Ao tomar conta de ti tomo conta de mim
Sempre que te dou a mão tu aperta-la. Habituei-me à forma como não vês o mundo, à tua auto-proclamação de Deus criador de um Universo só teu. O teu olhar está ausente, o teu pensamento é ineficaz para a minha realidade. Não sei onde vives durante a maior parte do tempo, sempre em movimento, em total alheamento.
Limito-me a cuidar de ti. Do tu que percebo, do tu que te prende fisicamente ao meu mundo. Já te quis puxar para o meu plano de existência para tentar, sei lá, dar-te uma maior convivência. Já experimentei o contrário. Pôr-me ao teu nível, olhar para onde olhas, andar por onde andas, fazer o que fazes, para tentar perceber o mundo como tu. Antes de te conhecer de gingeira, no bom e na baboseira, quase endoideci por não conseguir encurtar a distância abissal que nos separa.
Até que desisti. Desisti de nos querer mais iguais. De me preocupar por te ver à deriva. Deixo-te à solta pelos teus caminhos tortuosos, pelas tuas ideias mirabolantes, e sei que de vez em quando ultrapassas todas as fronteiras e obstáculos para vir até cá. Ao meu mundo. Por nada mais do que por mim. Um olhar, um sorriso, um aconchego, o que seja. Nesses breves instantes não sou eu que cuido de ti mas sim tu que cuidas de mim. E faze-lo tão bem.
terça-feira, julho 26, 2011 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 2 Comments
70 000 para 1
Mais de 70 000 formam a guarnição protectora contra a fúria dos elementos. Têm a estrutura e força alimentada por séculos de existência. Por mais que uma vez deram o corpo ao embate de ondas e ventos de mudança, resguardando a pacatez da vila que vive na sua orla.
As batalhas ao longo do tempo fizeram as suas vítimas, orgulhosamente quebradas pelo atingir do limite das suas forças. Por estes lados dar a vida por uma missão cumprida é uma questão de honra e compromisso.
Mas entre eles surgiu um jovem que não compreendia tamanha devoção e imobilismo. Porque têm de ser uma barreira intransponível e não um filtro que permita a chegada à vila de alguns sopros e salpicos? Qual o sentido de bloquear o que quer que fosse com a única certeza de que a vila permaneceria a mesma? Que ilusão é essa criada pelo intacto e pelo incólume?
Os anos passaram com pouco empenho desse jovem nas manobras defensivas, de resistência às tentativas de mudança impostas pela força do ar e água. Mas a sua inépcia na reacção foi sempre compensada pelos elementos à sua volta e retaguarda pelo que passou a ser apenas uma palha no agulheiro.
Até ao dia fatídico em que se vislumbra no horizonte algo nunca visto. Começa por avistar-se ao longe uma pequena onda a deslocar-se a 900 Km/h, desacelerando à medida que aproxima da costa, crescendo exponencialmente em altura. O embate está eminente. Todos assumem a sua posição de combate. Entrelaçam ramos e raízes, desde o subsolo até às suas copas, criando uma malha que se manteve intransponível ao longo dos séculos. Quando a onda revolucionária atinge a sua altura máxima de 10 metros, suplanta em quase o dobro a altura dos mais jovens que olham para os anciãos com altura suficiente para olhar para a onda de cima. Estes sorriem-lhes com ar tranquilizador. Mais uma batalha para o registo pensam eles. E retesam seus troncos à sua máxima rigidez e densidade.
O jovem de que falamos à pouco, esse, contempla aquela enorme onda não participando no emaranhado de ramos e raízes. Já tinha desistido de o fazer há muito. Limita-se a torcer em segredo para que ao menos uma vez na vida algo consiga transpor aquela barreira invicta. Qual ingrediente secreto que cai acidentalmente numa fórmula estagnada.
E então dá-se o choque frontal. Ainda antes do contacto físico já a enorme força de sucção tinha levado consigo a terra que firmava a primeira linha. Os corpos dos primeiros tombados serviram de aríetes contra os segundos, que tombados são usados contras os terceiros, que tombados são usados contra os quartos, e assim sucessivamente. O ar crepitava com os milhares de CRAK-TRAK que denunciavam a destruição e desmantelamento da malha criada. Nunca se vira nada assim mas nenhum deles desistiu. Nem a a última linha que assistiu ao massacre de todos os seus companheiros. Limitaram-se a olhar para aquelas águas maciças que usava os próprios corpos das vítimas tombadas como uma paliçada que forma um pára-choque destruidor e imparável. As águas estavam a dar-lhes uma lição de Judo ao usarem a sua própria força contra si multiplicada pela velocidade de deslocação. Quando a última linha tombou as dezenas de milhar de corpos titânicos foram usados para arrasar a vila que durante séculos defenderam. Ironia do destino que os seus maiores defensores fossem agora usados como instrumentos agressores. A vila essa estava completamente indefesa. Há séculos que nada transpirava daquela barreira. Porventura já teriam até esquecido os perigos a que estavam sujeitos com frequência e como a eles reagir. Foram amolecidos pelo sucesso absoluto daqueles que falharam uma única vez na vida, e logo esta.
Quando tudo serenou e as águas abandonaram o que restava da vila existia apenas um observador atento. Alguém que sem lutar contra o inevitável foi moldado ao sabor da maré tendo a sua espinha dorsal suficientemente flexível para evitar mais um CRAK-TRAK. Incrédulo com a magnitude do que se tinha passado, e com a sua sobrevivência, perguntava-se se teria sido o elo mais fraco causador daquela catástrofe. Ou se o evitar de tantas pequenas mudanças ao longo dos séculos teria acumulado a força que levou aquela transformação radical sendo a culpa de todos aqueles que sucumbiram e foram usados como armas de arremesso.
Terá tempo para pensar nisso no futuro. Por agora, pela primeira vez, sente que germinou no lugar indicado e que vai fazer a diferença numa vila que irá renascer dos escombros completamente mudada. Desta vez será ele o General do novo exército que será refeito em poucas décadas. Com as suas regras, as suas estratégias e a sua experiência não mais serão uma barreira intransponível mas antes um coador que deixará transpirar a fúria dos elementos em quantidade suficiente para fazer a mossa necessária para o fortalecimento contínuo daquela vila.
Mas por agora terá de, sozinho, proteger o que resta contra tudo e contra todos.
PS - Saiu-me isto depois de ver esta história na CNN sobre o pinheiro único sobrevivente do Tsunami de Março de 2011
sábado, abril 23, 2011 | | 3 Comments
A Lide da Consciência
O matador entra na arena, que se encontra ao rubro, e vê o alvo dos insultos e exaltação na ponta oposta.
Nunca se tinha visto nada assim. Uma tonelada da mais pura e possante fúria demoníaca. Os toureiros que iniciaram a Faena rodearam-no, estudaram-no, tentaram perceber detalhadamente a sua forma de investir enquanto ao mesmo tempo o procuravam cansar. Cada um deles foi colhido de forma diferente tal a imprevisibilidade deste animal feroz. Deveria estar desorientado, amedrontado, fácil de domar por quem tem o treino adequado. Mas este era diferente.
Este fez a longa viagem a partir da ganadaria sem que se notasse qualquer debilidade, enfrentou a estada nos curros, tão diferentes dos campos que dominava, calmo sem sinal de inquietação. Logo aí os tratadores nos bastidores começaram a avisar "Cuidado que este é diferente!"
Depois dos toureiros vieram os picadores, cavaleiros com suas lanças terminadas em puyas. Lâminas cuja função é dilacerar as terminações nervosas na base do seu pescoço para provocar a perda de força nas patas dianteiras e dificultar o erguer do pescoço. O objectivo seria torná-lo mais lento e forçá-lo a andar cabisbaixo. Chamam-lhe igualar a luta para que o homem fique ao seu nível. Sem esta nivelação, por baixo, facilmente destroçaria o mais forte dos homens. Valentes cavalos, montados por nobres homens, reduzidos a escombros em parcas cornadas. Nem uma vez foi rasgada a carne desta besta. Nem uma!
Neste ponto os organizadores do evento temiam pela possível perda de vidas. Qualquer um dos homens na arena sofria sérios perigos. Mas as bancadas pediam a continuação do espectáculo. Os bandarilhas entraram de seguida para o tentar cansar mas em apenas dois ou três sprints de fuga, à que seria a sua última cornada na vida, já não podiam com as pernas.
O público gritava com ódio de morte aquele bicho que fazia gato sapato dos seus ídolos. A pega foi cancelada. Os forcados não quiseram arriscar enfrentar uma besta que não tinha sido lidada, que não tinha sido picada uma única vez e que não tinha perdido litros do seu sangue que a levasse a cambalear e perder força como seria normal nesta altura da corrida. Esta besta estava no pico das suas capacidades e um forcado não é um kamikaze.
Sobrou apenas o grande Matador. Descendente de uma linhagem dos mais reputados matadores do mundo tauromáquico. Centenas de mortes à primeira estocada, algumas em condições de desvantagem que o tornaram uma lenda viva. Era a ele quem cabia encerrar este assunto.
"Lá está ela. Grande Besta Negra. Deste cabo de tudo o que estava planeado para hoje mas a mim não me escapas. Hoje vou finalmente atingir o recorde de mortes na arena ainda detido pelo meu pai!", pensava com total segurança. Ergue sua espada horizontalmente sobre a cabeça, estanca a sua capa vermelha, que fica perpendicular à espada, e assume a posição de Matador.
O público apercebe-se que finalmente verá o fim para este ultraje de um animal irado que se sobrepõe à valentia e astúcia dos homens e grita extasiado "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ" como se um assistisse a um jogo de futebol onde a sua equipa dominava a outra por completo com passes certeiros sucessivos.
O Matador chama-o. Os cornos viram-se para si, os olhos focam-no, o corpo massivo alinha-se em posição de embalo e inicia o acumular do seu poder em resultado de um instinto de auto-defesa incutido por todas a tentativas de agressão anteriores. Quando atinge o seu climax de fúria explode num arranque de encontro ao Matador deixando para trás uma cratera com mais de meio metro de profundidade. A arena silencia-se e a vibração provocada pelo galope toma conta de todos. O Matador, firme e hirto, espera o momento em que tem de se esquivar e perfurar com a espada num só golpe, atravessando toda aquela musculatura maciça, de encontro ao coração daquele animal.
Falta pouco para o impacto mas a escassos 10 metros algo o faz travar a fundo, diminuindo a intesidade da corrida, depois caminhando até que lentamente pára a apenas 2 metros do Matador que parece uma estátua.
"Que raio!? Já lhe tinha a rota traçada. Ia ser uma morte limpa. Mas porque me terá poupado a investida se despachou todos os outros sem fazer distinção? Temerá a minha espada? Saberá o que o espera?"
A Besta fita-o e de repente deita-se e rebola-se ficando de peito exposto. O Matador está desorientado com tal comportamento e as bancadas incitam-no a aproveitar aquela vulnerabilidade e fazer o seu trabalho. Perderam uma lide mas não perderão uma morte! "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ"
Ali tão de perto repara que na testa do Bicho está uma cicatriz. Com três letras invertidas.
"Mas!? São as iniciais do meu pai!?" e num flash volta aos seus tempos de infância onde às escondidas de todos brincava no picadeiro com um jovem novilho, filho de uma das vacas bravas do seu pai. Era o seu melhor amigo. Tinha instrucções para treinar as lides com esse novilho mas o raio do bicho lambia-o da cabeça aos pés e em vez de investir entrava em guerra de wrestling e jogo do empurra tirando prazer daquele contacto físico inocente. Inclusive chegava a cavalgá-lo como se de um potro se tratasse. Até ao dia em que o pai os apanhou em flagrante e lhe gritou "Mas o que estás a fazer!? Estás-me a estragar o novilho?" antes de os separar violentamente e após um valente estalo lhe lembrar "TU ÉS UM MATADOR!". Lembra-se da forma como o novilho se fez Touro e de rompante deu uma valente marrada no estômago do seu pai que ficou combalido durante uns bons segundos. O Toirinho esse ficou com a fivela do cinto do seu pai cravada na sua testa. Todos os cintos do seu pai tinham as suas iniciais. Depois desse incidente o Toirinho foi levado para outra ganadaria e não mais foi autorizado a lidar com vitelos sozinho.
E agora aqui estava aquele vitelo já Touro. A agir como se ele, o agora Matador, ainda fosse aquele menino inocente. Como se não tivesse sido já formado como o próximo grande Matador na linhagem da sua família que seguia os lemas de que Amar um Touro, Respeitar um Touro é proporcionar-lhe uma boa lide e uma morte digna durante uma luta de igual para igual.
O público esse não tinha participado no seu Flashback e continuava com os seus "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ".
O Matador olha para a sua espada, ainda erguida, e vê na sua lâmina reflectidos o seu pai e filho que se encontram na bancada. O seu filho tem exactamente a idade que ele tinha quando foi sujeito aquela lição de vida. Está na altura de iniciar o treino para ser o próximo grande Matador. O seu pai, Matador já retirado ainda com o recorde de mortes na arena, faz-lhe sinal com o seu polegar apontando para o chão e acena-lhe com a cabeça para terminar o espectáculo executando aquele que é o seu papel. Não há orgulho maior para um pai do que ver um filho atingir-lhe as pegadas. É a primeira base de partida para as ultrapassar.
O público continuava com os seus "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ".
Apesar de não ter acontecido o Matador sentia ter sido esta a maior marrada da sua carreira, só secundada pela melhor marrada da sua vida dada por este mesmo Touro ainda jovem, ao seu pai, quando não era ainda Matador e não se podia defender e às suas ideias por si próprio. O Matador aproxima-se do Touro ali deitado a seus pés, deixa cair a sua espada, abraça-lhe o cachaço, e sussurra-lhe:
- "Olá Touro!"
E ambos choram pelo seu reencontro. O Touro feliz por saber que os homens não são todos iguais e o Matador destroçado por ter morto tantos touros iguais.
Nas bancadas espanto e silêncio. Como é possível as duas criaturas na arena não agirem de acordo com a sua Natureza!? Alguns começam a questionar-se se seria realmente essa a sua Natureza. O pai do Matador por sua vez apercebe-se que o recorde ficará para sempre consigo e encaixa um soco no estômago que o deixará combalido para o resto da vida. Olha para o seu neto, sentado ao seu lado, e vê-o com uma expressão radiante. O neto estava em pulgas por correr para casa e contar o que tinha acontecido ao novilho seu amigo de brincadeiras secretas.
terça-feira, abril 12, 2011 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Pensei-o? Disse-o? Fi-lo? Foda-se
Frio. Está, faz ou sinto? Não sei. Apenas frio. Já não devia com tanto sol. Mas agora não há. É noite. Enquanto penso no que digo (ou digo o que penso?) interrompes-me de surdina por um acaso. Ataco-te imediatamente.
- "O que é?"
- "!? Não é nada. Deve ser confusão."
- "Confusão? Esse olhar? Pois, sim, claro..."
- "Olhava na tua direcção mas não para ti. Foi um acaso."
- "Que novidade... Eu não disse que me tinhas interrompido por um acaso?"
- "!? Não... apenas disseste 'O que é?'. Bruto e mal-educado ainda por cima."
Nisso ela tem razão. Já misturo o que digo com o que penso. Muitas vezes já não sei se falei ou pensei. Mas agora sei que penso o que faz aqui esta mulher a dar trela a um desligado.
- "Não faço nada. Apenas caminho, olho, escuto e vou pensando para me entreter. E como não trouxe o cão também não trouxe a trela."
Merda! Falei!? Arrrgh... oh não... o FDP do frio encravou-me uma das vértebras dois dedos abaixo da cervical, logo no início da torácica, ali onde as clavículas se unem à espinha dorsal. PDI! Não posso mover-me um milímetro sem passar um ar frágil. Aguenta! Não lamenta!
- "E tu que fazes por aqui para além de seres antipático com quem se aproxima demasiado do teu espaço privado?"
- "Eu? Nada. Só frio. Frio hoje não é?"
. "Frio? Estás doente? Com este Sol até a noite é amena. E porque estás tão firme e hirto? Não te mexes um mílimetro! Estás nervoso? Incomodo-te?"
- "Não! Eu é que enervo! Eu é que incomodo! É um jeito que eu tenho, ou um jeito que eu dei. Foda-se! É apenas um jeito!"
Ups. Disse foda-se ou só o pensei? Estou cada vez pior. Mas ela ri-se, deve ser parva. Mas o que faz agora? Dirige-se a mim de braços abertos!? Foge! Mexe-te! FRIO! DÔR NO JEITO! inerte. indefeso. Apanhou-me. Abraça-me como se tivesse razão para isso. Para quê? Porquê? Os abraços dão-se? Recebem-se? Ambos? Há quanto tempo me abraça? Há quanto tempo penso nisso?
Aos poucos quente. O jeito desajeita-se. Quando começo a pensar em evitar abraça-la de volta já o tinha feito por reflexo muscular para confirmar estar desajeitado. Que miséria. Até já o que faço precede o que penso. Afinal para que penso ainda se não me vale de nada mais do que manifestar arrependimento? Agora ficámos entrelaçados.
...
Estou a adorar este abraço.
...
Espero que não se vá embora nunca... FODA-SE! O QUE É ISTO? Que lamechas. É só ficar quente que me derreto todo!? Espero que não o tenha dito.
- "Mas disseste-o!"
- "Disse-o? Ainda bem."

domingo, março 27, 2011 | Etiquetas: História Curta | 4 Comments
Aniblabla
"Aqui estou no cimo deste penhasco debruçado sobre a sua beira. Sinto as pernas paralisadas, ancoradas no solo mas o meu tronco parece que puxado pela gravidade, cada vez mais inclinado sobre o vazio, perto do ângulo em que não me conseguirei suster. Pior que isso é olhar para o fundo, a centenas de metros, sentir aquele hipnótico impulso de saltar. Devo resistir? Devo deixar-me ir? Será o demo? Estarei doido?"
- "Que grande secas! Salta logo, pá! A ver se ganho sossego!"
"Agora oiço vozes!? Olho em redor e não vejo ninguém? Perdi o juízo! Uma voz tão grave e pujante só pode ser um demónio a atormentar-me!"
- "Um demónio? Já me chamaram muita coisa mas essa foi a primeira vez! Só não me vês se não quiseres ó tónhó. Estou mesmo aqui à tua direita à altura da tua cintura."
- "Mas... mas... tu és uma Joaninha!?"
- "Joaninha o %*%$#%#! Sou um Joaninho, olha para isto!" - diz ao mesmo tempo que estende as suas asas e abre as suas patas expondo o seu baixo ventre - "Digno de um Louva-a-Deus, não!?"
"Só posso estar a sonhar. Ouço insectos falar que ainda por cima me ouvem os pensamentos."
- "Claro que te ouço os pensamentos! O que achas que é pensar? Quando ouves essa vozinha interna pensas que é magia? São tão espertos, tão donos do planeta e ainda estão tão longe de se compreender..."
- "Mas como é isto possível? Afinal, estou no Mundo de Farnia ou nas crónicas de Narnia!?"
- "Rapaz, nós falamos connosco mesmo vibrando as cordas vocais de forma tão inconsciente que provocamos a vibração dos nossos tímpanos sem que seja necessário mover as nossas bocas. Tal como respiras movendo os pulmões sem lhes dar ordem expressa para isso, pensas desta forma sem dar por isso. Nós, os outros animais, somos mais sensíveis a determinadas frequências e em pensamentos muito focados conseguimos sintonizá-los sem dificuldade. E os teus são muito maus mas muito focados a modos que me estás a incomodar ao ponto de ter de te mandar calar."
- "E desde quando falam os animais?"
- "Desde sempre..."
- "Desde sempre? E porque não está isso em livros de ciência? Apenas é imaginado em contos de fantasia."
- "Porque há muito tempo atrás deixaram de nos querer ouvir e nós com o passar do tempo deixámos de vos querer falar. Bate boca entre Homens e outros Animais hoje em dia só quando devoram alguns de nós à boca cheia. Apenas um pequeno grupo de vocês ainda tem a capacidade de nos ouvir se decidirmos expor-nos. Para meu azar tu és um deles pelos vistos."
- "Quer dizer que todos os animais falam?"
- "Sim, todos, inclusive vocês. Uns melhor que os outros."
- "Mas aqui onde estamos ouço muitos outros sons de insectos e pássaros. E não ouço nada mais de inteligível para além das tuas palavras. Custa-me a crer que seja um segredo tão bem guardado ao longo de milhares de anos. Alguém que vos ouvisse iria certamente dar nas vistas e espalhar esse facto."
- "Há quem nos sangre e ao ouvir os nossos urros replique que não sentimos dor. Há quem nos veja paralisar de medo ou definhar de tristeza pela liberdade perdida e diga que não sentimos. Há quem nos mate e ao ver a faísca da vida a apagar-se dos nossos olhos diga que não temos alma. Para vocês a partir de um certo ponto da história passámos a ser apenas bichos.E quem afirme que fala com os 'bichos' só pode ser maluquinho. E ninguém quer passar por ser maluquinho.
Tu não percebes o que dizem os animais circundantes porque eles te estão a ver. E neste momento usam os seus dialectos próprios. Cada espécie tem uma língua própria, excepto vocês que têm umas dezenas ou centenas. Mas se confiarem em ti os que aqui estão nas redondezas passarão a falar na língua universal que nos liga a todos. É o que usamos quando não existem humanos à vista."
- "Confiar em mim? E que é preciso para tal?"
- "Apenas tens de encher os pulmões e gritar ANIBLABLA! É essa a palavra mágica que te dará acesso a um mundo que nem sonhavas existir..."
-"Só isso? Pois bem aqui vai! ANIBLABLAAAAAAA!"
O grito ecoa pelos prados descendo a encosta até ao vale. De repente silêncio onde antes reinava o chinfrim.
- "Então? De repente calou-se tudo?"
- "Calma, não é todos os dias que se deparam com um humano a quem se podem revelar na plenitude. Deixa-os processar a surpresa. Até eu fiquei surpreso por a gritares sem querer saber mais sobre o seu efeito!"
Os segundos passam gerando algum desconforto e suspense. Afinal que teria ele feito ao gritar aquela palavra mágica? Nisto ouve-se um coro a cantar em harmonia perfeita.
- "Dorme dorme meu menino
Não deites as mãos de fora
Fecha os teus olhos tão lindos
Que o papão já foi embora
..."
- "Mas que vozes majestosas! Em perfeita harmonia. Uma canção de embalar no verdadeiro sentido do termo! Serão rouxinóis certamente?"
- "Rouxinóis? HAHAHAHA Esses ordinários só sabem contar anedotas porcas. Não, tiveste azar. São os sacanas dos mosquitos e melgas. Andam sempre em bando. Cuidado que são como as sereias. Encantam-te com as suas canções e depois sugam-te até ao tutano!"
- "Isto são mosquitos e melgas? Caramba! Fazem sombra à Susan Boyle!"
- "Quem é essa!? Olha, estão todos a ganhar confiança e a perder o pudor de se revelarem. Agora vais sentir o que é verdadeiramente o nosso mundo."
A pouco e pouco cada um dos animais circundantes recomeça a labuta do seu dia-a-dia inundando o espaço com milhares de vozes cruzadas.
- "Dão-se abraços gratuitos!" - gritam as aranhas do centro da sua teia
- "Sigam-me é por aqui! Já sinto o sabor do açúcar!" - dizem milhares de formigas batedoras
- "1+1=2, 2x7=14, 10:10=1, Pi=3.14159265358979323846,..." - balbuciam os bichos de contas
- "Não me apanhas! Não me apanhas! Hop Hop Hop!" - zombam as lebres irrequietas
- "Ai amor, sinto-me a perder a cabeça..." - diz a Louva-a-Deus para o macho que a corteja
- "Estou cheia de frio nos pés!" - diz uma centopeia passante
- "weeeeeeee weeeeeee uhuuuuuuuuuuuuuuuu" - bradam os pássaros das suas acrobacias nos céus
- "Incrível! De repente sinto que aterrei num outro planeta. Mas de certo modo isto é extenuante. Tantas vozes, milhares, mais avassalador que um estádio inteiro a puxar pela mesma equipa."
- "Isso é falta de hábito. Não é pior do que uma visita à cidade onde somos esmagados pela horda de pensamentos dos milhares de pessoas como tu que enchem as ruas juntamente com os barulhos de toda a maquinaria intoxicante que usam para se deslocarem. Dá-te por feliz por vocês pensarem tanto e falarem tão pouco. Aí sim irias ver o que é uma situação insuportável."
- "Passa-nos assim tanta coisa má pela cabeça? É provável que sim. E devemos sabê-lo bem para guardá-lo para nós. Mas estou é muito curioso em experimentar isto com o meu cão e gato. Que será que têm para me dizer?"
- "Cães e gatos? Esses são todos iguais. Estupidificaram de tanto lidarem com vocês. Os cães são crianças lamechas permanentemente carentes de afecto e atenção. A sua comunicação assenta em pedidos, suplícios e falas engraxadoras que vos derrete o coração.Os gatos são imperadores que apenas te sabem dar ordens e fazer exigências, a que vocês correspondem solícitos parecendo servos a servir um amo. Tiveras-me dado tempo e ter-te-ia perguntado se tinhas o que chamam de 'mascotes' porque se soubesse que as tinhas não te teria revelado este segredo. Lamento pelo inferno em que se vai tornar a tua vida com elas.
E recomendo-te vivamente a ficares afastado de zonas de criação de animais para abate. É que a carne que te chega ao prato é muda mas antes de ficar sem voz agoniza em lamentos e tormentos que te podem levar à loucura, ou pior, a uma qualquer forma de vegetarianismo por motivos incompreendidos pelos teus pares. Já aconteceu no passado."
- "Poderá tornar-se assim tão mau este dom? Se assim fôr quando chegar ao ponto de rotura acabo com isto. Como faço para deixar de vos ouvir?"
- "Deixar de nos ouvir? ha ha ha Essa foi boa. Não é daquelas coisas que possas desligar. Depois de entrares neste mundo ficas com a aura transformada. Agora todos sabemos que nos percebes. Devias ter esperado que te contasse mais pormenores sobre aquilo em que te ias meter. Já não há nada a fazer. A não ser que voltes ao ponto de partida e sigas o impulso de saltar. Se precisares dou-te um empurrãozinho ó mariquinhas!"
domingo, março 20, 2011 | Etiquetas: Conto | 2 Comments
Quem é Susan Molly?
quarta-feira, fevereiro 02, 2011 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
O duro Muro
Talvez o mais difícil de suportar neste imenso páteo de prisão seja esta sensação de isolamento do exterior e solitude passada pelo enorme Muro de betão cru. Cinzento, opaco, esmagador.
Todos se queixam do Muro. Homens, mulheres e crianças sonham destruí-lo, passar-lhe por cima, passar-lhe por baixo ou simplesmente atravessá-lo num passo de mágica real melhor que qualquer ilusão bem planeada. Noites e noites em que nós, reclusos, congeminamos formas de ludibriar os guardas e pôr termo ao reinado desse duro Muro monstro. Há quem chegue a socá-lo em desespero, espancam-no sem dó nem piedade, transformando as próprias mãos numa amálgama de carne e sangue cujos resquícios alimentam as suas fendas.
Estou aqui de breve passagem mas não mais consigo olhar para este Muro nu revoltante. Decido agir, pela calada, numa acção concertada. Falo com as pessoas certas, aquelas que conseguem fazer entrar qualquer coisa pelo preço justo. Não muitos dias depois entregam-me o material e à noite, enquanto todos dormem, começo a pintá-lo. Visto partes do Muro com pinturas de paisagens e pessoas frescas, frutas e pessoas maduras nas mais diferentes situações pitorescas.
Nos dias e semanas que se seguem não mais se fala do Muro como algo a abater. Contemplam-no e discutem-no como se se tivesse transformado em galeria de arte. Cada um dos meus desenhos alivia, acalma o espírito e facilita a aceitação daquele confinamento.
Aconteceu uma noite ser interceptado por um dos anciões, tanto de idade como de tempo de clausura. Interpela-me curioso.
- "Então és tu que pintas o Muro? És tu quem fazes com que fique mais bonito?"
- "Sim, obrigado."
- "Nós não queremos que ele seja bonito! Odiamos este Muro! Pára com isso!"
Percebi então que pintei ilusões assassinas dos sonhos e esperanças de todos os outros. A revolta e insurreição eram alimentadas pelo ódio e desconforto causado pelo duro Muro em cru. Foi nesse momento que passei a odiar as minhas pinturas que transformaram o Muro numa gigante tela hipnótica e sedante. Isso era notório em cada semblante.
Nada mais me restava do que usar o diluente para apagar o mal que fizera. Que pior castigo para um criador que apagar as obras do seu labor. Repus o Muro original e fiz uma última pintura para relembrar a todos que, mesmo sendo aquele o nosso lugar, devemos lutar pelos direitos de viajar ou simplesmente olhar para um horizonte longínquo entretanto já esquecido.
A assinatura fi-la a vermelho com um murro bem em cheio no meio desse maldito duro Muro em betão cru!
domingo, janeiro 23, 2011 | Etiquetas: História Curta | 1 Comments
Falta um arame para a morte
quinta-feira, janeiro 06, 2011 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Entre a porta e o telefone
- Olha amiga, estou aqui enfiada em casa sem pachorra para nada nem ninguém. Só me surgem labregos e já dou patadas automáticas em cada homem que me aborda!
- São todos uns pulhas! Depois da cueca mudam logo do avesso. Não interessa se a têm no primeiro dia, passados uns meses ou só depois do casamento. Depois da estreia passam logo a pensar na reciclagem.
- Podes crer, já não há príncipes encantados...
DING-DONG .... DING-DONG
- Olha tenho de ir. Tocaram à porta, já falamos.
- Ok, até já.
Abre a porta de rompante e depara-se com um homem que lhe diz sorrindo:
- Olá, cheguei!
- Chegaste!? Mas quem és tu!? (pensando "Este deve ser parvo...")
- Sou eu, o teu noivo! Sei que nunca nos vimos mas é comigo que vais casar! Decidi conhecer-te antes do dia marcado.
- Uoooooooh! (misto de espanto e repulsa) Calma lá! Nunca nos vimos, nem nunca nos vamos ver mais, garanto-te. Mas que merda é esta!?
- Mas sou eu o teu noivo prometido! Peguei na morada da carta dos teus pais e decidi fazer-te uma surpresa. Afinal ninguém gosta de se casar com quem nunca viu na vida, não é?
- Pais!? Falar de pais a uma orfã é precisamente o tipo de coisas que te podem fazer arrepender... mostra lá a porcaria da carta.
A carta troca de mãos que se tocam sem retração do gesto.
- Pois, até acertaste na cidade, estás é no país errado! Isto são os USA, a Lisboa que tu querias fica em Portugal!
O homem fecha o sorriso e fica algo apreensivo durante uns momentos. Ela passa a sorrir tímida e debochadamente. De repente o homem recupera o sorriso inicial. Ela volta a uma cara franzida.
- Pois se assim aconteceu que assim seja. Vou casar contigo!
- Estás parvo!? Nem me conheces de lado nenhum e estás no Continente errado! Achas que faz algum sentido isto que estás para aí a dizer?
- Já te conheço há uns minutos, o que é bem mais do que aquilo que conheço a minha noiva arranjada, e já sinto que gosto de ti. Tu também deves gostar de mim senão já me tinhas fechado a porta na cara. O Cristóvão Colombo também pensava ter chegado à Índia quando chegou à América. Ele não voltou para a Índia pois não? Sinto-me bem aqui ao pé de ti e se partir sei que vou ter saudades, ser triste e miserável. Por isso decido ficar e arriscar ser feliz contigo. Que me dizes?
- Que te digo!? Que te digo!? Digo-te que te ponhas a milhas e me deixes em paz!!!
SLAM e a porta bate violentamente escondendo um homem destroçado. Encostada à porta reprocessa a situação e sorri. Com o coração a mil mira o olho-de-boi e não vê ninguém. Perde o sorriso e 920 batidas por segundo. Encaminha-se para o telefone, digita o número da amiga com quem falava antes do incidente para reatar a conversa cortada.
- Então quem era?
- Era um louco a dizer que queria casar comigo, acreditas nisto?
- A sério? Uau! Era giro? Como era?
- Bem, na verdade não era nada de se deitar fora, bem falante, respeitador...
- Hum... Hum... estou a ver ... e tu que fizeste?
Com um semblante carregado e um aperto no estômago responde-lhe:
- Olha, acho que fiz merda...
sexta-feira, dezembro 31, 2010 | | 2 Comments
Um Natal Valentim
É época natalícia, logo a seguir vem o reveillon, segundo as estatísticas são as alturas do ano onde ocorrem mais desavindos, separações, divórcios e mesmo suícidios. Para mim não há perigo, vou passar essas datas sozinho porque passou o período de 9 meses sem que nada desse à luz.
Lembro-me desse dia, de te querer supreender convidando-te para um jantar imprevisto, tanto para ti como para mim, o que resultou na falta de uma reserva de mesa. Andámos de restaurante em restaurante, as filas repletas de bouquets, caixas de bombons e casais emitindo crru-crrus ternurentos enquanto roçavam os corpos. Nós, não dispostos a esperar, seguíamos pela estrada rolando e rindo. Acabámos num Drive-in a pedir uma junk-food qualquer. Meu Deus que pecado aquelas sobremesas cremosas com toppings do Diabo.
Seguimos para um spot no meio do nada com vista para o mar. Agarraste-me a mão que estava sobre o manípulo das mudanças com medo de que eu não respeitasse o fim de caminho e nos jogasse pela ravina. Não percebi se foi um sentimento de insegurança ou a tua forma discreta de criar a primeira faísca. Aquele pequeno toque foi a ignição de um desejo escondido que me esforcei por voltar a aprisionar nos confins do meu subconsciente.
Ficámos ali parados olhando as estrelas e o manto de luz lunar sobre o espelhado do mar. A música hipnótica e as nossas falas dengosas empurraram-nos para o banco de trás e embaciaram todos os vidros. Já não estávamos no mundo mas sim num casulo só nosso, entrelaçados, sofrendo uma metamorfose para estados de alma indescritíveis.
Seria por causa da magia agendada anualmente para aquele dia ou pura coincidência? Na verdade éramos apenas bons amigos e de repente isso era pouco para descrever a nossa relação. Não sei se fomos alvos de um pequeno anjo que semeou em nós a semente da paixão mas o que é facto é que não se explica facilmente o fogo que ali ardeu.
O dia seguinte era meados e não muito tempo depois chegámos ao fim. E é por isso que agora é Natal, daqui a pouco é Ano Novo, e eu sonho aqui sozinho, esperando ansiosamente pelo dia catorze em que voltarei a convidar-te para um jantar surpresa. Desta vez precavi-me e já reservei mesa. Só te peço que esperes por mim porque prometo que seda para nos envolver em novo casulo não nos faltará.
sábado, dezembro 11, 2010 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Escrito de Fresco porquê?
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