Quem é Susan Molly?

- Susan... Susan... SUSAN MOLLY! Onde andas metida rapariga? Estás novamente metida no armário debaixo das escadas a dar asas à batuta e a serpentear feitiços em latim? Ainda não percebeste que a magia dos livros não passa para a vida de carne e osso?

- Evanesco! Evanesco! Evanesco!

- Sim, sim. Mete-te mas é ao fresco. Vamos jantar. O teu pai está à tua espera e quer saber quem é aquele rapaz com quem estavas aos amassos em frente aos Paços do Conselho.  Primeiro comes a sopa em paz e depois prepara-te. Já sabes do que ele é capaz.

A sopa estava deliciosa, cremosa quase ao ponto de se poder comer à garfada. Era uma sopa cruzada de batata e cenoura com um pouco de beringela, o suficiente para polvilhar a superfície com uma constelação de minúsculos pontos negros. No final juntavam-se as beldroegas. O meu pai adorava-a e era o único momento de paz ao jantar. Em que não nos metralhava com perguntas, opiniões e mandos do que fazer com a nossa vida. Durante uns momentos só se ouvia o slurp do sorver de cada colher. Lembro-me de acabar a sopa e dizer:

- Temos de falar.

- Oooh Molly... Falar? Agora? Estão a dar as notícias! É o único momento do dia em que posso ver o que se passou no mundo enquanto estou enfiado em trabalho.

- Hoje sou eu as notícias. Não estou bem. Sinto a falta de experiências. Não me devia ter agarrado a ti tão cedo. Eu gosto de ti, a sério. Mas passei contigo a juventude e agora nestes trinta e poucos sinto-me esvaziada de momentos. Sinto que para crescer individualmente preciso de partir e viver, sei lá.

- Partir, Susan!? Mas julgas que basta um Beam me up Scotty para desapareceres daqui a velocidade Warp? Vais esquecer tudo, desde o nosso primeiro beijo nos Paços do Conselho, assim num abrir e piscar de olhos?

Fechei os olhos para o encarar melhor e naquele momento tive saudades da algazarra do meu pai e das sopas da minha mãe. Ele continuou com o seu bla bla bla. Coisas importantes, sérias e pretensamente acertadas. Mas a busca da felicidade não passa por fazer as escolhas acertadas. Pelo menos para os outros. Abri os olhos pronta para tudo.

- Mas que mais queres tu saber?

- Como conseguiste largar tudo e partir para a missão humanitária em África! E como lá conheceste o pai!

- Sabes que Molly quer dizer maricas ou homem enfeminado?

- Não...

- Pois ficaste a saber agora. A sorte é que sou uma mulher! Susan Molly! 

- Mas mãe! Eu sou Molly! Sou maricas!?

- Cala-te e sorve a sopa.

O duro Muro

Talvez o mais difícil de suportar neste imenso páteo de prisão seja esta sensação de isolamento do exterior e solitude passada pelo enorme Muro de betão cru. Cinzento, opaco, esmagador.

Todos se queixam do Muro. Homens, mulheres e crianças sonham destruí-lo, passar-lhe por cima, passar-lhe por baixo ou simplesmente atravessá-lo num passo de mágica real melhor que qualquer ilusão bem planeada. Noites e noites em que nós, reclusos, congeminamos formas de ludibriar os guardas e pôr termo ao reinado desse duro Muro monstro. Há quem chegue a socá-lo em desespero, espancam-no sem dó nem piedade, transformando as próprias mãos numa amálgama de carne e sangue cujos resquícios alimentam as suas fendas.

Estou aqui de breve passagem mas não mais consigo olhar para este Muro nu revoltante. Decido agir, pela calada, numa acção concertada. Falo com as pessoas certas, aquelas que conseguem fazer entrar qualquer coisa pelo preço justo. Não muitos dias depois entregam-me o material e à noite, enquanto todos dormem, começo a pintá-lo. Visto partes do Muro com pinturas de paisagens e pessoas frescas, frutas e pessoas maduras nas mais diferentes situações pitorescas.

Nos dias e semanas que se seguem não mais se fala do Muro como algo a abater. Contemplam-no e discutem-no como se se tivesse transformado em galeria de arte. Cada um dos meus desenhos alivia, acalma o espírito e facilita a aceitação daquele confinamento.

Aconteceu uma noite ser interceptado por um dos anciões, tanto de idade como de tempo de clausura. Interpela-me curioso.

- "Então és tu que pintas o Muro? És tu quem fazes com que fique mais bonito?"
- "Sim, obrigado."
- "Nós não queremos que ele seja bonito! Odiamos este Muro! Pára com isso!"

Percebi então que pintei ilusões assassinas dos sonhos e esperanças de todos os outros. A revolta e insurreição eram alimentadas pelo ódio e desconforto causado pelo duro Muro em cru. Foi nesse momento que passei a odiar as minhas pinturas que transformaram o Muro numa gigante tela hipnótica e sedante. Isso era notório em cada semblante.

Nada mais me restava do que usar o diluente para apagar o mal que fizera. Que pior castigo para um criador que apagar as obras do seu labor. Repus o Muro original e fiz uma última pintura para relembrar a todos que, mesmo sendo aquele o nosso lugar, devemos lutar pelos direitos de viajar ou simplesmente olhar para um horizonte longínquo entretanto já esquecido.

A assinatura fi-la a vermelho com um murro bem em cheio no meio desse maldito duro Muro em betão cru!

Falta um arame para a morte


Olho para cima e vejo-a ali, como o último grão de areia de uma ampulheta, que teimosamente desafia a gravidade antes de fechar mais um ciclo e obrigar à manobra de inversão que marca o seu enterro sob o peso de todos os outros.

Aquela faca está ali, pendurada, à espera de me marcar como um ponto de exclamação final. Tão depressa corta o vento, como se torna baloiçante, ou rodopiante tal qual uma mortal rosa dos ventos.

Deixaram-na ali para me atormentar. Para saber que tenho os minutos contados aqui nesta cadeira onde estou acorrentado e amordaçado. Completamente de mãos atadas.

Olho para o arame que a prende, ora reluz ora se torna invísivel. Sonho que seja de titânio, ou aço bem temperado, mas julgo que seja de simples níquel. Cada vez mais fino, frágil, cada vez mais perto de um romper fácil.

Fiz o mínimo exigido. Enchi o peito de ar e enrijei os músculos ao seu máximo volume. As correntes afrouxaram um pouco ao expulsar todo o ar mas o problema são as mãos. Estes nós são fora do normal. Contorço os pulsos, dou esticões precisos, mas nada. Parece que cada vez me apertam mais. A minha carrasca desta vez esmerou-se.

-Já chega!? Posso parar com isto?

Grita-me ela de repente, surgida do nada, num misto de provocação e preocupação.

Abano com cabeça dizendo que não. Um homem deve manter a sua dignidade apesar de tudo. Se a faca me matar ela também fica sem o que mais quer no mundo. Há aqui um duplo jogo de bluff. Ambos fingimos não nos preocupar com o que vai acontecer quando aquele arame se romper mas tememos esse momento inevitável.

Há algo no meu olhar que a leva a retirar-me a mordaça.

-Diz! Fala as palavras que te salvarão!

-Não, não tenho medo!

Viro a cara na direcção oposta enquanto continuo a debater-me com os malditos nós. É então que se ouve um SNAP seguido de um ssssssssilvo mortal. A sua trajectória é precisa e o alvo é a minha cabeça. Gritamos os dois e deliro ouvindo muitos outros gritos na escuridão. Olho para cima e fixo-a. Reajo por instinto, abro a boca, e acaba-se tudo num fechar de olhos. Por segundos o tempo pára,  então a faca é desembainhada de minha boca, as luzes acendem-se, salto da cadeira liberto, ileso, e a sala enche-se de aplausos da plateia.


Entre a porta e o telefone

- Olha amiga, estou aqui enfiada em casa sem pachorra para nada nem ninguém. Só me surgem labregos e já dou patadas automáticas em cada homem que me aborda!

- São todos uns pulhas! Depois da cueca mudam logo do avesso. Não interessa se a têm no primeiro dia, passados uns meses ou só depois do casamento. Depois da estreia passam logo a pensar na reciclagem.

- Podes crer, já não há príncipes encantados...

DING-DONG .... DING-DONG

- Olha tenho de ir. Tocaram à porta, já falamos.

- Ok, até já.

Abre a porta de rompante e depara-se com um homem que lhe diz sorrindo:

- Olá, cheguei!

- Chegaste!? Mas quem és tu!? (pensando "Este deve ser parvo...")

- Sou eu, o teu noivo! Sei que nunca nos vimos mas é comigo que vais casar! Decidi conhecer-te antes do dia marcado.

- Uoooooooh! (misto de espanto e repulsa) Calma lá! Nunca nos vimos, nem nunca nos vamos ver mais,  garanto-te. Mas que merda é esta!?

- Mas sou eu o teu noivo prometido! Peguei na morada da carta dos teus pais e decidi fazer-te uma surpresa. Afinal ninguém gosta de se casar com quem nunca viu na vida, não é?

- Pais!? Falar de pais a uma orfã é precisamente o tipo de coisas que te podem fazer arrepender... mostra lá a porcaria da carta.

A carta troca de mãos que se tocam sem retração do gesto.

- Pois, até acertaste na cidade, estás é no país errado! Isto são os USA, a Lisboa que tu querias fica em Portugal!

O homem fecha o sorriso e fica algo apreensivo durante uns momentos. Ela passa a sorrir tímida e debochadamente. De repente o homem recupera o sorriso inicial. Ela volta a uma cara franzida.

- Pois se assim aconteceu que assim seja. Vou casar contigo!

- Estás parvo!? Nem me conheces de lado nenhum e estás no Continente errado! Achas que faz algum sentido isto que estás para aí a dizer?

- Já te conheço há uns minutos, o que é bem mais do que aquilo que conheço a minha noiva arranjada, e já sinto que gosto de ti. Tu também deves gostar de mim senão já me tinhas fechado a porta na cara. O Cristóvão Colombo também pensava ter chegado à Índia quando chegou à América. Ele não voltou para a Índia pois não? Sinto-me bem aqui ao pé de ti e se partir sei que vou ter saudades, ser triste e miserável. Por isso decido ficar e arriscar ser feliz contigo. Que me dizes?

- Que te digo!? Que te digo!? Digo-te que te ponhas a milhas e me deixes em paz!!!

SLAM  e a porta bate violentamente escondendo um homem destroçado. Encostada à porta reprocessa a situação e sorri. Com o coração a mil mira o olho-de-boi e não vê ninguém. Perde o sorriso e 920 batidas por segundo. Encaminha-se para o telefone, digita o número da amiga com quem falava antes do incidente para reatar a conversa cortada.

- Então quem era?

- Era um louco a dizer que queria casar comigo, acreditas nisto?

- A sério? Uau! Era giro? Como era?

- Bem, na verdade não era nada de se deitar fora, bem falante, respeitador...

- Hum... Hum... estou a ver ... e tu que fizeste?

Com um semblante carregado e um aperto no estômago responde-lhe:

- Olha, acho que fiz merda...


Um Natal Valentim

É época natalícia, logo a seguir vem o reveillon, segundo as estatísticas são as alturas do ano onde ocorrem mais desavindos, separações, divórcios e mesmo suícidios. Para mim não há perigo, vou passar essas datas sozinho porque passou o período de 9 meses sem que nada desse à luz.

Lembro-me desse dia, de te querer supreender convidando-te para um jantar imprevisto, tanto para ti como para mim, o que resultou na falta de uma reserva de mesa. Andámos de restaurante em restaurante, as filas repletas de bouquets, caixas de bombons e casais emitindo crru-crrus ternurentos enquanto roçavam os corpos. Nós, não dispostos a esperar, seguíamos pela estrada rolando e rindo. Acabámos num Drive-in a pedir uma junk-food qualquer. Meu Deus que pecado aquelas sobremesas cremosas com toppings do Diabo.

Seguimos para um spot no meio do nada com vista para o mar. Agarraste-me a mão que estava sobre o manípulo das mudanças com medo de que eu não respeitasse o fim de caminho e nos jogasse pela ravina. Não percebi se foi um sentimento de insegurança ou a tua forma discreta de criar a primeira faísca. Aquele pequeno toque foi a ignição de um desejo escondido que me esforcei por voltar a aprisionar nos confins do meu subconsciente.

Ficámos ali parados olhando as estrelas e o manto de luz lunar sobre o espelhado do mar. A música hipnótica e as nossas falas dengosas empurraram-nos para o banco de trás e embaciaram todos os vidros. Já não estávamos no mundo mas sim num casulo só nosso, entrelaçados, sofrendo uma metamorfose para estados de alma indescritíveis.

Seria por causa da magia agendada anualmente para aquele dia ou pura coincidência? Na verdade éramos apenas bons amigos e de repente isso era pouco para descrever a nossa relação. Não sei se fomos alvos de um pequeno anjo que semeou em nós a semente da paixão mas o que é facto é que não se explica facilmente o fogo que ali ardeu.

O dia seguinte era meados e não muito tempo depois chegámos ao fim. E é por isso que agora é Natal, daqui a pouco é Ano Novo, e eu sonho aqui sozinho, esperando ansiosamente pelo dia catorze em que voltarei a convidar-te para um jantar surpresa. Desta vez precavi-me e já reservei mesa. Só te peço que esperes por mim porque prometo que seda para nos envolver em novo casulo não nos faltará.




Problema de Visão

- Que vê? Está a fazer uma cara tão estranha!?
- Vejo como nunca vi antes! Sinto-me um falcão! Nunca vi tão nítido e com tanta profundidade, na verdadeira plenitude da tridimensionalidade. Ao avançar ou recuar sinto a paisagem a movimentar-se, centímetro a centímetro, como se cada camada do horizonte estivesse assente em painéis deslizantes. Impressionante como o mundo parece estar vivo agora que estou ciente de todas as sobreposições e dimensões dos edifícios, das montanhas, das árvores, até das nuvens! Meu Deus, olhar a paisagem desta forma é como o descascar de uma cebola em que cada camada emana esplendor e não ardor.
- Mas e antes? Como via?
- Antes? Antes apenas via borrões coloridos. Vivia ofuscado por um mundo esférico, desfocado, disforme, onde apenas variava a dimensão e intensidade de cada elemento. Apenas conseguia definir-me a mim, fosse por olhar o meu corpo, fosse por reflexo num espelho.
- Pelo que descreve parecia ter uma cegueira iluminada. Via mas nada de entendível. Sempre foi assim?
- Não. Mais tarde comecei a ver com clareza aquilo que estava à distância de dois metros. Tudo o resto parecia um mero papel de parede que decorava o fundo do meu mundo.
- E neste momento apercebe-se de tudo?
- Sim, agora vejo com clareza toda a panorâmica e sem exagero até ao ponto em que se denota a curvatura da terra lá longe, lá muito longe.
- A curvatura da terra!?
- Sim, juro que consigo distinguir o horizonte a passar de um plano rectilíneo para um plano curvo. É uma visão impressionante. O meu cérebro fervilha com toda a informação enviada pelos meus olhos!
- Hum... nesse caso é melhor experimentar estas lentes com a graduação ligeiramente diferente. Porque ver assim tão bem é anormal e o que pretendemos é que tenha uma visão normal.

Woman Ironing (inspired by)

"Só mais uns minutos... e a pilha de roupa desaparece... por hoje...
Depois basta-me despachar o jantar e dar banho ao meu neto. Hoje finalmente vou conseguir dormir 6 horas. Amanhã pego cedo ao trabalho para conseguir sair a horas de arrumar a casa do Sr. Dr. Quando chegar aqui a casa trato da roupa do meu filho e da minha nora.
Coitados, mesmo desempregados a vida é um corropio e falta-lhes o tempo para estas coisas. Agoram treinam caminhadas para ir a Fátima rezar por uma vida com menos dificuldades. Também o queria fazer mas não posso... não posso...
Para a semana recebo e é a dobrar, estamos na altura do subsídio de Natal. Vou saldar a dívida dos toques de telemóveis. É caríssimo mas cá por casa todos o adoram e gosto de os ver felizes.
No mês que vem já devo conseguir comprar a roupa que o meu filho precisa. Só a Gant lhe assenta bem, que se vai fazer? Enquanto tiver forças lutarei por todos eles. São a minha família e só lhes quero dar o melhor.
Para o Natal não sei como vai ser... com esta lista que me deram... mas qualquer coisa se há-de arranjar! Trabalho mais um bocadinho e deixo para o ano aquele miminho para mim.
Dá-me gosto fazer este esforço por eles porque sei, não, minto, TENHO A CERTEZA, que um dia quando eu já não puder mais serão eles que vão tratar de mim com o dobro daquilo que faço por eles hoje. Sim, é isso, tenho a certeza..."
Nisto solta-se uma lágrima que cascata pelo rosto até se desprender da queixada aterrando na base do ferro quente que lhe responde com um simples "Pffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff"

A Fotografia Perdida

Aguardo na praça, entre o jardim e a igreja, que os meus companheiros escolham alguns souvenirs de entre as obras de arte dos artistas locais na feira de candonga improvisada. Estou apenas ali, encostado a uma grade fria e rija sentido aquelas cores, sons e cheiros.

De súbito no banco vazio em frente a mim acomoda-se um anónimo.Aparenta ser mais um mas de repente surpreende-me. Adopta uma posição de semi-abertura de pernas, braços abertos estendidos sobre a tábua de encosto, e a cabeça reclinada para trás de forma a ser banhada pelos raios de luz que rasam a sombra que lhe cobre o resto do corpo.

Veste umas sandálias que prendem os pés com três tiras, uns calções esfarrapados e uma t-shirt temática da qual não me lembro o tema. A barba está semi-cerrada e usa uns óculos escuros seguramente com idade similar à sua que andará à volta dos 50s e muitos. Numa das mãos, a sua direita que está à minha esquerda, estende um charuto aceso que fumega por vontade própria.

Será um turista? Será um vagabundo? Será um dos habitantes locais?

De repente por detrás de uma das lentes escuras escorre uma lágrima que provoca um reflexo brilhoso. Uma única lágrima a partir do seu olho direito, que ainda está à minha esquerda. Grossa e contínua, pára junto à sua narina crescendo de volume devido ao caudal.

Uma mosca pousa-lhe na face esquerda, essa sim à minha direita, e percorre-lhe os pêlos esbranquiçados. Ele nada! Imóvel, sereno. "Que fotografia perfeita!", penso eu. "Tiro-a?". Mas tenho a máquina pendurada junto ao estômago que já formiga com a ideia de captar aquela imagem única cheia de contrastes. Um aparente vagabundo, com um toque aristocrático e fashion dados pelos charuto e óculos escuros, seguidos pela melancolia da lágrima e apatia da mosca.

Hesito...ele está a dois metro de mim... vai ouvir o click... como reagirá? Terei o direito de lhe invadir este momento? Mas a imagem é de uma perfeição tal sobre uma condição humana que faria a delícia de todos com quem a partilhasse. Talvez até fosse premiada, quem sabe?

Respiro fundo e carrego no botão da máquina para a ligar. Ouve-se um simples e doce Tzzzzzzz da objectiva a colocar-se em posição e ele move-se. Olha em redor passando os olhos por mim por 2 ou 3 segundos. Pausa e volta a recolocar-se na sua posição mágica. Tzzzzz acobardo-me, ou respeito-o, e desligo a máquina. Resigno-me com o facto de que serei o túmulo deste momento irrepetível.

Em todo este tempo nem uma baforada foi dada no charuto e a lágrima ainda lá está. Já a mosca, essa foi-se.


PS - não o fotografei (este é outro qualquer) mas escrevi-o.

O Morto Vivo

- OLHA OLha olha! não acredito! Anda cá! És tu? Pensava que tinhas morrido! Foi o que me tinham dito! Várias pessoas, ainda por cima. Nem sabes o alívio que estou a sentir por te ver assim vivo da silva.
- hehehe Morto? Eu? Não, está tudo bem comigo, não te preocupes amigo.
- Porra, mas toda a gente me dizia que tinhas morrido num acidente, numa viagem pelo estrangeiro ou lá o que tinha sido.
- Sim, conheço a história. Fui eu que lancei o boato. :)
- !? Foste tu que lançaste o boato? Mas estás parvo? Brincadeira de merda.
- Decidi educar as pessoas para deixarem de sentir tristeza pela minha morte. Pelos vistos conheces uma das minhas mortes. No passado recente também já me afoguei ao saltar de um penhasco na Costa Vicentina e estatelei-me num salto de paraquedismo que correu mal. Nessa até me tinha desintegrado ao aterrar hehehehe
- Que raio... tu és doente mental, só podes. O que é isso de educar as pessoas para não sentirem a tua perda?
- Simples. De cada vez que sabem que estou vivo, como tu agora, primeiro fazem uma festa ao reverem-me e depois deixam de acreditar na próxima notícia sobre a minha morte. Pensam que lá está aquele palhaço a gozar novamente. E até se divertem. Um dia quando morrer mesmo ninguém vai acreditar e escusa-se de perder tempo com lamentos e o ritual do velório e funeral.
- Mas tu pensas que as pessoas não vão dar pela tua falta? Não dares notícias nem apareceres?
- Ouve lá, há quanto tempo não nos víamos?
- Sei lá, uns 3 ou 4 anos não?
- Exacto. E não fosse te terem dito que eu tinha morrido achavas que eu estava vivo?
- Bem, sem nada em contrário naturalmente iria achar que estarias vivo.
- E achando que eu estaria vivo se me visses um dia, ao longe, pensarias para contigo que lá estava eu e se não fizessemos contacto visual provavelmente nem te metias comigo.
- Er... sim talvez, poderia acontecer.
- Mas hoje, como pensavas que eu estava morto, acabaste por querer confirmar se era eu, ou não, e chamaste-me a atenção para ti. E aqui estamos nós na galhofa.
- Sim, é verdade...
- Lá está, acabo por reavivar mais contactos morto do que vivo! Nem sabes a quantidade de pessoas que não via há anos que me encontram agora em todo o lado. Já andavam por lá mas escondidas nas sombras. É preciso um isco para se mostrarem e sairem do conforto dos seus esconderijos e das suas inseguranças. Neste caso o isco é o momento divino de me verem, um morto, à sua frente. A resurreição in loco.
- Desculpa lá, essa teoria está muito à frente da minha capacidade de entendimento. Mas vejo uma falha na tua arquitectura diabólica. A mesma da fábula de Pedro e o Lobo. Se um dia realmente morreres ninguém terá a oportunidade de se despedir de ti, porque vão pensar que é mais uma das tuas farsas, e estarás sozinho no teu funeral.
- Já foste a algum funeral?
- Sim, claro.
- Então deves compreender que num funeral a única pessoa com quem gostaríamos de falar é exactamente aquela que já não pode falar. Dizer-lhe e ouvir-lhe umas últimas palavras. Por isso poupo a toda a gente um dia perdido e cinzento. E eu certamente não sentirei a falta de nada. Por isso se queres despedir-te de mim, assim uma coisa sentida, podes fazê-lo de cada vez que me vires porque pode ser a última.
- ..... deste-me um verdadeiro nó na cabeça ..... Mas em todo o caso gostei de te ver e de conversar contigo. Vê lá se ganhas juízo e vais dando notícias. De vida e não de morte.
- Ok, eu mantenho o contacto a não ser que algo mortal me aconteça...

Perdi as rédeas do tempo!


Aqui está! Finalmente encontrei-o. Anda fugido mas apanhei-lhe o rasto e já lhe tenho um bocado. Um bocado do tempo escorrido.

Neste entretanto assisti ao de leve a muito tempo de antena dado a quem deixou de ter tempo de vida. Parece que por mais Feios que sejamos quando vivos, todos daremos um bonito cadáver na morte. Nessa altura ouvem e interessam-se por tudo o que dissemos em vida, dizem-nos tudo o de bom sobre nós que nunca connosco partilharam. Normalmente os vivos são tratados assim. Se se gosta não se diz, se não se gosta diz-se nas costas. E quem tenha a coragem de dizer o que pensa, no momento em que o pensa, é logo etiquetado de maluco ou doido varrido. As homenagens póstumas são sempre mais cómodas porque estão isentas de contraditório, quer por parte dos homenageados quer por parte de quem não concorde. É uma homenagem cobarde mas com sucesso e entretenimento garantido.

Mas voltando ao meu tempo parece-me que o perdi por já não ter ponteiros para o domar com o palpitar dos seus tick-tacks. Vejo-o em todo o lado, em formato electrónico, como se de um mero joguete se tratasse. Até o meu telemóvel que dorme, ao acordar, mostra-me a hora em que se deitou durante um ou dois segundos até se conseguir situar no agora. Como se estivesse a fazer um zapping do momento em que vive. Um ou dois segundos não seriam nada se eu não fosse da geração do bit e do byte que vive ao microssegundo. Um segundo tem mil microssegundos e juro que os senti perderem-se um a um. Esses microssegundos são-me preciosos pois neles faço o escape do real para o imaginário, ocupando-me com fantasias, dissertações e ilustrações mentais enquanto a monótona realidade se desenrola ao ritmo do segundo ou por vezes do minuto. 

Mas já nada há a fazer se até numa ampulheta vi uma mulher de bikini em silhueta. Quando o tempo está assim tão dissimulado tão depressa nos empurra descontroladamente em frente, nos passa totalmente ao lado ou  simplesmente nos bloqueia o caminho. As rédeas que o controlam certamente vão de rojo atrás dele deixando veios etéreos por onde se espojam.

Hei-de voltar a agarrá-las mas até lá sinto falta do meu assincronismo que faz de mim quem sou.

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy

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