Entre a porta e o telefone
- Olha amiga, estou aqui enfiada em casa sem pachorra para nada nem ninguém. Só me surgem labregos e já dou patadas automáticas em cada homem que me aborda!
- São todos uns pulhas! Depois da cueca mudam logo do avesso. Não interessa se a têm no primeiro dia, passados uns meses ou só depois do casamento. Depois da estreia passam logo a pensar na reciclagem.
- Podes crer, já não há príncipes encantados...
DING-DONG .... DING-DONG
- Olha tenho de ir. Tocaram à porta, já falamos.
- Ok, até já.
Abre a porta de rompante e depara-se com um homem que lhe diz sorrindo:
- Olá, cheguei!
- Chegaste!? Mas quem és tu!? (pensando "Este deve ser parvo...")
- Sou eu, o teu noivo! Sei que nunca nos vimos mas é comigo que vais casar! Decidi conhecer-te antes do dia marcado.
- Uoooooooh! (misto de espanto e repulsa) Calma lá! Nunca nos vimos, nem nunca nos vamos ver mais, garanto-te. Mas que merda é esta!?
- Mas sou eu o teu noivo prometido! Peguei na morada da carta dos teus pais e decidi fazer-te uma surpresa. Afinal ninguém gosta de se casar com quem nunca viu na vida, não é?
- Pais!? Falar de pais a uma orfã é precisamente o tipo de coisas que te podem fazer arrepender... mostra lá a porcaria da carta.
A carta troca de mãos que se tocam sem retração do gesto.
- Pois, até acertaste na cidade, estás é no país errado! Isto são os USA, a Lisboa que tu querias fica em Portugal!
O homem fecha o sorriso e fica algo apreensivo durante uns momentos. Ela passa a sorrir tímida e debochadamente. De repente o homem recupera o sorriso inicial. Ela volta a uma cara franzida.
- Pois se assim aconteceu que assim seja. Vou casar contigo!
- Estás parvo!? Nem me conheces de lado nenhum e estás no Continente errado! Achas que faz algum sentido isto que estás para aí a dizer?
- Já te conheço há uns minutos, o que é bem mais do que aquilo que conheço a minha noiva arranjada, e já sinto que gosto de ti. Tu também deves gostar de mim senão já me tinhas fechado a porta na cara. O Cristóvão Colombo também pensava ter chegado à Índia quando chegou à América. Ele não voltou para a Índia pois não? Sinto-me bem aqui ao pé de ti e se partir sei que vou ter saudades, ser triste e miserável. Por isso decido ficar e arriscar ser feliz contigo. Que me dizes?
- Que te digo!? Que te digo!? Digo-te que te ponhas a milhas e me deixes em paz!!!
SLAM e a porta bate violentamente escondendo um homem destroçado. Encostada à porta reprocessa a situação e sorri. Com o coração a mil mira o olho-de-boi e não vê ninguém. Perde o sorriso e 920 batidas por segundo. Encaminha-se para o telefone, digita o número da amiga com quem falava antes do incidente para reatar a conversa cortada.
- Então quem era?
- Era um louco a dizer que queria casar comigo, acreditas nisto?
- A sério? Uau! Era giro? Como era?
- Bem, na verdade não era nada de se deitar fora, bem falante, respeitador...
- Hum... Hum... estou a ver ... e tu que fizeste?
Com um semblante carregado e um aperto no estômago responde-lhe:
- Olha, acho que fiz merda...
sexta-feira, dezembro 31, 2010 | | 2 Comments
Um Natal Valentim
É época natalícia, logo a seguir vem o reveillon, segundo as estatísticas são as alturas do ano onde ocorrem mais desavindos, separações, divórcios e mesmo suícidios. Para mim não há perigo, vou passar essas datas sozinho porque passou o período de 9 meses sem que nada desse à luz.
Lembro-me desse dia, de te querer supreender convidando-te para um jantar imprevisto, tanto para ti como para mim, o que resultou na falta de uma reserva de mesa. Andámos de restaurante em restaurante, as filas repletas de bouquets, caixas de bombons e casais emitindo crru-crrus ternurentos enquanto roçavam os corpos. Nós, não dispostos a esperar, seguíamos pela estrada rolando e rindo. Acabámos num Drive-in a pedir uma junk-food qualquer. Meu Deus que pecado aquelas sobremesas cremosas com toppings do Diabo.
Seguimos para um spot no meio do nada com vista para o mar. Agarraste-me a mão que estava sobre o manípulo das mudanças com medo de que eu não respeitasse o fim de caminho e nos jogasse pela ravina. Não percebi se foi um sentimento de insegurança ou a tua forma discreta de criar a primeira faísca. Aquele pequeno toque foi a ignição de um desejo escondido que me esforcei por voltar a aprisionar nos confins do meu subconsciente.
Ficámos ali parados olhando as estrelas e o manto de luz lunar sobre o espelhado do mar. A música hipnótica e as nossas falas dengosas empurraram-nos para o banco de trás e embaciaram todos os vidros. Já não estávamos no mundo mas sim num casulo só nosso, entrelaçados, sofrendo uma metamorfose para estados de alma indescritíveis.
Seria por causa da magia agendada anualmente para aquele dia ou pura coincidência? Na verdade éramos apenas bons amigos e de repente isso era pouco para descrever a nossa relação. Não sei se fomos alvos de um pequeno anjo que semeou em nós a semente da paixão mas o que é facto é que não se explica facilmente o fogo que ali ardeu.
O dia seguinte era meados e não muito tempo depois chegámos ao fim. E é por isso que agora é Natal, daqui a pouco é Ano Novo, e eu sonho aqui sozinho, esperando ansiosamente pelo dia catorze em que voltarei a convidar-te para um jantar surpresa. Desta vez precavi-me e já reservei mesa. Só te peço que esperes por mim porque prometo que seda para nos envolver em novo casulo não nos faltará.
sábado, dezembro 11, 2010 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Problema de Visão
- Que vê? Está a fazer uma cara tão estranha!?
- Vejo como nunca vi antes! Sinto-me um falcão! Nunca vi tão nítido e com tanta profundidade, na verdadeira plenitude da tridimensionalidade. Ao avançar ou recuar sinto a paisagem a movimentar-se, centímetro a centímetro, como se cada camada do horizonte estivesse assente em painéis deslizantes. Impressionante como o mundo parece estar vivo agora que estou ciente de todas as sobreposições e dimensões dos edifícios, das montanhas, das árvores, até das nuvens! Meu Deus, olhar a paisagem desta forma é como o descascar de uma cebola em que cada camada emana esplendor e não ardor.
- Mas e antes? Como via?
- Antes? Antes apenas via borrões coloridos. Vivia ofuscado por um mundo esférico, desfocado, disforme, onde apenas variava a dimensão e intensidade de cada elemento. Apenas conseguia definir-me a mim, fosse por olhar o meu corpo, fosse por reflexo num espelho.
- Pelo que descreve parecia ter uma cegueira iluminada. Via mas nada de entendível. Sempre foi assim?
- Não. Mais tarde comecei a ver com clareza aquilo que estava à distância de dois metros. Tudo o resto parecia um mero papel de parede que decorava o fundo do meu mundo.
- E neste momento apercebe-se de tudo?
- Sim, agora vejo com clareza toda a panorâmica e sem exagero até ao ponto em que se denota a curvatura da terra lá longe, lá muito longe.
- A curvatura da terra!?
- Sim, juro que consigo distinguir o horizonte a passar de um plano rectilíneo para um plano curvo. É uma visão impressionante. O meu cérebro fervilha com toda a informação enviada pelos meus olhos!
- Hum... nesse caso é melhor experimentar estas lentes com a graduação ligeiramente diferente. Porque ver assim tão bem é anormal e o que pretendemos é que tenha uma visão normal.
sábado, dezembro 04, 2010 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Woman Ironing (inspired by)
"Só mais uns minutos... e a pilha de roupa desaparece... por hoje...
Depois basta-me despachar o jantar e dar banho ao meu neto. Hoje finalmente vou conseguir dormir 6 horas. Amanhã pego cedo ao trabalho para conseguir sair a horas de arrumar a casa do Sr. Dr. Quando chegar aqui a casa trato da roupa do meu filho e da minha nora.
Coitados, mesmo desempregados a vida é um corropio e falta-lhes o tempo para estas coisas. Agoram treinam caminhadas para ir a Fátima rezar por uma vida com menos dificuldades. Também o queria fazer mas não posso... não posso...
Para a semana recebo e é a dobrar, estamos na altura do subsídio de Natal. Vou saldar a dívida dos toques de telemóveis. É caríssimo mas cá por casa todos o adoram e gosto de os ver felizes.
No mês que vem já devo conseguir comprar a roupa que o meu filho precisa. Só a Gant lhe assenta bem, que se vai fazer? Enquanto tiver forças lutarei por todos eles. São a minha família e só lhes quero dar o melhor.
Para o Natal não sei como vai ser... com esta lista que me deram... mas qualquer coisa se há-de arranjar! Trabalho mais um bocadinho e deixo para o ano aquele miminho para mim.
Dá-me gosto fazer este esforço por eles porque sei, não, minto, TENHO A CERTEZA, que um dia quando eu já não puder mais serão eles que vão tratar de mim com o dobro daquilo que faço por eles hoje. Sim, é isso, tenho a certeza..."
Nisto solta-se uma lágrima que cascata pelo rosto até se desprender da queixada aterrando na base do ferro quente que lhe responde com um simples "Pffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff"
sábado, novembro 20, 2010 | Etiquetas: História Curta | 2 Comments
A Fotografia Perdida
Aguardo na praça, entre o jardim e a igreja, que os meus companheiros escolham alguns souvenirs de entre as obras de arte dos artistas locais na feira de candonga improvisada. Estou apenas ali, encostado a uma grade fria e rija sentido aquelas cores, sons e cheiros.
De súbito no banco vazio em frente a mim acomoda-se um anónimo.Aparenta ser mais um mas de repente surpreende-me. Adopta uma posição de semi-abertura de pernas, braços abertos estendidos sobre a tábua de encosto, e a cabeça reclinada para trás de forma a ser banhada pelos raios de luz que rasam a sombra que lhe cobre o resto do corpo.
Veste umas sandálias que prendem os pés com três tiras, uns calções esfarrapados e uma t-shirt temática da qual não me lembro o tema. A barba está semi-cerrada e usa uns óculos escuros seguramente com idade similar à sua que andará à volta dos 50s e muitos. Numa das mãos, a sua direita que está à minha esquerda, estende um charuto aceso que fumega por vontade própria.
Será um turista? Será um vagabundo? Será um dos habitantes locais?
De repente por detrás de uma das lentes escuras escorre uma lágrima que provoca um reflexo brilhoso. Uma única lágrima a partir do seu olho direito, que ainda está à minha esquerda. Grossa e contínua, pára junto à sua narina crescendo de volume devido ao caudal.
Uma mosca pousa-lhe na face esquerda, essa sim à minha direita, e percorre-lhe os pêlos esbranquiçados. Ele nada! Imóvel, sereno. "Que fotografia perfeita!", penso eu. "Tiro-a?". Mas tenho a máquina pendurada junto ao estômago que já formiga com a ideia de captar aquela imagem única cheia de contrastes. Um aparente vagabundo, com um toque aristocrático e fashion dados pelos charuto e óculos escuros, seguidos pela melancolia da lágrima e apatia da mosca.
Hesito...ele está a dois metro de mim... vai ouvir o click... como reagirá? Terei o direito de lhe invadir este momento? Mas a imagem é de uma perfeição tal sobre uma condição humana que faria a delícia de todos com quem a partilhasse. Talvez até fosse premiada, quem sabe?
Respiro fundo e carrego no botão da máquina para a ligar. Ouve-se um simples e doce Tzzzzzzz da objectiva a colocar-se em posição e ele move-se. Olha em redor passando os olhos por mim por 2 ou 3 segundos. Pausa e volta a recolocar-se na sua posição mágica. Tzzzzz acobardo-me, ou respeito-o, e desligo a máquina. Resigno-me com o facto de que serei o túmulo deste momento irrepetível.
Em todo este tempo nem uma baforada foi dada no charuto e a lágrima ainda lá está. Já a mosca, essa foi-se.
PS - não o fotografei (este é outro qualquer) mas escrevi-o.
sábado, novembro 13, 2010 | Etiquetas: Crónica (ou género disso), História Curta | 5 Comments
O Morto Vivo
- OLHA OLha olha! não acredito! Anda cá! És tu? Pensava que tinhas morrido! Foi o que me tinham dito! Várias pessoas, ainda por cima. Nem sabes o alívio que estou a sentir por te ver assim vivo da silva.
- hehehe Morto? Eu? Não, está tudo bem comigo, não te preocupes amigo.
- Porra, mas toda a gente me dizia que tinhas morrido num acidente, numa viagem pelo estrangeiro ou lá o que tinha sido.
- Sim, conheço a história. Fui eu que lancei o boato. :)
- !? Foste tu que lançaste o boato? Mas estás parvo? Brincadeira de merda.
- Decidi educar as pessoas para deixarem de sentir tristeza pela minha morte. Pelos vistos conheces uma das minhas mortes. No passado recente também já me afoguei ao saltar de um penhasco na Costa Vicentina e estatelei-me num salto de paraquedismo que correu mal. Nessa até me tinha desintegrado ao aterrar hehehehe
- Que raio... tu és doente mental, só podes. O que é isso de educar as pessoas para não sentirem a tua perda?
- Simples. De cada vez que sabem que estou vivo, como tu agora, primeiro fazem uma festa ao reverem-me e depois deixam de acreditar na próxima notícia sobre a minha morte. Pensam que lá está aquele palhaço a gozar novamente. E até se divertem. Um dia quando morrer mesmo ninguém vai acreditar e escusa-se de perder tempo com lamentos e o ritual do velório e funeral.
- Mas tu pensas que as pessoas não vão dar pela tua falta? Não dares notícias nem apareceres?
- Ouve lá, há quanto tempo não nos víamos?
- Sei lá, uns 3 ou 4 anos não?
- Exacto. E não fosse te terem dito que eu tinha morrido achavas que eu estava vivo?
- Bem, sem nada em contrário naturalmente iria achar que estarias vivo.
- E achando que eu estaria vivo se me visses um dia, ao longe, pensarias para contigo que lá estava eu e se não fizessemos contacto visual provavelmente nem te metias comigo.
- Er... sim talvez, poderia acontecer.
- Mas hoje, como pensavas que eu estava morto, acabaste por querer confirmar se era eu, ou não, e chamaste-me a atenção para ti. E aqui estamos nós na galhofa.
- Sim, é verdade...
- Lá está, acabo por reavivar mais contactos morto do que vivo! Nem sabes a quantidade de pessoas que não via há anos que me encontram agora em todo o lado. Já andavam por lá mas escondidas nas sombras. É preciso um isco para se mostrarem e sairem do conforto dos seus esconderijos e das suas inseguranças. Neste caso o isco é o momento divino de me verem, um morto, à sua frente. A resurreição in loco.
- Desculpa lá, essa teoria está muito à frente da minha capacidade de entendimento. Mas vejo uma falha na tua arquitectura diabólica. A mesma da fábula de Pedro e o Lobo. Se um dia realmente morreres ninguém terá a oportunidade de se despedir de ti, porque vão pensar que é mais uma das tuas farsas, e estarás sozinho no teu funeral.
- Já foste a algum funeral?
- Sim, claro.
- Então deves compreender que num funeral a única pessoa com quem gostaríamos de falar é exactamente aquela que já não pode falar. Dizer-lhe e ouvir-lhe umas últimas palavras. Por isso poupo a toda a gente um dia perdido e cinzento. E eu certamente não sentirei a falta de nada. Por isso se queres despedir-te de mim, assim uma coisa sentida, podes fazê-lo de cada vez que me vires porque pode ser a última.
- ..... deste-me um verdadeiro nó na cabeça ..... Mas em todo o caso gostei de te ver e de conversar contigo. Vê lá se ganhas juízo e vais dando notícias. De vida e não de morte.
- Ok, eu mantenho o contacto a não ser que algo mortal me aconteça...
domingo, setembro 19, 2010 | | 1 Comments
Perdi as rédeas do tempo!
Aqui está! Finalmente encontrei-o. Anda fugido mas apanhei-lhe o rasto e já lhe tenho um bocado. Um bocado do tempo escorrido.
Neste entretanto assisti ao de leve a muito tempo de antena dado a quem deixou de ter tempo de vida. Parece que por mais Feios que sejamos quando vivos, todos daremos um bonito cadáver na morte. Nessa altura ouvem e interessam-se por tudo o que dissemos em vida, dizem-nos tudo o de bom sobre nós que nunca connosco partilharam. Normalmente os vivos são tratados assim. Se se gosta não se diz, se não se gosta diz-se nas costas. E quem tenha a coragem de dizer o que pensa, no momento em que o pensa, é logo etiquetado de maluco ou doido varrido. As homenagens póstumas são sempre mais cómodas porque estão isentas de contraditório, quer por parte dos homenageados quer por parte de quem não concorde. É uma homenagem cobarde mas com sucesso e entretenimento garantido.
Mas voltando ao meu tempo parece-me que o perdi por já não ter ponteiros para o domar com o palpitar dos seus tick-tacks. Vejo-o em todo o lado, em formato electrónico, como se de um mero joguete se tratasse. Até o meu telemóvel que dorme, ao acordar, mostra-me a hora em que se deitou durante um ou dois segundos até se conseguir situar no agora. Como se estivesse a fazer um zapping do momento em que vive. Um ou dois segundos não seriam nada se eu não fosse da geração do bit e do byte que vive ao microssegundo. Um segundo tem mil microssegundos e juro que os senti perderem-se um a um. Esses microssegundos são-me preciosos pois neles faço o escape do real para o imaginário, ocupando-me com fantasias, dissertações e ilustrações mentais enquanto a monótona realidade se desenrola ao ritmo do segundo ou por vezes do minuto.
Mas já nada há a fazer se até numa ampulheta vi uma mulher de bikini em silhueta. Quando o tempo está assim tão dissimulado tão depressa nos empurra descontroladamente em frente, nos passa totalmente ao lado ou simplesmente nos bloqueia o caminho. As rédeas que o controlam certamente vão de rojo atrás dele deixando veios etéreos por onde se espojam.
Hei-de voltar a agarrá-las mas até lá sinto falta do meu assincronismo que faz de mim quem sou.
domingo, agosto 29, 2010 | Etiquetas: Devaneio | 1 Comments
Um mundo livro
O ruído envolvente de conversas desconexas formam uma surpreendente calma caótica onde tanto se diz e nada se ouve. Não me concentro em nenhuma conversa em particular mas ouço perfeitamente alguns trechos como:
"... tu queres-me ouvir antes de dares opinião? Ainda nem um gajo se explicou já estás a opinar, dasse! ...",
"... e ela ia lá tomar a pílula de emergência e já tinha feito abortos mas essa parte da reportagem passei para outros que eu não sou capaz ...",
"... e o gajo mete nojo só está ali para fazer merda e entalar os colegas ...",
"... Do you want some Sangria? Very good very good ..." e
"... isso das malas guardarem lugar não pode ser!".
Os ouvidos são daqueles orgãos independentes que não conseguimos desligar nem direccionar para um ponto exacto. Acabamos por ouvir o que queremos, o que não queremos e ponto final. Para compensar usava os olhos num varre varre aleatório tanto para os lados como para cima. Sim, para cima. Pouca gente olha para cima hoje em dia. Estrelas já não há muitas e as nuvens há muito que deixaram de ser transformadas pela imaginação. Pois eu olhei para cima e vi uma libélula enorme! Ali no meio da cidade. Sobrevoou-nos com dois círculos e zarpou. Nesse momento reforcei os ouvidos mas nada, nem um "OLHA UMA LIBÉLULA!".
Tinha de ali estar mais de uma hora à espera, pelo que decidi fitar algumas figuras que conversavam, apenas pela piada de tentar ler o seu estado de espírito a partir da sua expressão facial e corporal. Por vezes fitavam-me de volta. Nessa altura eu montava um ar de estar incomodado com a sua conversa, como se a estivesse a ouvir, até ao ponto em que se sentiam desconfortáveis, como que reconhecendo que o teor da conversa não era o mais apropriado para um espaço público. Eles lá saberiam.
Foi então, num desses momentos de paragem do olhar, que te vejo a levar o indicador à boca e a estenderes a língua delicadamente para o passar ao de leve. Encostas o indicador ao livro e avanças uma página. Como é possível? Estás aí impávida e serena perante a algazarra do casal desavindo, das jornalistas fanfarronas, das tricas laborais, dos turistas estrangeiros, e dos saltimbancos que procuram lugar na plateia esgotada.
Como não te deixas afogar por este mar de vozes e pelas suas ondas sonoras? Decido ler-te enquanto lês o teu livro. Ver como as linhas do teu rosto espelham o que se passa nas linhas do teu livro. Neste momento vives para ele. Expiras ao varrer os parágrafos de lés a lés e inspiras em cada virar de página. Eu não estou longe de ti. Talvez a dois braços de distância. Por vezes chamo-te com o olhar para não incomodar mas nada. Folheias o livro como se estivesses numa outra dimensão e não neste mundo cão. Tento ver o título na lombada mas tens-ma bem protegida com a tua mão.
De repente sou puxado para uma velhinha que bebe uma garrafa de coca-cola pelo gargalo. Entre goles enrola e desenrola a língua como um relógio de cuco, no fim chupa o ar entre os dentes emitindo silvos higiénicos com um ar refastelado enquanto o refrigerante lhe chega à bocha.
Volto a ti e ainda lês, com a agravante que desta vez róis as unhas. Fico curioso pelo porquê mas não me atrevo a interromper-te o prazer. Aguardo pacientemente olhando para as capa e contra-capa como se fossem dois pratos de uma balança. Vou torcendo para que a capa roube todas as gramas à contra-capa. Nessa altura chamar-te-ei novamente, talvez com mais vigor e quem sabe um gesto de mãos.
Um estrondo seguido de um cheiro intenso que se suplanta ao das bifanas dos que sentam algumas cadeiras ao lado. O estrangeiros deixam tombar uma garrafa de tinto carrascão cujo odor monipoliza todas as narinas. Algum desconforto local mas tu não, os teus olhos não saiem do teu livro e limitas-te a rodear a orelha ajeitando os cabelos como se nada se tivesse passado.
Nisto as luzes somem-se, o gongo soa, e o silêncio absorve todas as vozes e o caos audível. Estás a 4 ou 5 páginas do fim do teu livro e és forçada a parar. Lanças um suspiro e um esgar de desagrado enquanto o fechas e guardas na mala. Levantas-te e sais deixando-me só na plateia.
domingo, julho 25, 2010 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Um Coelho, uma Lebre e o Falcão esvoaçante
- "Ei, Lebre! Aguenta os cavalos! Onde vais com essa intensidade zig-zagueante?"
- "Olha-me este... que tens tu com isso ó Coelho?"
- "Ter, ter não tenho nada. Mas essa tua dessintonia borra-me a paisagem. Estás em todo o lado ao mesmo tempo mas não vais para lugar nenhum!"
- "E qual o problema? O dia ainda não acabou, tenho muito para onde ir parar. Tu por outro lado, Coelho, que fazes aí especado tal e qual um animal ruminante? Só te falta a linha do comboio ou um palácio..."
- "Antes de mais sou mesmo ruminante sua Lebre ignorante. Simplesmente aprecio a vista e o tempo nestas paragens. Não preciso de partir nem de ter onde chegar. Tenho tudo aqui. Comida, abrigo e até mesmo atenção e carinho."
- "Assim de bandeja? Sortudo, felpudo orelhudo... Já eu corro diariamente por comida, tenho mais tocas do que as que guardo na memória, a nenhuma posso chamar lar, e atenção atraio sobretudo a dos caçadores. Mas isto não é uma quinta? Não estarás na boa vida para a engorda e depois panela contigo?"
- "Não, não. Sou coelho mascote. Para a panela há ali aqueles em cativeiro nas traseiras. Tenho melhor sorte felizmente."
- "Eles prisioneiros com destino marcado e tu aqui, à solta, livre, vida de Lorde. Que acham eles disso?"
- "Na verdade estes não sei. Já ando aqui há uns anos mas aqueles só costumam estar ali uns meses. Ainda meti conversa com os primeiros mas só pedem ajuda ou têm raiva ou inveja. Sou só um Coelho. Têm que compreender que tenho as minhas limitações. Assim deixei de os ver e faço por os esquecer."
- "Estou a ver... mascote há só uma. Bem orelhudo, foi um prazer, mas não sei sequer por e para onde vou. Tenho de me fazer ao mato na esperança que uma das minhas tocas esquecidas me encontre."
-"Ok, Lebre. Segue lá um pouco mais certa para o teu destino incerto. Não me monopolizes a vista deixando um rasto de figuras tuas."
E lá foi a Lebre em sprint pensando se num qualquer futuro terá a capacidade de apreciar o conforto de um ponto de partida e de um ponto de chegada conhecidos.
E lá ficou o Coelho parado magicando como seria verdadeiramente libertador seguir um dia por um caminho não planeado para chegar onde calhar.
Sobre ambos um Falcão paira observando-os como ilustrações vivas de um cardápio. O em sprint ou o parado são a mesma coisa, não fosse ele dotado de visão de alta precisão e capaz de um voo picado silencioso a mais de 300 kmh. Apenas estava indeciso sobre qual iria sentir o aperto das suas garras.
Já os coelhos das traseiras ficam como estão. Alheios e esquecidos nem sei porque foram para aqui chamados.
sexta-feira, julho 09, 2010 | Etiquetas: Conto | 1 Comments
Estar sentado sobre uma falésia é sinónimo de uma amnésia momentânea. Há algo nesta fronteira elevada entre o terrestre e o marítimo que nos limpa o espírito e nos faz voltar a ver com o olhar e a ouvir os ruídos.
Mas é preciso estar na linha exacta que permite esse esquecimento. Dois passos atrás e de volta à segurança da terra firmada e da vida tomada, dois passos em frente e depois de uns segundos de medo Olá Sr. Rochedo!
Sempre tive este fascínio de andar em beiradas de precipícios. "Sai já daí Nuno Miguel!" e com um bocadinho de sorte esquivava-me à palmada. Mas à socapa, sempre que tinha oportunidade, lá fazia de cabra montanhesa (existirá o termo cabrão montanhês?) just for the thrill of it.
Voar seria mais fácil como faz esta gaivota que me arrasta o olhar para este paradoxo: uma casa sobre a falésia!
Viver sobre a falésia não será um constante esquecer? E tudo esquecer é viver? Dou a mão à palmatória que aquela caverna pode ser um bom escape para uma qualquer alegoria, mas é quase certo que ali viver nos levaria a ser esquecidos. Ou pior, ali viver poderia levar-nos a esquecer que ali existe uma falésia.
domingo, junho 13, 2010 | Etiquetas: Devaneio | 0 Comments
Escrito de Fresco porquê?
Seguidores
Arquivo do blogue
- dezembro 2019 (1)
- junho 2018 (1)
- outubro 2017 (1)
- agosto 2017 (1)
- junho 2017 (1)
- maio 2017 (3)
- março 2017 (1)
- setembro 2016 (1)
- dezembro 2015 (1)
- agosto 2015 (1)
- março 2015 (1)
- fevereiro 2015 (1)
- dezembro 2014 (2)
- novembro 2014 (3)
- junho 2014 (1)
- abril 2014 (2)
- março 2014 (1)
- janeiro 2014 (1)
- outubro 2013 (1)
- julho 2013 (1)
- junho 2013 (1)
- fevereiro 2013 (1)
- novembro 2012 (1)
- outubro 2012 (2)
- agosto 2012 (1)
- junho 2012 (2)
- maio 2012 (1)
- abril 2012 (2)
- março 2012 (1)
- janeiro 2012 (4)
- dezembro 2011 (1)
- novembro 2011 (1)
- outubro 2011 (1)
- setembro 2011 (1)
- agosto 2011 (1)
- julho 2011 (1)
- abril 2011 (2)
- março 2011 (2)
- fevereiro 2011 (1)
- janeiro 2011 (2)
- dezembro 2010 (3)
- novembro 2010 (2)
- setembro 2010 (1)
- agosto 2010 (1)
- julho 2010 (2)
- junho 2010 (3)
- maio 2010 (6)



