbvias. Nunca tinham no entanto tido um formato de stand-up e acharam por bem dar-me 20 minutos da sua festa de Natal.
Naturalmente pedi uma visita para conhecer espaço, obter enquadramento sobre a plateia e ter orientações sobre conteúdos possíveis. Iriam ser 200 e tal presos da ala mais 'sensível'. Com uma concentração assinalável de presos detidos por crimes sexuais, alguns dos quais duros e deveras perturbadores. Eu próprio pedi a revisão dos textos/piadas que pensava fazer para o ajustar se assim fosse necessário, evitando provocar um estado de sítio na sala.
Sou franco, quando pensei em reclusos pensei-o genericamente, homens presos anos, privados da sua liberdade, em tensão constante e ambiente pesado. Poderiam existir alguns casos mais escabrosos mas nunca me ocorreu uma concentração no mesmo local dos condenados pelo mesmo tipo de crime em todo o país. E fiquei a pensar, fará isto sentido? Homens que fizeram aquilo que fizeram terão direito a estes 'mimos', a esta consideração? Justificam o meu esforço e tempo que poderia ser aplicado em qualquer outra acção?
E quando me meto a pensar a fundo está tudo estragado porque extirpo o lado emocional, o humor que alguns chamam de parvoíce inata, e fico uma besta racional.
Assim de repente a comparação imediata é o porquê ajudar/fazer rir reclusos e não crianças ou idosos? No final chego à conclusão que em todos os casos o argumento decisivo é o mesmo. Uma fé ou uma aposta arriscada na participação de um movimento benigno de transformação, de causa/efeito que por algum acaso do destino toque alguns ao ponto de provocar clicks impulsionadores de mudança.
O nível de risco de desperdício do investimento de uma acção de apoio fortuita é o mesmo para uma criança, um idoso, um recluso.
Uma criança não tem praticamente passado, tem um futuro que será definido pelo seu dia-a-dia, pelo seu ambiente e rede social e familiar. O que conhecemos da criança que ajudamos? Pouco. O que sabemos das crianças que ajudámos no passado? Que adolescentes ou adultos se tornaram? Nada. No entanto ao ajudar crianças cremos que de alguma forma estamos a contribuir para um seu futuro melhor.
Um idoso por outro lado tem um enorme passado que no entanto na maioria das vezes é pouco ou nada conhecido. Um idoso é um ser físico, marcado pelo tempo, crendo nós que seja lá qual tenha sido o seu passado o peso do tempo se encarregou de aplicar a sua justiça. O aproximar do fim de vida é um atenuante enorme. A um idoso procura proporcionar-se um bom presente mesmo que fazendo uso de um perdão por omissão.
Um recluso está no meio, já foi criança, talvez até alvo de apoios nessa altura, tem um passado onde terá praticado actos ílicitos e/ou deploráveis, é agora um homem com meio futuro à sua frente até se tornar um idoso. O que está aqui em jogo é esse tempo intermédio, onde voltará a ser inserido na sociedade. A aposta a fazer é acreditar que é possível que o homem que errou não seja o homem que sai da prisão. E construir momentos/fundações que sirvam de pedras no caminho a essa transformação.
Imbuído desse espírito iniciei a preparação. 3 Rounds de revisão e mais de metade do texto a ter de ser substituído. Piadas fortes a serem eliminadas meramente por usarem palavras que podiam ser conotadas com sexualidade de forma demasiado ordinária. Ao ponto de após a 2ª revisão exasperar explicando que teriam de tentar retirar alguma carga à leitura crua do texto porque a minha persona ia suavizar a entrega sendo a persona o elemento chave do humor. Suplicando para me deixarem ter um determinado conjunto de piadas levemente sexuais/machistas porque eram as únicas referências comuns da plateia. Sim, são reclusos, mas para mim, por profissionalismo, são uma plateia que tenho de fazer rir, que tenho de agarrar pelo que apesar do desconforto tenho de ter algumas armas, caso contrário faço um texto de piadas eruditas que vão passar completamente ao lado. Estiquei-me e chego a dizer que não percebo como podem também fazer uma blindagem tão grande e tornar tão tabu algo que na sociedade está omnipresente. Se têm de ser reabilitados teriam de aprender a lidar com esse tipo de estímulos e não ser privados de toda e qualquer referência a sexo, sob risco de explosão descontrolada assim que voltem à sociedade.
Finalmente tenho os 20 minutos alinhados 48h antes da actuação. Na noite anterior invisto com 3x ensaios totais que repito no dia ao conduzir a caminho do trabalho e mesmo em cima da hora ao conduzir do trabalho para o estabelecimento prisional. Chego 1/2 hora antes de ir a palco. Uma curiosa, e corajosa, amiga recente esperava-me, avançamos, já pensavam que eu não ia aparecer, passamos os portões, entramos no salão de festas, composto com os 200 e picos reclusos, actuava uma cantora de música ligeira. Começo a observar sala, condições de palco, som e perguntam-me se estou nervoso. Sim, estou nervoso, não pelo espaço ou reclusos, faz parte ter cagufa de que nada funcione. Vejo que pensam ser pelos reclusos, não faz mal. Dizem-me que vão actuar uns fadistas antes de mim. Tudo bem, mais tempo para sentir a sala.
Quando se aproxima o final do momento de fados peço para falar com o MC, um senhor talvez septuagenário com ar de marialva bem-disposto e bom vivant. Apresentam-me como o comediante que vai fazer 20 minutos de stand-up. Imediatamente responde "20!? Não! Stand-up no máximo 10 minutos!" Quem comigo combinou o evento tenta negociar ao que ele diz algo parecido a "Eu é que sei, eu é que estou a gerir o evento. Olhe que de stand-up percebo eu que já o fiz muita vez, com o Nilton e ..." (disse mais uns nomes que esqueci por já estar vidrado)
Por dentro fervia, dizerem-nos a 5 mnts de entrar que temos de cortar o texto para metade é o Armageddon de um comediante, sobretudo para mim que tenho o fetiche das transições para tornar tudo uma conversa continuada e encadeada. Tive de me controlar e repetir para mim mesmo: "O MC é rei, o MC é rei" ele é que gere o show, temos de respeitar e deixar as tricas para bastidores. Mesmo assim intervi e pedi-lhe para fazer uns 15 minutos e terminar com 3 de um poema. Não sei como estava o meu olhar e postura, sei que ele se vira para mim e me diz para ter calma que estamos ali a falar a bem como dois 'artistas', eu que lhe desse o meu contacto que ele depois arranjava-me uns trabalhos. Passei-me um bocado e disse-lhe algo muito parecido a "Não se preocupe que ainda não faço disto ganha pão, faço-o por gosto. Fazemos assim se você achar que tenho qualidade faz-me o convite no final porque estar assim a dar-me um cheque em branco não faz nenhum sentido, não acha?" Já não sei se jocoso se sentido diz-me "Já vi que temos aqui artista!" Eu já só queria serenar 2 minutos antes de subir a palco e pedi-lhe apenas para me chamar com 2x frases específicas sff, para eu pegar a partir daí para as primeiras piadas.
Descompressão. Reforçar cortes de última hora e pontes para tapar buracos. E eis que chega o meu momento. E o que me faz o MC profissional? Desce do palco, vai para junto da primeira fila (afastada 2m ou 3m) e chama-me simplesmente pelo nome, chegado lá pergunta-me em ON se quero fazer ali em baixo ou no palco (onde estiveram todos os artistas anteriores)... e lá vamos ambos lado a lado a subir as escadas para me fazer a passagem de micro.
A partir daqui foi pé no acelerador da intensidade para tirar o ambiente fado da tola, na primeira piada o micro faz uma ressonância brutal (que o bom técnico de som anula e calibra em 1 ou 2 s) que integro de imediato na piada repetindo-a uma 2x e perguntando porque ele não fez a ressonância novamente !? Ah... foi sem querer!? Pensava que ia ter efeitos sonoros à maneira! E com esta parvoíce 1/3 da sala fica ganha, 2x bits fortes 3/4 da sala ganha e eis que chego ao tease com piadas sobre Benfica. Ui, falar mal do SLB!? Um grupo de uns 8 começa a mandar bocas e o caraças. Estão identificados os hecklers da sala. Claro que neste ambiente não posso 'atacar' pelo que montei piadas de defesa em que ao me defender das acusações mostrava na verdade ser mais benfiquista do que eles. Hecklers anulados. Até que... digo simplesmente "Nunca vi um preto com uma tatuagem como deve de ser!" apontando para o meu tom de pele (estando propositadamente de t-shirt). Imediatamente 3x pretos/negros/pessoas de cor, escolham, protestam com o meu suposto racismo e saiem da sala sem ouvir mais nada. Vejo comoção espeto imediatamente com a piada de ridicularização dos skins para equilibrar a balança. Paz novamente. Ufa. Sigo com uns altos e baixos acabando em grande como mandam as regras.
Antes de terminar o segmento de stand-up o MC saira da sala para ir comer qualquer coisa, ao voltar estou a terminar o poema marcante para o contexto e a frase semente de pensamento de mudança que queria deixar. Completamente desenquadrado do que estava a fazer, sem ouvir sequer, vejo-o a dirigir-se ao técnico de som e pedir para me desligar o micro. Fuck, tenho a sala completamente focada, a sentir aquele coelho tirado da cartola, estou prestes a dar punch poética e tenho de olhar para ele, fazer sinal de 1 minuto, preocupar-me com um corte de micro. Felizmente o técnico de som fez ouvido de mercador e fiz a entrega final apesar de com um pouco menos de força. A sala aplaude mas eu quero sair dali porque mais uma vez sinto-me vidrado.
Fiquei até ao final para ouvir dos psicólogos se acharam que a entrega foi adequada, se haveria coisas a apontar e felizmente disseram ter sido bom. Reconheceram que realmente as piadas entregues daquela forma são muito mais leves e gostaram bastante do poema que nos deixa a pensar. Descompressão total, fiz o que me competia, agradei a gregos e troianos e o mais importante é ter feito uma ponte entre o estabelecimento prisional, o formato stand-up e de poesia de autor declamada de forma intensa.
A nível pessoal para além de uma experiência a nunca mais esquecer percebo cada vez mais que atingi naturalmente um patamar de presença e postura em palco que me permitem lidar com imprevistos, com pressão, e com reacção da plateia de forma quase imediata e natural. Em duas actuações distintas no espaço de uma semana vieram ter comigo perguntando se eu tinha improvisado uma grande parte porque tinham tido essa noção. Estas perguntas inocentes são a confirmação da boa entrega e preparação prévia pois na verdade houve muito pouco espaço para o improviso.
PS - um mega post muito pessoal que pensei vir a ser muito mais curto, inciado como um corriqueiro de Facebook. Foi-se avolumando ao ponto de o migrar para aqui e criar uma nova categoria "Diário de Bordo" onde colocarei registos históricos de coisas que mais tarde vou querer recordar com mais detalhe.
domingo, dezembro 14, 2014 | Etiquetas: Diário de Bordo | 1 Comments
Um caso de escrita platónica
Tenho duas horas para queimar. Decido jantar sozinho. Entro num restaurante e sento-me numa mesa para dois. Em redor fracassos do Cupido acompanham-se de perto, no repasto comum, enquanto fitam a paisagem de viagens mentais, percorrendo trajectos distantes sem quaisquer pontos de intersecção que não o ponto de partida, o prato escolhido para o jantar.
Numa mesa um filho adolescente acompanha os pais alimentando-se de forma estranha. Não a comida em si, falo do modo como se alimenta. A forma como articula o braço para levar o garfo à boca fá-lo ferir a própria testa com as unhas da mão que agarram o talher.
Bloqueio tudo isto, hoje não, hoje nada, hoje eu. Em minha frente coloco um caderno aberto em página em branco, sobre ele a única caneta que tenho comigo. Há meses. Quantos? Será que há anos?
Pouso a mão sobre o caderno segurando a caneta cuja carga, translúcida pelo seu fim, miraculosamente deixa o seu/meu traço no papel ao ser arrastada pelos dedos que nela se amparam como se fosse a sua muleta.
Talvez por conter um bico fino, exímio doseador de tinta permanente, tenta que eu escreva uma derradeira história de Amor. Um entrelaçar de fios condutores destinados apesar de desavindos, uma inspiração cármica que deixe os seus leitores a suspirar, confortados por comprovar que Ele existe à espera de um encontro fortuito e certeiro.
Pois eu te pergunto a ti, moribunda caneta minha, quem hás tu amado e quem te terá amado? A ti que passaste uma vida de escriba, sob meu jugo, desgastando-te a meu preceito, uma vida encafuada na mochila sem nada ver para além dos cadernos de que usas e abusas a meu mando. Será a eles? Um deles? Todos eles? Terás sentido dor sempre que deles colhia as páginas, frutos do teu labor? Ou serás simplesmente apaixonada por mim por evidente complexo de Édipo?
Imagino que amar sendo caneta não seja coisa fácil. Tens vida curta, sem vontade própria. Precisas de uma mão que de ti faça servidão. Talvez nas mãos fracas exerças alguma forma de dominância conseguindo escrever o que pretendes dizer. Comigo não, não seria possível. Escrevo com pulso firme e forte, terias de me domar de outra maneira que não a força. Por exemplo esculpindo a minha caligrafia com traços que não os meus, elevando-lhe a finesse estética, ou borrando-me as mãos em ejaculações grossas, esporádicas e inexplicáveis tendo em conta o teu fino recorte, ou, melhor ainda, desafiando a lógica da tua finitude escrevendo-me, escrevendo-te, escrevendo-nos, infinitamente, muito além da marca que denota o fim da tua existência física.
Se realmente fosses minha amante quão triste seria para ti perceber que te esgotaste, sem oportunidade de te revelares, que num último fôlego, decidida a vencer-me, e ao consegui-lo, ao escreveres finalmente as tuas palavras, as tuas linhas, te faltassem as forças desvanecendo aos poucos sem conseguir dizer-mo... Uma luta de esforço acrescido pois esta é uma página de um caderno sem linhas e o amor pauta-se por linhas tão tortas como as de Deus. Talvez por isso antes que partas quero que saibas que mais do que a partilha do que escrevemos ficam comigo as lembranças de tudo o que riscámos juntos.
domingo, novembro 23, 2014 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 1 Comments
Psychopoetic ward
I think I am not fit to poetry
Words are like boundaries with no entry
I stare at blank pages
Sit there for ages
It happens here, at the psychiatric ward
Do not pity me
It is not that hard
I live in joy in a world of missing words
Created by the real artists
Those that are also locked in here
With me
Within me
Casted away by those unlike me
By those unlike them
This ward is their kingdom
This ward is my salvation
And I regret it seldom
Praise the lord for this divination
PS - in March 2013 I visited Dublin, one night I wen't to the International Bar where they were having song writers, performers, poets, anyone with some kind of saying going up on stage. As I was hearing their inner beauty I wrote this but never had the guts to go there and read it. Today I salvage this page and move this kind of a poem to a proper place.
sábado, novembro 08, 2014 | Etiquetas: Poesia? | 0 Comments
Descasca da Cebola
83 anos e chego novamente a ti.
Foi num ápice que descasquei décadas de memórias e volto a dar contigo.
Primeiro revivi mais de 40 anos com a minha falecida, que me aguarda num pedaço de paraíso, rejubilei com o nascer e crescer dos meus pequenos, que agora são os grandes, revisitei tantos bons momentos.
Depois voltei a desorientar-me com a locura do pós-ti, do pré-ela. A vida desregrada, desgarrada, sem pegas, com muitas mãos, alguns nãos ao que nos dão. Foi o trajecto que percorri para te conseguir esquecer. Porque as memórias são como as cebolas, crescem em camadas, com anéis grossos, finos e assim-assim. Criei tantos por cima do teu. Fraquinhos mas muitos, muitos, os suficientes para
não chegar a ti quando me punha a recordar.
Só que estou velho, a velhice erode-nos, a velhice escava-nos, nós ajudamos, escavamos, escavamos, não paramos, nunca estamos satisfeitos, queremos mais e mais retrospectivas, recordações, redescobertas. Voltamos onde estivemos sem sairmos de onde estamos, o que é confortável uma vez que as pernas já não dão para o gasto. Agora eu, que nunca fui de me recordar até muito longe, cheguei a ti... depois dos milhares de km que atravessei, nunca pensei nem sonhei sê-lo capaz, deste retorno.
Viverás? Jazes morta algures? Eu lacrimejo, talvez demasiada cebola descascada, o ter-te desenterrado faz-me voltar a não aceitar muito bem o ter-te perdido. 83 anos e reencravo em ti.
Daqui não serei mais capaz de me mover. Mesmo não sabendo onde andas sei que, a ti, te levo comigo para a cova.
PS - no dia dos finados decidi por piada revisitar os escritos 'enterrados' nos meus cadernos onde aponto ideias, pensamentos, parvoíces, encontrando a base deste texto que uma vez trabalhado aqui fica ressuscitado. De certa forma é o meu milagre do dia. :D
sábado, novembro 01, 2014 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Corre por mim mas fá-lo comigo!
Como nos outros dias ligam-nos a TV bem cedo, por mim nunca a apagavam, é boa para abafar os nossos "huuuunnnnnn", "sssssssssssss", "aaaaaaaah", incontroláveis e expiatórios da pressão interna causada por estes corpos estranhos que gestamos involutariamente.
Pelos vistos hoje há uma corrida contra o cancro em que apelam aos atletas para correrem por nós, os doentes oncológicos, porque nós não podemos. Gozam? Correrem por mim!? Julgam que me alegro porque correm por mim uma manada de atletas saudáveis? Mesmo parado a cada segundo eu corro contra a morte, numa luta mental contra a necessidade de parar, entregar-me e finalmente descansar. Uma ultra-maratona inevitável em que tento evitar, a todo o meu custo, chegar ao ponto em que decida mudar de direcção e correr contra a vida.
Não preciso que corram, que se entretenham, que vivam, por mim. Dava-me jeito, isso sim, que me arrastassem para essa corrida! Aproveitar como deve de ser as rodas desta cama hospitaleira, atá-la a correias atreladas a atletas vigorosos. Ah caraças! Como ia adorar sentir novamente o vento na fuça! Ficar-lhes-ia eternamente grato por esse carregamento, por esse momento de carroceiro arruaçeiro. Caso contrário cá continuo, imóvel, neste aborrecido sofrimento.
Querem correr? Corram. Apenas não o façam por mim. Não vos pedi nem o quero. Também eu corri no meu tempo, sem motivo aparente, sem causa nem objectivo. Tivesse eu passado nessa altura pelos hoje meus colegas de quarto, acamados, conscientemente inanimados, agonizando na luta contra o cancro, e lhes gritasse em euforia do meio da rua que estava a correr por eles, porra, eram bem capaz de me mandar para o CA$#%#0! he he he
Ao remoer pensamentos e memórias, praticamente a única coisa que me é físicamente possível, frequentemente matuto na última vez que comprei um par de ténis. Entrei na loja e imediatamente fui abordado por um jovem que calçava uns ténis desportivos imaculados, topo de gama da melhor marca.
- "Bom dia, posso ajudá-lo?"
- "Desde que não atrapalhe toda a ajuda é bem-vinda! Procuro uns ténis de corrida. Baratos."
- "Baratos? Olhe que o barato sai caro. Tendo em conta a sua idade vale a pena investir um pouco mais para ter um pisar mais confortável, aumentar rendimento, evitar lesões, ..."
- "Sim, barato! Quero sentir que o que tenho calçado não vale nada para o sujeitar a provações e desgastar sem dó nem piedade. Tenho para mim que uns ténis ricos e cuidados não podem ser sujeitos às agruras de trilhos mal tratados. Esses estão formatados para belas estradas ou tartãs cómodos e especializados, pisos que não fazem parte do meu caminho."
- "Pelo menos considere estes com a última tecnologia relativa a micro-perfuração permitindo um melhor respirar e controlo da temperatura..."
- "Oh amigo, primeiro eu respiro pelos pulmões, segundo, na minha idade sou bombardeado com informação preventiva sobre o perigo dos ossos corroídos com micro-fissuras, dos músculos destruídos por micro-rupturas e agora quer convencer-me que ténis micro-perfurados são melhores!? Macro, quero ténis macro! Com preço Makro de preferência! Como aqueles ali!? São tão baratos porquê?"
- "Não lhe aconselho esses... são outlet... vêm com imperfeições de fábrica... são mesmo solução de recurso para quem não pode investir melhor."
- "Ténis imperfeitos! Provavelmente produzidos por crianças ainda crianças qb e não crianças já transformadas em autómatos da perfeição. Ténis imperfeitos que encaixam na imperfeição dos trilhos que hei-de com eles palmilhar! São estes!"
- "Faça-se a vontade do freguês... espero que não volte aqui a acusar-me de não me ter esforçado mais para lhe vender um produto melhor... e que pela sua saúde só esteja a pensar andar ou correr pequenos trajectos!"
- "Meu jovem, já não perco tempo em pequenas corridas, espero que quando tenha a minha idade saiba que só são verdadeiramente benéficas para a saúde as corridas de longo curso que não têm retorno."
E saí deixando um vendedor desapontado.
Esses ténis safaram-se durante mais de 10 anos, até hoje. Aposto que esperam por mim, pelas minhas melhoras, abandonados, ainda com a gravilha cravada na sola, maquilhados com as poeiras de todos os locais palmilhados. Como seria bom tê-los agora calçados, poder vacilar, deixar-me levar, porque esses ténis, meus amigos, esses ténis já estão ensinados.
Esses sim, correm por mim e fazem-no sempre comigo.
domingo, junho 08, 2014 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
S'enche a pança
Começou enquanto buscava numerário no meio do dicionário
Ao encontrá-lo, espanto!
O elemento rário emigrara para um qualquer imaginário!
Nume ficou
Requalificado em
Me
Nu
Resultado da fusão entre um inglesismo e um corte no despesismo.
Nem fico mal vestido apenas de fome num formato disforme.
Nem se nota o remendo do digestivo que me mantém o estômago furtivo!
E tu,
matreiro,
que tudo decides,
aí do cimo do meu telhado de zinco,
olhas-me tranquilo,
gerindo o ponteiro até ao chá das cinco.
Oh como é importante gerir...
GERIR!
JE
RIR
HA HA HA
Rir é o melhor remédio quando não há remédio.
Rir é uma trapaça, um género de carapaça que nos encouraça.
Não se iludam pelo riso e seu belo sorriso
Estejam certos que por detrás espreita um siso conciso.
Tu ris-te...
Diz-me, que esconde o teu?
Abre as tuas comportas de marfim,
liberta a tua língua,
vocifera em mim tudo aquilo que te deixa à míngua
Tudo o que tu queres esquecer,
tu procuras esquecer,
tu não podes esquecer.
Os teus olhos não deixam.
Os teus ouvidos confessam.
Esquecer...
És
que
ser
Que ser és tu quando não te deixam sê-lo?
Quando te plantam as ideias,
quando te roubam as ideias,
quando já não queres ter ideias.
Deixas a mina secar na esperança vã de que os mineiros se vão.
Num ápice
passas de mina de diamantes a mina de carvão.
Aquietas-te a um canto, a pouco mais fazer, do que contar o tempo a passar...
É o tempo dinheiro?
NÃO!
Não se guarda em mealheiro!
O tempo perdido não pode ser encontrado.
O tempo perdido não beneficia outrém.
É simplesmente uma meta que fica mais aquém.
Ei! Vejam! Além!
Já viram o que chove?
Ou o que vai chover?
Já ouviram o que venta?
Ou o que vai ventar?
Sintam-nos!
São ventos de mudança de uma tempestade de mar!
O que vem depois?
Será bonança?
Será MATANÇA?
Que me importa a mim, se é este vento que sopra, o vento que me enche a pança?
PS - este poema resulta da adaptação de um escrito para fazer um género de estreia de Poetry Slam num evento de jantar de Natal de empresa. Aborda a temática da crise e seus efeitos colaterais. Assunto tão em voga nos últimos anos. Pareceu-me bem colocá-lo online junto da celebração dos 40 anos do 25 de Abril.
quinta-feira, abril 24, 2014 | Etiquetas: Poesia? | 0 Comments
Serial Killer
Eu, assassino em série, me confesso
Aqui estou, como sou
Como assim, como sou?
Talvez seja melhor começar como tudo começou
Como comecei
Um começo espesso
completamente virado do avesso
E então
me matei,
pela primeira vez
Matei-me ingénuo, inocente
Tornei-me culpado, inclemente
completamente diferente
Sonhei o pesadelo dos outros
Assinei papéis e contratos
Vivi a vida de todos
Olhos cegos, ouvidos moucos
Até que a meio acordei
e mais uma vez
me matei
Sim
assassinei-me várias vezes
mais que uma
mais que duas
mais que ...
três?
Não sei.. de contas sou meio tan-tan
Direi que me mato o necessário para me manter a mente sã
Tenho brio em fazer o que é preciso mantendo o sangue frio
Noviço fi-lo inadvertidamente
Hoje faço-o selectivamente
Sou o homicida de serviço
Em mim há muitos,
em mim há uma legião
Não estou possuído por ela
Sou seu comandante, seu capitão
Ela é a minha armada,
bela
É entre ela que eu escolho e
Mato, morro
Mato, morro
Mato, morro
trabalhando a fusão do meu interior
em socorro do meu exterior
Não tenho heterónimos pois todos eles são eu
Cada um, um meu sinónimo, anónimo
São-no à sua vez,
ontem como agora
Até chegar de morte a sua hora
Porque por vezes há que
perecer
para ser
Por favor não me vejam como um demo
Pois também eu um dia temo,
ainda que de forma tímida e íntima,
vir a tornar-me a próxima vítima.
Talvez por isso
Eu,
serial killer,
vos digo
com esta grosa de rimas e palavras à toa
com esta prosa sem tesão de livro de Henry Miller
Que quero ser menos poesia e mais Pessoa
Nem que para isso tenha de
até à eternidade
despir-me de
toda e qualquer identidade
expondo-me integralmente nu
NU
Faria!?
PS - a ideia para este poema surgiu no dia Mundial da Poesia em que assisti a um evento na Malaposta onde foi declamada/interpretada parte da obra de Fernando Pessoa. Pus-me a pensar se realmente necessitaríamos de nos fazer passar por outros para passar emoções e formas de estar antagónicas. Se Pessoa tivesse sido só Pessoa e não todos os que foi a sua obra teria menos impacto? Deverá um artista criar versões de si para cada uma delas manter uma consistência homogénea em vez de se apresentar como um ser único ainda que com laivos de esquizofrenia?
E que coerência temos ao longo da vida já que se a vivermos plenamente estaremos em constante mutação?
E assim nasceu este texto, com um cunho pessoal final onde faço um trocadilho com o meu nome Nuno Faria, assumindo-me como alguém que mantendo a cara e o nome vai altercando o seu conteúdo.
Ontem teve o seu baptismo de Slam, hoje é entregue ao mundo.
sexta-feira, abril 18, 2014 | Etiquetas: Poesia? | 2 Comments
Escrito de Fresco porquê?
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