Corre por mim mas fá-lo comigo!
Como nos outros dias ligam-nos a TV bem cedo, por mim nunca a apagavam, é boa para abafar os nossos "huuuunnnnnn", "sssssssssssss", "aaaaaaaah", incontroláveis e expiatórios da pressão interna causada por estes corpos estranhos que gestamos involutariamente.
Pelos vistos hoje há uma corrida contra o cancro em que apelam aos atletas para correrem por nós, os doentes oncológicos, porque nós não podemos. Gozam? Correrem por mim!? Julgam que me alegro porque correm por mim uma manada de atletas saudáveis? Mesmo parado a cada segundo eu corro contra a morte, numa luta mental contra a necessidade de parar, entregar-me e finalmente descansar. Uma ultra-maratona inevitável em que tento evitar, a todo o meu custo, chegar ao ponto em que decida mudar de direcção e correr contra a vida.
Não preciso que corram, que se entretenham, que vivam, por mim. Dava-me jeito, isso sim, que me arrastassem para essa corrida! Aproveitar como deve de ser as rodas desta cama hospitaleira, atá-la a correias atreladas a atletas vigorosos. Ah caraças! Como ia adorar sentir novamente o vento na fuça! Ficar-lhes-ia eternamente grato por esse carregamento, por esse momento de carroceiro arruaçeiro. Caso contrário cá continuo, imóvel, neste aborrecido sofrimento.
Querem correr? Corram. Apenas não o façam por mim. Não vos pedi nem o quero. Também eu corri no meu tempo, sem motivo aparente, sem causa nem objectivo. Tivesse eu passado nessa altura pelos hoje meus colegas de quarto, acamados, conscientemente inanimados, agonizando na luta contra o cancro, e lhes gritasse em euforia do meio da rua que estava a correr por eles, porra, eram bem capaz de me mandar para o CA$#%#0! he he he
Ao remoer pensamentos e memórias, praticamente a única coisa que me é físicamente possível, frequentemente matuto na última vez que comprei um par de ténis. Entrei na loja e imediatamente fui abordado por um jovem que calçava uns ténis desportivos imaculados, topo de gama da melhor marca.
- "Bom dia, posso ajudá-lo?"
- "Desde que não atrapalhe toda a ajuda é bem-vinda! Procuro uns ténis de corrida. Baratos."
- "Baratos? Olhe que o barato sai caro. Tendo em conta a sua idade vale a pena investir um pouco mais para ter um pisar mais confortável, aumentar rendimento, evitar lesões, ..."
- "Sim, barato! Quero sentir que o que tenho calçado não vale nada para o sujeitar a provações e desgastar sem dó nem piedade. Tenho para mim que uns ténis ricos e cuidados não podem ser sujeitos às agruras de trilhos mal tratados. Esses estão formatados para belas estradas ou tartãs cómodos e especializados, pisos que não fazem parte do meu caminho."
- "Pelo menos considere estes com a última tecnologia relativa a micro-perfuração permitindo um melhor respirar e controlo da temperatura..."
- "Oh amigo, primeiro eu respiro pelos pulmões, segundo, na minha idade sou bombardeado com informação preventiva sobre o perigo dos ossos corroídos com micro-fissuras, dos músculos destruídos por micro-rupturas e agora quer convencer-me que ténis micro-perfurados são melhores!? Macro, quero ténis macro! Com preço Makro de preferência! Como aqueles ali!? São tão baratos porquê?"
- "Não lhe aconselho esses... são outlet... vêm com imperfeições de fábrica... são mesmo solução de recurso para quem não pode investir melhor."
- "Ténis imperfeitos! Provavelmente produzidos por crianças ainda crianças qb e não crianças já transformadas em autómatos da perfeição. Ténis imperfeitos que encaixam na imperfeição dos trilhos que hei-de com eles palmilhar! São estes!"
- "Faça-se a vontade do freguês... espero que não volte aqui a acusar-me de não me ter esforçado mais para lhe vender um produto melhor... e que pela sua saúde só esteja a pensar andar ou correr pequenos trajectos!"
- "Meu jovem, já não perco tempo em pequenas corridas, espero que quando tenha a minha idade saiba que só são verdadeiramente benéficas para a saúde as corridas de longo curso que não têm retorno."
E saí deixando um vendedor desapontado.
Esses ténis safaram-se durante mais de 10 anos, até hoje. Aposto que esperam por mim, pelas minhas melhoras, abandonados, ainda com a gravilha cravada na sola, maquilhados com as poeiras de todos os locais palmilhados. Como seria bom tê-los agora calçados, poder vacilar, deixar-me levar, porque esses ténis, meus amigos, esses ténis já estão ensinados.
Esses sim, correm por mim e fazem-no sempre comigo.
domingo, junho 08, 2014 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
S'enche a pança
Começou enquanto buscava numerário no meio do dicionário
Ao encontrá-lo, espanto!
O elemento rário emigrara para um qualquer imaginário!
Nume ficou
Requalificado em
Me
Nu
Resultado da fusão entre um inglesismo e um corte no despesismo.
Nem fico mal vestido apenas de fome num formato disforme.
Nem se nota o remendo do digestivo que me mantém o estômago furtivo!
E tu,
matreiro,
que tudo decides,
aí do cimo do meu telhado de zinco,
olhas-me tranquilo,
gerindo o ponteiro até ao chá das cinco.
Oh como é importante gerir...
GERIR!
JE
RIR
HA HA HA
Rir é o melhor remédio quando não há remédio.
Rir é uma trapaça, um género de carapaça que nos encouraça.
Não se iludam pelo riso e seu belo sorriso
Estejam certos que por detrás espreita um siso conciso.
Tu ris-te...
Diz-me, que esconde o teu?
Abre as tuas comportas de marfim,
liberta a tua língua,
vocifera em mim tudo aquilo que te deixa à míngua
Tudo o que tu queres esquecer,
tu procuras esquecer,
tu não podes esquecer.
Os teus olhos não deixam.
Os teus ouvidos confessam.
Esquecer...
És
que
ser
Que ser és tu quando não te deixam sê-lo?
Quando te plantam as ideias,
quando te roubam as ideias,
quando já não queres ter ideias.
Deixas a mina secar na esperança vã de que os mineiros se vão.
Num ápice
passas de mina de diamantes a mina de carvão.
Aquietas-te a um canto, a pouco mais fazer, do que contar o tempo a passar...
É o tempo dinheiro?
NÃO!
Não se guarda em mealheiro!
O tempo perdido não pode ser encontrado.
O tempo perdido não beneficia outrém.
É simplesmente uma meta que fica mais aquém.
Ei! Vejam! Além!
Já viram o que chove?
Ou o que vai chover?
Já ouviram o que venta?
Ou o que vai ventar?
Sintam-nos!
São ventos de mudança de uma tempestade de mar!
O que vem depois?
Será bonança?
Será MATANÇA?
Que me importa a mim, se é este vento que sopra, o vento que me enche a pança?
PS - este poema resulta da adaptação de um escrito para fazer um género de estreia de Poetry Slam num evento de jantar de Natal de empresa. Aborda a temática da crise e seus efeitos colaterais. Assunto tão em voga nos últimos anos. Pareceu-me bem colocá-lo online junto da celebração dos 40 anos do 25 de Abril.
quinta-feira, abril 24, 2014 | Etiquetas: Poesia? | 0 Comments
Serial Killer
Eu, assassino em série, me confesso
Aqui estou, como sou
Como assim, como sou?
Talvez seja melhor começar como tudo começou
Como comecei
Um começo espesso
completamente virado do avesso
E então
me matei,
pela primeira vez
Matei-me ingénuo, inocente
Tornei-me culpado, inclemente
completamente diferente
Sonhei o pesadelo dos outros
Assinei papéis e contratos
Vivi a vida de todos
Olhos cegos, ouvidos moucos
Até que a meio acordei
e mais uma vez
me matei
Sim
assassinei-me várias vezes
mais que uma
mais que duas
mais que ...
três?
Não sei.. de contas sou meio tan-tan
Direi que me mato o necessário para me manter a mente sã
Tenho brio em fazer o que é preciso mantendo o sangue frio
Noviço fi-lo inadvertidamente
Hoje faço-o selectivamente
Sou o homicida de serviço
Em mim há muitos,
em mim há uma legião
Não estou possuído por ela
Sou seu comandante, seu capitão
Ela é a minha armada,
bela
É entre ela que eu escolho e
Mato, morro
Mato, morro
Mato, morro
trabalhando a fusão do meu interior
em socorro do meu exterior
Não tenho heterónimos pois todos eles são eu
Cada um, um meu sinónimo, anónimo
São-no à sua vez,
ontem como agora
Até chegar de morte a sua hora
Porque por vezes há que
perecer
para ser
Por favor não me vejam como um demo
Pois também eu um dia temo,
ainda que de forma tímida e íntima,
vir a tornar-me a próxima vítima.
Talvez por isso
Eu,
serial killer,
vos digo
com esta grosa de rimas e palavras à toa
com esta prosa sem tesão de livro de Henry Miller
Que quero ser menos poesia e mais Pessoa
Nem que para isso tenha de
até à eternidade
despir-me de
toda e qualquer identidade
expondo-me integralmente nu
NU
Faria!?
PS - a ideia para este poema surgiu no dia Mundial da Poesia em que assisti a um evento na Malaposta onde foi declamada/interpretada parte da obra de Fernando Pessoa. Pus-me a pensar se realmente necessitaríamos de nos fazer passar por outros para passar emoções e formas de estar antagónicas. Se Pessoa tivesse sido só Pessoa e não todos os que foi a sua obra teria menos impacto? Deverá um artista criar versões de si para cada uma delas manter uma consistência homogénea em vez de se apresentar como um ser único ainda que com laivos de esquizofrenia?
E que coerência temos ao longo da vida já que se a vivermos plenamente estaremos em constante mutação?
E assim nasceu este texto, com um cunho pessoal final onde faço um trocadilho com o meu nome Nuno Faria, assumindo-me como alguém que mantendo a cara e o nome vai altercando o seu conteúdo.
Ontem teve o seu baptismo de Slam, hoje é entregue ao mundo.
sexta-feira, abril 18, 2014 | Etiquetas: Poesia? | 2 Comments
Sentir o ronco
<grrrrrr ... grrrrrr ... grrrrrrrr>
O sopro do teu ronco resmunga
<grrrrrr ... grrrrrr ... sniff!>
O sopro do teu ronco funga
Há noites em que me embala
hora após hora
Há dias em que me fere como se fora uma bala
dá-me ganas de fazer as putas das malas e ir embora!
Esse vendaval que respinga
vindo das tuas entranhas
esse local ébrio sem pinga
tão diferente do teu ser sério, etéreo
Com que cada vez mais me estranhas
Com que cada vez menos me amas
É este teu ar quente, eloquente, meu único alento
Ao menos retira-nos o frio do calafrio,
deixando-nos a sós com o silêncio deste calamento...
Com esta merda de acasalamento!
<grrr rronc rronc!?>
Shhhhhhh
Mantém-te nesse teu sonhar roncador
Fica para mim o desemaranhar deste tear do amor
A nossa lã não é pura nem virgem
Provém de meadas górdias
embebidas em lágrimas
esgrouviadas
enleadas em escórias
Escorri-as!
E delas se soltaram
enredos, bruxedos e outros medos
Graúdos cornudos
relatando pecados carnudos
E eu
feita camafeu
endureço o rosto
mostrando-me pronta para a sua afronta
Capaz de provar o veneno do seu mosto
Contudo
perco-me na toponímia da sua ignomínia
Cansada
sem calo para mais, desisto e jogo tudo pelo ralo
Esvai-se pelo esgoto em espiral de cristal
ensonsa, sem um pingo de sal
Para me tranquilizar afago-te o falo
Penso mesmo em dar-te uma mamada
Sentir-te no goto
<huuummmmm>
Estamos em sintonia, tu gemes, eu quero gemada
É então que me apercebo que paraste de ressonar
Sinal que estás prestes a despertar
Sim, já o sinto, aí te vens tu, com o teu habitual dizer
"PÁRA! O QUE ME ESTÁS A FAZER!?"
assim mesmo
com o teu
membro em riste
é perpétuo
é triste
o finar de um ronco
pelo raiar de um bronco
PS - este poema escrevi-o num Domingo altamente ressacado em que precisava de mais um para o caso de passar de fase de seleção num evento de Poetry Slam. Estava um dia cinzento, chuvoso, muito pouco inspirador. Ao meu lado uma das minha cadelas dormia profundamente e dela soava um ronco. Sonoro, presente, envolvente, preenchendo o vazio da minha mente ressacada. Fez-me pensar em como diferentes roncos, ou quem sabe o mesmo em diferentes pessoas ou seres, podem provocar reacções desde o adorável ao insuportável. E assim este bronco escreveu sobre um ronco e o seu tudo ou nada.
Porque escrevi esta 'origem' aqui? Porque muitas vezes ao ler um poema me pergunto sobre a sua origem e intenção do autor desejoso de o cruzar com a minha interpretação. Se és desses que questionam o mesmo aqui fica satisfeita a tua curiosidade.
domingo, março 16, 2014 | Etiquetas: Devaneio, Poesia? | 0 Comments
Danças?
Podíamos ter ido a um bar dançante, onde a dança se traduz ao abanar da cabeça e a um ou outro esticar de braços e pernas quando o afrouxar do aperto da multidão assim o permita, mas não, viemos parar a um salão de dança...
Aqui tudo muda de figura. Há uma banda a tocar ao vivo, a trocar olhares, a incitar ao auditório que se liberte das cadeiras e preencha a libertadora pista de dança que separa os músicos da plateia.
É mais ou menos neste ponto que sou inundado por suores frios. Observo uma série de casais a assistir, elas progressivamente a serem contaminadas pelo bichinho da dança, primeiro com o pézinho a dar a dar, depois com os ombros a bascular e finalmente com os olhinhos a suplicar, direccionados para o seu par em pedido carente de "Dança comigo..."
Em redor, aqui e ali, outros aguardam por quem se atreva a exibir na arena os seus passos de dança, àvidos por criticar e ridicularizar quem a isso se presta.
Ainda estou a tentar perceber o cenário, onde me encaixo, quando sou surpreendido por ela.
- "Anda! Vamos dançar!"
Admiro-lhe a iniciativa, o saber o que quer, o não ter papas na língua, só que hoje, agora, aqui parecem-me o seu pior defeito. Cometi o erro de entrar. Agora só me resta a gestão de danos.
- "Calma! Não está ninguém na pista! Queres dar espectáculo!?"
- "Vá lá! Estás com vergonha de quê? De mim!?"
- "De ti? Nunca..." - afagando-lhe a cara como quem tenta comprar a simpatia de uma fera - "Apenas não quero ser o bobo da festa. Tu se fôr preciso alapas-te a mim, encostando a cara ao meu peito e ali fico eu, a descoberto, qual farol no meio da neblina e solidão marítima."
- "És sempre a mesma coisa. Nos poucos momentos a dois nunca queres estar comigo, fazer coisas comigo, partilhar momentos, nada!"
Este é um ponto perigoso. Estou na fronteira que define se o resto das férias serão o concretizar de um sonho ou de um pesadelo. Preciso de reagir rápido e entregar-me às mãos do destino. De preferência um que me seja favorável! Inteiro-me rapidamente dos ocupantes das restantes mesas. Muitos são casais jovens com o mesmo dilema que nós. Posso eliminá-los da equação pois só terão coragem de ir à pista quando esta se tornar uma floresta de corpos, onde mais um é só mais um e não a atracção principal. Observo também vários casais nórdicos na casa dos 50s. Assumo que ali estejam só para apreciar o pagode. A música dos anos 80 que ecoa no salão não deverá ser propriamente a sua música preferida, além de que a genica já não deva ser muita a esta hora. Sobraram uns casalinhos homossexuais onde notoriamente um deles está mortinho pela dança e o outro está desconfortável em fazer demonstração pública de afecto. Vejo o cenário bem encaminhado, decido arriscar e faço-lhe uma promessa.
- "Não tem nada a ver contigo, eu é que sou acanhado e desajeitado na dança. Fazemos assim, se estiverem cinco casais a dançar nós vamos. Pode ser?"
- "Cinco?" - olhando em redor para as dezenas de mesas na sala - "Ok, aceito. Ai de ti que não cumpras!"
Claro que aceitaria o repto, caso contrário não o teria lançado. Fiquei tranquilo e relativamente seguro de me ter safado de boa. Até ao ponto em que a música muda radicalmente. De repente, do nada, começam a tocar um famoso slow, tema do filme "Ghost" e dá-se o sururu. Assim que se soltam os primeiros acordes ouço um burburinho na sala. O mais puro gáudio, celebração do amor, recordação dos bons velhos tempos, sei lá, a P da loucura. Imediatamente saltam para a pista um, e depois outro, dos casais de meia-idade que iniciam os rodopios do costume. De uma assentada passamos do zero aos dois casais na pista. Olho para o lado e vejo-a com brilho nos olhos e sorriso a despontar.
- "Toma! Dois já lá moram! Nós somos o quinto, nós somos o quinto!"
- "Não! Nós somos o sexto!" - corrijo no imediato para evitar problemas mais tarde
Acabo de fazer o esclarecimento do regulamento e mais dois casais juntam-se à dança. Safei-me de boa. Tenho o problema adiado e vejo a minha vida a andar para trás. Nada mais me resta do que tentar influenciar a mente dos restantes casais a fim de os pregar nas cadeiras. Não devo ser bom a fazê-lo porque rapidamente um outro casal se levanta de surdina. Juro que sinto que o tempo parou e o silêncio preenche a sala em resultado da sua ousadia.
- "Uhu! Já ali está o quinto!" - interrompe ela a pausa com uma euforia desmedida
- "Calma, penso que eles se estejam a ir embora." - era tão bom...
Vagarosamente arrumam as cadeiras e avançam pela lateral. Só poderiam virar à direita para sairem do salão, ou à esquerda para se juntarem à animação central. A esperança é ténue mas ainda existe. Ou existiu por uma fracção de segundos. Em menos de cinco minutos a pista de dança passou de um completo vazio para um preenchimento parcial, com cinco casais de meia-idade a bambolearem-se como adolescentes das próximas gerações.
- "Tu pro-me-tesssss-teeeeeeee" - uma zombaria final que me vincula a um momento de zombie dançarino
- "O prometido é devido... vamos..."
Falei como se estivesse perfeitamente preparado e deixei-me arrastar pelo seu contentamento. Entrámos na pista e foi como se tivesse entrado numa outra dimensão. Eu a tentar perceber o ritmo, ela solta, ondulando em sintonia, passos para aqui, passos para acolá, passos para sei lá!
Olhando para o lado vejo um casal dançando como se estivesse a tocar o "Apita o Comboio", olho para o outro um casal interpreta uma valsa, mais à frente um homem abraça a parceira agarrando-lhe os glúteos como se disso dependesse a sua vida. Desespero. Não tenho qualquer ponto de referência para me inspirar na coordenação motora. Não sei o que faço para lhe chegar e agarrá-la mantendo a imagem de estar a dançar.
- "Agarra-te a mim e não me largues por favor! Parece que estamos em 5 pistas de dança diferentes. Imagino o espectáculo que estamos a dar a quem está a ver de fora!"
- "Ha ha ha, não andes aos saltinhos, hi hi hi, não andes tão depressa, ha ha ha"
- "Tem uma graça do caraças! Anda para aqui! Escondemo-nos aqui, atrás destes que estão aos apalpões. Olha-me para isto! É cada um por si, salve-se quem puder!"
- "Ha ha ha Isto está muito engraçado! hi hi hi Vá, dança assim sem me pisares."
E aqui estamos a saltitar no meio destes loucos. Estranhamente mais ninguém se juntou à pista. Imagino que o nosso rídiculo foi um factor de dissuasão essencial na argumentação dos restantes machos presentes para com as suas parceiras de mesa.
Durou até começarem a tocar o "New York, New York" levando ao vazar da pista. Graças a Deus. Estou ainda a recuperar o fôlego quando vejo um casal de 40s a entrar na pista e ali estarem sós nas três músicas seguintes. Como é possível que esta malta dos 40s esteja tão mais desinibida que os casais de 20s e 30s aqui presentes? Mais à vontade e sabedoria? Menos pudor e vergonha? Provavelmente só o saberei quando lá chegar.
Não muito depois solta-se novo hit musical fazendo com que o bicho da dança volte a morder calcanhares.
- "Gosto tanto desta! Vamos outra vez?"
- "Não, não me apetece. Estou cansado. Dói-me a cabeça. Porque não convidas ali um dos membros dos casalinhos gay? Estão zangados porque um quer dançar e o outro não. Assim como assim não há perigo de outros interesses."
- "Até ia..."
- "Isso vai lá que eu fico aqui a ver."
Ela foi, eu fiquei a ver.
domingo, janeiro 05, 2014 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Mais uma alvorada, mais uma jorna
O voltar da alvorada anuncia-me mais um dia de serviço. Mais um dia em que me vendo a outrém, vivendo o que me comanda fazer. Visto-me de vermelho como nos outros dias, provando ser o mais hábil dos camaleões, e saio. Em casa deixo esposa galante, filhos saltitantes, pinturas, artefactos e manifestos criados em tertúlias empolgantes. Um vibrar de vida pulsante.
À medida que me afasto vou perdendo pulso. Caminho pesadamente, sobrecarregado pelo meu instrumento de trabalho. A troco de soldo deixo de ser um pensador, tornado-me mero executor.
Finjo que o tinir das moedas me ensurdece, que o brilho do ouro me cega,
que a língua me entorpece ao sentir o seu sabor metálico.
Na verdade consigo apenas não falar. Vejo, ouço e penso sobre cada face, cada gesto, cada argumento, cada jura, cada sentença. Uma insignificância quando há concordância. Um suplício quando perante uma inocência culpada.
Pé ante pé chego ao cruzamento mais movimentado da cidade. Aqui, onde o atropelamento não se perde em vaidade, olho em todas as direcções, inclusive para o céu! Não vá em caso de infortúnio algum engarrafamento me obrigar a fazer um desvio pelo Inferno! Teria eu salvo-conduto por entre os seus carrascos? Ai está uma dúvida que me aflige e não me apraz descortinar.
Livrando-me da colhida apresso-me a entrar no tribunal e consultar a guia de tarefas do dia. Tal é a intensidade dos trabalhos de hoje que, à medida que o dia passa,
ficarei certamente com as calças completamente ensopadas pelos respingos do sangue, suor e lágrimas, avivando a sua vermelhidão. Normalmente é na pausa entre cada tarefa que projecto esboços das minhas futuras criações e planeio o ajuntamento do tempo e materiais necessários. Apesar de embrutecedoras, são as artes do meu ofício que me sustentam. Sem elas não poderia explorar todas as outras. Quando me perguntam o que faço, não respondo com o indicar da minha profissão. A ela eu não a faço, eu executo-a. Trabalho, porque tem que ser, naquilo que me calhou sendo que me recuso a enfiar o seu capuz.
Afinal não deixarei que as coisas que tenho de fazer matem as coisas que gosto de fazer.
domingo, outubro 27, 2013 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Tan tan do esquecimento
Já lá vão quase duas décadas desde que aqui me deposito. Mais uma das vasilhas cheias que formam este vasilhame. Ao contrário das vasilhas vazias não prestamos para reciclar porque quanto mais uso a vida nos dá mais recheados ficamos. E este recheio é um empecilho. Mais vale que se perca do que custear o seu processamento e refinação.
Muitos de nós andamos pelos oitentas, alguns a roçar os noventas, e uns poucos já entraram na extraordinária liga dos entos. Paradoxalmente os dias custam tanto a passar mas os anos passam tão rápido... com a acrescida angústia da meta estar à vista e ninguém fazer a mínima ideia sobre como será o pódio.
Por vezes o juízo e as recordações abalam antes do resto. Imagino-os lá na meta esperando que o resto do esqueleto, e da cabeça, lhes acompanhe o passo. O Sr. Justino é um desses casos. Cá chegou de rompante, em grande alarido, ecoando sonante o tan tan das suas ideias.
Com frequência esquece-se de quem é, de quem somos, de quem foi. Pior, baralha-nos a todos e dá as cartas viciadas à sua maneira, diferente em cada dia, rotulando-nos nomes e memórias que desconhecemos, com a certeza convicta daqueles para quem esquecer atingiu o seu expoente máximo, esquecendo-se inclusive do próprio esquecimento.
O Sr. Justino matinha apenas uma rotina certa. A de diariamente, desde o primeiro dia em que chegou lá para mais anos do que aqueles que se contam pelos dedos de duas mãos, se dirigir a mim de forma encabulada, declarando-se como um desde sempre e eternamente apaixonado pela minha pessoa. O corolário desta sua rotina era o pedir-me em namoro. Sempre!
Pelos vistos a mim saía-me sempre a carta de um seu antigo amor, do qual nunca pronunciava o nome. Que desassossego todas as manhãs, meu Deus. Ouvir-lhe as palavras ternas, prepará-lo para a desilusão do meu "Não", a esforçada explicação que se seguia, abordando ambas as nossas viuvezes e a impossibilidade de eu ser quem ele pensa porque as nossas vidas apenas se emparalelaram ali.
É penoso vê-lo rendido ao meu "Não", incrédulo quanto à minha 'absurda' explicação. Todos os dias ao longo destes anos. E eis que um dia, no seu aniversário, decidi felicitá-lo com um "Sim". Um simples e curto "Sim", sem justificação, sem prefixo nem sufixo, só um "Sim" que ele fixasse.
E desde esse dia que o Sr. Justino começa os seus dias pululando pelo relvado em minha direcção, chochando-me um grande bom dia e sentado-se a meu lado onde permanece radiante sem nunca mais me ter perguntado se quero namorar com ele.
domingo, julho 28, 2013 | Etiquetas: História Curta | 0 Comments
Dunngud Issagon vs Dunnogud Begrand
Dunngud Issagon é o primogénito do rei dos gigantes Dunnogud Begrand. Os gigantes são seres temíveis. Usam os recursos em seu redor como se a finalidade do mundo, e das suas maravilhas, não fosse mais do que a de lhes servir como meio para atingir os seus fins.
Caminham impetuosamente esmagando literalmente tudo o que tenha o
infortúnio de estar no traçado de linha recta entre si e o seu destino. Em cada refeição arrancam uma árvore para palitar os dentes, mesmo que ao lado jaza uma já tombada. Tão pouco se preocupam em verificar se essa árvore contém ninhos com crias ou se oferece frutos vitais para criaturas mais infímas. Jogam rochedos de toneladas num simples jogo de ver quem chega mais longe ignorando todo e quaisquer danos colaterais causados por tamanhos impactos.
Mas Dunngud Issagon é diferente. Dunngud olha para onde põe os pés, colhe apenas as árvores doentes, tenta negociar com os seus camaradas gigantes o desempenhar de actividades menos gravosas para o meio envolvente. Dunngud defende que o facto de ter o poder para destruir tudo em seu redor o obriga a ter a responsabilidade acrescida para não o fazer.
Os aldeões humanos reconheciam Dunngud e ao vê-lo, ao invés de fugir e procurar refúgio como fazem ao avistar um gigante em rota de colisão, correm na sua direcção com oferendas pelo seu cuidado. Dunngud aceita-as por simpatia, troca histórias e ajuda-os mesmo a desempenhar as tarefas mais hercúleas, sobretudo quando é necessário reconstruir o que foi pisoteado por algum dos outros gigantes. Para Dunngud fazê-lo era também uma maneira divertida de passar o tempo ajudando a montar o que parecia, para a sua escala, uma aldeia miniatura de brincar.
O seu pai, Dunnogud Begrand, recebia queixas gigantescas de que o seu filho se perdia em actividades mundanas, pouco lisongeiras para um lorde, que ainda por cima encorajavam a permanência da praga de insectos humanos mesmo ali debaixo das barbas do rei. Os gigantes são um povo orgulhoso que consideram ter uma reputação e um status a manter. Irado com o apontar do dedo dos seus súbditos, Dunnogud, decide dar uma lição a Dunngud de uma vez por todas e dirige-se a todo o gás para a aldeia dos humanos que iria esmagar fazendo da sua insignificância um exemplo para todos.
Dunngud não acatou a decisão de seu pai e apressou-se a fazer frente a Dunnogud. Pai e filho pelearam então até à exaustão tendo a aldeia dos humanos como pano de fundo. Montanhas tornaram-se vales, florestas viraram planícies, os céus só não desabaram porque são feitos de ar! Quando a terra deixou de tremer, os estrondos deixaram de se ouvir e a poeira assentou ficou claro o resultado de tão épica batalha. Parte da aldeia estava arrasada mas Dunnogud não foi capaz de ultrapassar Dunngud e grande parte fora salva.
Irado com a derrota e desiludido com o ultraje a que o submeteu seu filho, Dunnogud recorre à magia só disponível ao rei dos gigantes e lança uma maldição sobre este.
- "Dunngud Issagon, pouparei a aldeia que bravamente defendeste contra teu próprio pai e Senhor. Concedo-lhe protecção no meu reino. De hoje em diante nenhum de nós Gigantes seguirá o seu caminho por sobre ela. No entanto, TU, pagarás o preço por afrontar o Rei dos Gigantes e renegares a tua Natureza. Se não assumes o teu estatuto de Gigante, ele ser-te-á diminuído sempre que o uses para ajudar, e não esmagar, esses insectos humanos que tanto prezas!"
E assim Dunnogud Begrand partiu deixando para trás um santuário protegido dos ímpetos destrutivos dos gigantes. Dunngud ficou. E deu início à reconstrução de todas as casas da aldeia que houveram sido destruídas. A cada casa reconstruída o poder, força e tamanho de Dunngud eram dimínuidos. Os aldeões testemunhavam o seu enfraquecimento mas continuavam com os seus pedidos de auxílio. Depois das casas pediram-lhe que escavasse um novo poço, por precaução que erguesse uma paliçada em redor da aldeia, que lavrasse as terras que usariam para agricultura e muitas outras coisas que poderiam ter sido feitas por eles, demorando algum tempo mais, é certo.
Progressivamente Dunngud ficou da estatura de um humano, tornou-se um anão, até que um dia simplesmente desapareceu. Usado, esgotado até ao fim, como um recurso pouco estimado pelos aldeões que defendera.
Não mais se viram gigantes por aqui. Fica a dúvida se a todos tenha sucedido o mesmo que a Dunngud Issagon ou se simplesmente os humanos cresceram e assumiram o papel que outrora era desempenhado pelos gigantes.
PS - esta história é remanescente de viagem recente para caminhadas em trilhos irlandeses
sábado, junho 01, 2013 | Etiquetas: Conto | 0 Comments
Mimos desnivelados
A mesa, posta para dois, desnivela milimetricamente em direcção à parte sempre presente. Sentada no seu lugar estratégico com uma linha de visão que atravessa a porta da sala de jantar, percorre o corredor do hall de entrada e se detém na porta da rua. Essa mística barreira que separa o caótico mundo exterior do seu sereno e controlado mundo privado.
Por agora come apenas o pão para entreter a fome. As migalhas caiem ao ritmo da areia de uma ampulheta ansionsa. Ansiosa por ele. Que saudades de um jantar a dois... Não só de um jantar mas também, por agora seria suficiente. Sim, suficiente chegava. Suficiente seria melhor que o normal.
E assim continuava só. Usando os miolos para pensar até se esfarelar a última côdea. Altura em que se levanta, percorre o caminho até à porta da rua e serve-se do olho mágico na esperança do concretizar de uma última ilusão.
Pouco depois resigna-se, volta à sala de jantar e desgasta um pouco mais o seu lado da mesa iniciando e terminando a sua requintada refeição. Após o que simplesmente se deixa ficar. Fitando o finito delimitado pela porta da rua.
Bem mais tarde, muito para além da sua hora de dormir, eis que a porta se abre, ele chegou. Vendo-a a pé não esconde a sua surpresa.
- "Ainda a pé!? Esperaste por mim!? Que querida! Comi qualquer coisa pelo caminho, desculpa. Surgiu um imprevisto e não pude avisar. Sabes como é..."
- "Sim, sei como és... e como pouco sou para ti..."
- "Não digas isso! Sabes o nível de exigência lá no trabalho."
- "É isso que preciso fazer? Exigir para te dares aqui comigo? Ao invés de esperar que o queiras fazer por ti?"
- "Sabes que precisamos do dinheiro. Se não fossem estas horas extra-ordinárias não ia conseguir pagar-te os mimos de que tanto gostas!"
- "Os mimos de que tanto gosto!?" - sorriso suspirado - "Vem comigo ver uma coisa, se faz favor."
- "A estas horas!? O quê?"
- "Não te preocupes que é rápido."
Ela lidera o caminho subindo as escadas para o piso dos quartos. Passa pelo quarto dela, passa pelo quarto dele, passa pelo quarto de hóspedes e detém-se frente ao quarto extra onde as coisas se desarrumam sozinhas. Abre a porta e revela-se um pequeno bazar repleto de jóias, perfumes, sapatos, vestidos e todo o tipo de presentes adequados ao género feminino.
- "Estão aqui todos os teus mimos. Imaculados. Por estrear. Ainda embalados."
- "Não acredito... não usaste nem um!?"
- "Reparas agora como nunca reparaste antes? Não são estes os mimos que alguma vez procurei ter. Não dou uso ao que não me tem proveito."
- "Tens noção do dinheiro investido nestes presentes? E do tempo que trabalhei para te os poder dar!?"
- "Tenho, tenho muita noção do tempo que trabalhaste para me os dares. Por isso os tenho guardados como novos. Para que os possamos vender e comprar de volta esse tempo perdido. Fazer com ele algo mais útil como por exemplo jantarmos juntos, vivermos juntos, mimares-me com o teu toque e com as tuas palavras."
- "Sabes que não funciona assim... Já criei uma imagem de marca no emprego, não posso agora de um momento para o outro deixar de corresponder às expectativas...Sei que às vezes é chato mas ao menos permite-nos ter estes mimos. Devias é aproveitar aquilo que te posso dar e não focar-te nas minhas falhas esporádicas. E agora tenho de ir dormir que amanhã tenho de levantar cedo! Continuamos a conversa amanhã ao jantar, pode ser? Beijo, boa noite." - o beijo foi apenas falado
Ele remete-se aos seus aposentos e inicia o seu sono reparador não fazendo caso do que acabara de se passar. Ela ali ficou, mimada por todos os lados, fitando o infinito, revivendo cada segundo, cada palavra, desde que a primeira migalha do primeiro jantar caiu sobre a mesa, nessa altura ainda nivelada.
Pouco depois desce as escadas com duas malas, uma em cada mão. Encara a porta da rua e pela primeira e última vez sente que está no seu lado errado. Sem hesitar abre-a, sai e fecha-a. Pára um pouco respirando outro ar.
Não resiste a uma última curiosidade, vira-se para trás e espreita pelo olho mágico. Surpreende-se por este não funcionar deste lado. Talvez seja melhor assim.
Segue caminho sendo a sua última memória a forma como ofertas, feitas ao longo de toda uma vida, apenas precisarem de um rápido piscar de olhos para se transformar numa pira imensa, com as mesmas cores e calores de uma antiga paixão intensa.
quinta-feira, fevereiro 07, 2013 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Na tenda em noite de verão
Estou nas lonas
Abrigo-me sob a lona
Embrulho-me em lona
Na hora marcada faz-se shiu
Incomodam-se por qualquer chio?
Apesar disso eu ouço
Tudo me faz alvoroço
O som do sopro do ar
O som das ondas do mar
Juntos uma dessintonia
Tal qual a de uma antiga telefonia
Não estática mas dinâmica
Não metálica mas orgânica
Mascara na noite o silêncio imposto
Propagado que nem fogo posto
Carcereiro das palavras que deviam ser ditas
Ditador perpétuo das zonas interditas
Almofadas amparam cabeças pensantes
Cheias de vozes falantes
Quantas pessoas estão dentro de nós?
Qual delas a nossa voz?
Estaremos alguma vez sós?
De repente frio
Esse nunca se ouviu
Sente-se de repente
Remedeia-se com roupa quente
No chocalhar dos panos ouço o tombo de areia
Dilúvio de grãos e grãos brilhando na lua cheia
Quando se vá o feitiço serão varridos como terra suja
Quem lhes manda confiar numa bruxa intruja?
A magia é bela e tende a ser fugaz
Mantê-la é arte difícil só para quem disso é capaz
Há quem o faça sem o saber
Há quem lhe ponha fim por não o querer entender
Apetecia-me ir
Contudo o mais sensato é dormir
domingo, novembro 25, 2012 | Etiquetas: Poesia? | 0 Comments
Escrito de Fresco porquê?
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