Mimos desnivelados

A mesa, posta para dois, desnivela milimetricamente em direcção à parte sempre presente. Sentada no seu lugar estratégico com uma linha de visão que atravessa a porta da sala de jantar, percorre o corredor do hall de entrada e se detém na porta da rua. Essa mística barreira que separa o caótico mundo exterior do seu sereno e controlado mundo privado.

Por agora come apenas o pão para entreter a fome. As migalhas caiem ao ritmo da areia de uma ampulheta ansionsa. Ansiosa por ele. Que saudades de um jantar a dois... Não só de um jantar mas também, por agora seria suficiente. Sim, suficiente chegava. Suficiente seria melhor que o normal.

E assim continuava só. Usando os miolos para pensar até se esfarelar a última côdea. Altura em que se levanta, percorre o caminho até à porta da rua e serve-se do olho mágico na esperança do concretizar de uma última ilusão.

Pouco depois resigna-se, volta à sala de jantar e desgasta um pouco mais o seu lado da mesa iniciando e terminando a sua requintada refeição. Após o que simplesmente se deixa ficar. Fitando o finito delimitado pela porta da rua.

Bem mais tarde, muito para além da sua hora de dormir, eis que a porta se abre, ele chegou. Vendo-a a pé não esconde a sua surpresa.

- "Ainda a pé!? Esperaste por mim!? Que querida! Comi qualquer coisa pelo caminho, desculpa. Surgiu um imprevisto e não pude avisar. Sabes como é..."

- "Sim, sei como és... e como pouco sou para ti..."

- "Não digas isso! Sabes o nível de exigência lá no trabalho."

- "É isso que preciso fazer? Exigir para te dares aqui comigo? Ao invés de esperar que o queiras fazer por ti?"

- "Sabes que precisamos do dinheiro. Se não fossem estas horas extra-ordinárias não ia conseguir pagar-te os mimos de que tanto gostas!"

- "Os mimos de que tanto gosto!?" - sorriso suspirado - "Vem comigo ver uma coisa, se faz favor."

- "A estas horas!? O quê?"

- "Não te preocupes que é rápido."

Ela lidera o caminho subindo as escadas para o piso dos quartos. Passa pelo quarto dela, passa pelo quarto dele, passa pelo quarto de hóspedes e detém-se frente ao quarto extra onde as coisas se desarrumam sozinhas. Abre a porta e revela-se um pequeno bazar repleto de jóias, perfumes, sapatos, vestidos e todo o tipo de presentes adequados ao género feminino.

- "Estão aqui todos os teus mimos. Imaculados. Por estrear. Ainda embalados."

- "Não acredito... não usaste nem um!?"

- "Reparas agora como nunca reparaste antes? Não são estes os mimos que alguma vez procurei ter. Não dou uso ao que não me tem proveito."

- "Tens noção do dinheiro investido nestes presentes? E do tempo que trabalhei para te os poder dar!?"

- "Tenho, tenho muita noção do tempo que trabalhaste para me os dares. Por isso os tenho guardados como novos. Para que os possamos vender e comprar de volta esse tempo perdido. Fazer com ele algo mais útil como por exemplo jantarmos juntos, vivermos juntos, mimares-me com o teu toque e com as tuas palavras."

- "Sabes que não funciona assim... Já criei uma imagem de marca no emprego, não posso agora de um momento para o outro deixar de corresponder às expectativas...Sei que às vezes é chato mas ao menos permite-nos ter estes mimos. Devias é aproveitar aquilo que te posso dar e não focar-te nas minhas falhas esporádicas. E agora tenho de ir dormir que amanhã tenho de levantar cedo! Continuamos a conversa amanhã ao jantar, pode ser? Beijo, boa noite." - o beijo foi apenas falado


Ele remete-se aos seus aposentos e inicia o seu sono reparador não fazendo caso do que acabara de se passar. Ela ali ficou, mimada por todos os lados, fitando o infinito, revivendo cada segundo, cada palavra, desde que a primeira migalha do primeiro jantar caiu sobre a mesa, nessa altura ainda nivelada.

Pouco depois desce as escadas com duas malas, uma em cada mão. Encara a porta da rua e pela primeira e última vez sente que está no seu lado errado. Sem hesitar abre-a, sai e fecha-a. Pára um pouco respirando outro ar.

Não resiste a uma última curiosidade, vira-se para trás e espreita pelo olho mágico. Surpreende-se por este não funcionar deste lado. Talvez seja melhor assim.

Segue caminho sendo a sua última memória a forma como ofertas, feitas ao longo de toda uma vida, apenas precisarem de um rápido piscar de olhos para se transformar numa pira imensa, com as mesmas cores e calores de uma antiga paixão intensa.


Na tenda em noite de verão

Estou nas lonas
Abrigo-me sob a lona
Embrulho-me em lona

Na hora marcada faz-se shiu
Incomodam-se por qualquer chio?
Apesar disso eu ouço
Tudo me faz alvoroço

O som do sopro do ar
O som das ondas do mar
Juntos uma dessintonia
Tal qual a de uma antiga telefonia
Não estática mas dinâmica
Não metálica mas orgânica

Mascara na noite o silêncio imposto
Propagado que nem fogo posto
Carcereiro das palavras que deviam ser ditas
Ditador perpétuo das zonas interditas

Almofadas amparam cabeças pensantes
Cheias de vozes falantes
Quantas pessoas estão dentro de nós?
Qual delas a nossa voz?
Estaremos alguma vez sós?

De repente frio
Esse nunca se ouviu
Sente-se de repente
Remedeia-se com roupa quente

No chocalhar dos panos ouço o tombo de areia
Dilúvio de grãos e grãos brilhando na lua cheia
Quando se vá o feitiço serão varridos como terra suja
Quem lhes manda confiar numa bruxa intruja?

A magia é bela e tende a ser fugaz
Mantê-la é arte difícil só para quem disso é capaz
Há quem o faça sem o saber
Há quem lhe ponha fim por não o querer entender


Apetecia-me ir
Contudo o mais sensato é dormir








Não consigo falar contigo, porra!

Desculpem.

Ainda sou do tempo do offline. Do tempo em que nem sequer haviam telemóveis. Em que não estávamos acessíveis a toda hora. Nesses dias andava na rua, solto, em brincadeiras ou judiarias que ficavam só entre nós, os que para ali vagueávamos ao Deus-dará. O único condicionante era a hora de voltar para casa. A única altura da minha vida em que usei um relógio porque isso era crucial para as minhas orelhas, bochechas e nádegas.

A distância física dava azo a ausência de relacionamento para com alguns, o que não impedia que quando se dava o momento de ajuntamento todos estivessem sintonizados, entusiasmados, focados uns nos outros e nas histórias trocadas. As conversas estavam livres das interrupções provocadas por toques inesperados, que obrigam a atendimento imediato, e por tiques ansiosos a confirmar que não há novas mensagens, não há novos status update nem novos likes.

Outrora a indisponibilidade imediata era algo natural, hoje está ao nível da afronta social.

Diz-me muita gente que o dia de aniversário é um dia de celebração da vida, que é bom receber parabens de todos à nossa volta, que isso demonstra o que significamos e com quem podemos contar. Alguns ofendem-se por aparentemente eu barrar a oportunidade para entrega dessa manifestação de afeto.

Ponho-me a pensar no que é a vida e divirto-me com a teoria de que isto que conhecemos é na verdade o purgatório, que a verdadeira vida vem depois daquilo a que chamamos morte. Como se abandonássemos um casulo físico, um estado larva, para assumirmos todo o nosso esplendor etéreo, assumindo-nos como uma maravilhosa e celestial borboleta.

Neste dia, em que fazemos anos, somos inundados de ruído. Telefonemas, posts, palmadas nas costas de tudo e todos. As solicitações são tantas que damos o mesmo grau de atenção a quem só nos contacta uma vez por ano, e logo hoje, como a quem lida connosco diariamente. Os dizeres são quase sempre os mesmos obrigando às mesmas respostas, num modo piloto-automático que não gosto de ter.

Eu estou vivo todos os dias do ano e é neles que destrinço quem realmente aprecia a minha existência e quem quero que esteja presente. Hoje não. Hoje é confuso e mesmo desgastante. Sempre foi e imagino que sempre será. Por isso resguardo-me ao máximo.

Em plena consciência porque sei que quem conta mesmo já me deu os parabens noutro dia e de uma forma qualquer, às vezes sem sequer disso se aperceberem. Alguns até se esquecem periodicamente que faço anos exactamente hoje, os sacanas. Outros só os vejo de anos a anos, sem conversas pelo meio, sempre com a estranha sensação de não ter existido interrupção no convívio.

Dar ou receber votos de bom aniversário para mim está ao nível de um protocolo ou ritual quase cego ao estilo de um picar de ponto. Comigo ninguém ganha mais apreço por o cumprir nem perde simpatia por não o fazer. E isto para mim é bidireccional. Uma panca minha, mais uma, como qualquer outra.

Em suma os costumes dizem que este dia é meu. Se é meu é para eu o gozar como o entenda e não como a maioria o entende. Entenderam?

Hoje fui um recluso sossegado e silencioso. Apeteceu-me.
Não será uma forma de celebração da dádiva da vida dar a sensação de estar morto por um dia?

Estar morto deve ser muito perto disto. Ter montes de gente a querer falar connosco e isso ser completamente inacessível. Não dar resposta. Não dar feedback. Não nada.

A dúvida instala-se: "O gajo está bem?". Sim porque a maioria de nós, humanos, tem a mania de bater a bota sem pré-avisar ninguém. E quando isso acontece, pensamos na pessoa em causa, vasculhamos a mente à procura dos últimos momentos e das últimas palavras trocadas. Infelizmente para muitos a única coisa que lhes ocorre é o tradicional e anual

"PARABÉNS!"

Uma questão de timing

- Falta muito?
- Para o quê?
- Para o tempo certo!
- Outra vez com isso?
- Sim, quero mesmo fazê-lo!
- Então espera, caraças!
- Pelo quê?
- Pela altura certa para o fazer.
- Não percebes que eu preciso de saber o quando? Já sei o quê, o onde e o como!
- És como toda a gente. Sabes tudo menos o mais importante.
- E tu? Só me sabes dizer que não é agora. Só adiar, só adiar... Como é que sei que já não passou o tempo certo de o fazer?
- Está descansado que se passar o saberás de imediato.
- Saberei, saberei... e tu como é que sabes que o meu tempo certo não é neste momento?
- Não sei. Mas se o tentares ficarei a sabe-lo imediatamente...
- Vai-te foder!
- Já estou.
- Vou fazê-lo agora!

E fê-lo mesmo.

- Então como correu?
- Vai-te foder!
- He he he... Já estás.


Prometes?

Dois miúdos aguardam a sua vez na fila, Zé seguido de Tomás, para terem acesso às cabines de duche. A coisa não flui como eles esperariam e a sua impaciência é notória.

- "Fogo... ainda faltam !3! pessoas à nossa frente..."
- "Epá Zé, não quero estar aqui à seca!"
- "Mas temos de estar Tomás! Temos de estar senão nunca mais! Depois os nossos pais..."
- "Então fica aqui tu que eu vou brincar lá para fora. Quando for a minha vez chama-me, ok?"
- "Fica aqui! Não vês que está muito barulho!? Não me vais ouvir!"
- "Chamas-me melhor... duh"
- "Fica mas é aqui quieto ao meu lado que é melhor."
- "Não quero, não tenho paciência. Vou lá para fora para ver se te ouço chamar-me."
- "Não vais nada!"
- "Já fui! CHAMa-meeeeeeee..."

Zé irritado por ser abandonado naquela seca de fila sussurra baixinho o nome de Tomás que do lado de fora, na zona de brincadeira, nada ouve. Progressivamente Zé aumenta o volume até ao tom normal e Tomás ouve-o. Imediatamente corre para o interior do balneário.

- "Vês, Zé! Vês! Ouvi! Ouvi!"
- "Ouviste-me aí à 3ª ou 4ª! Já tinhas perdido a vez. Fica aqui, Tomás!"
- "Então vamos experimentar outra vez!"

A cena repete-se exatamente da mesma maneira com um Tomás frustrado por a coisa não funcionar como previsto e ter de ficar preso aquela fila pasmaceira para não perder a vez. Zé está inchado pelo seu esquema maquiavélico estar a funcionar em pleno. Só que Tomás não tem tempo a perder e prefere solucionar aquele problema do que estar parado na fila. Pede mais uma oportunidade. Desta vez não vai para a zona afastada de brincadeira, de onde não ouve os sussurros de Zé, encostando-se à parede imediatamente após a esquina da porta de saída do balneário. Zé novamente sussurra

- "Tomás..."

Tomás entra de rompante, vitorioso!

- "Ouvi! Ouvi!"

Zé, frustrado por ter sido apanhado no seu esquema.

- "Vá lá, Tomás... não te metas com parvoíces. Fica aqui comigo senão ainda perdemos a vez."
- "hum... JÁ SEI!"
- "O quê?"
- "E se fôssemos até ao outro balneário?"
- "Só faltam três pessoas aqui!"
- "Ya, mas lá pode estar melhor!"
- "Estás a falar a sério?"
- "Sim! Bora, bora, bora!"
- "Tu queres é que eu saia da fila para me passares à frente..."
- "Não! Juro que é para irmos! Boooooraaaaaaa!"
- "Juras? Isso não vale de nada!"
- "É a sério pá! Olha aqui."

Tomás estica o mindinho para Zé. Zé com um ar mais aliviado entrelaça o seu mindinho no mindinho de Tomás que olhando-o nos olhos lhe diz.

- "Prometo que não te vou roubar o lugar e que vamos juntos para o outro balneário."

Zé, tem agora a certeza da verdade nas palavras de Tomás. E zarpam numa correria e barulheira desenfreadas para outro balneário. Cinco segundos depois de saírem vagam três cabines de duche no balneário onde se encontravam. Ao chegarem ao outro balneário estavam seis pessoas em espera e Tomás, por ter ganho a corrida, ficou desta vez à frente de Zé.

Nem Tomás fez as contas para perceber que tinha mais pessoas à sua frente, nem Zé se importou de ter perdido o seu lugar na fila para Tomás. Ambos saboreiam simplesmente o facto de as promessas de mindinho continuarem a ser o que de mais fiável existe e de assim terem mais um pouco de tempo, justificado, para fazerem mais umas parvoíces juntos antes de chegarem atrasados ao ralhete da hora de jantar, junto das suas famílias.


Ser no Mundo vs Mundo no Ser

Eu vejo. Eu sinto. Não a ti. Ao mundo. Esse redor sempre presente. Barulhento, peçonhento, transpira sobre mim como se a minha função não fosse mais do que ser mero papel absorvente.

Caminho. Não! Corro! Fujo! Em vão... Eu estou nele. Eu sou ele. Ele não é eu. Cabrão... Tem-me o cerco montado. É assim desde tenra idade. Não há passo ao lado que não seja notado. Tocam os alarmes, soltam-se os cães de guarda desta realidade.

Sou como um tumor benigno ainda vivo num cadáver em decomposição. Uma flor de lótus que emerge do pântano. Surgidos de um acaso com multiplicação improvavel. Mas existir abre caminho para o que há-de vir.

Estou nele mas ele não está em mim. E isso será o princípio do seu fim.


Há um ano atrás...

Antes de chegar perdemo-nos, conduzindo por caminhos de mistério com a segurança de já nos termos encontrado. Não sabíamos para onde íamos quando finalmente chegámos. Chegámos acompanhados de outros perdidos que não se deixaram empatar pelo atraso e nos encaminharam para a cabeça do grupo. Fomos pé ante pé servindo de batedores que desbravam e apontam o caminho a ser seguido. Fomos assim embalados pelo vento, e espreitados pelo Sol, até que quando demos conta já estávamos na cauda do pelotão.

Não sei se nos pesam as pernas, se nos pesam os corações. Talvez estes últimos de cheios que estão.

Finalmente encontrámos o local ideal. Frio, ventoso, abrigado do sol acolhedor, com terra húmida repleta de galhos, pedrinhas incómodas, e terreno alinhado num plano inclinado. Estendemos os colchões, montaram-se os gongos e transformou-se o espaço e momento em grande sublimação. A Natureza não tem o bom e o mau. Tem o natural. O resto é o que nós fazemos dela. E hoje o que dela fizemos foi bom.


O Concerto no Coreto

A multidão rodeia o coreto de onde os músicos tocam ao ar livre para um público que na sua maioria, tal como eu, não distingue os ensaios do início do concerto. Uns sentam-se na relva, diretamente, sobre uma manta ou enterrados num puff. As crianças misturam-se ao vento juntamente com os cães rodas baixas que as seguem fielmente, os adultos sobretudo olham e escutam, os idosos apenas ali estão a fazer greve à solidão.

Todos estão de frente para o coreto menos eu. Estou sentado de costas num dos bancos livres que lhe estão encostados. Não vejo os músicos mas sim a plateia. Não faz mal. Vim aqui para ouvir música e não para ver os músicos. Prefiro olhar para as pessoas. São muitas mais do que os 3?, 4?, 5? músicos que tocam atrás de mim.

Vejo pessoas intrigadas com a minha presença, sobretudo quando a minha objetiva capta algo que considero especial. Desistam. Coleciono momentos que apenas para mim têm significado. Retratos de anónimos especados cujas poses e semblantes despertam algo no meu pensar.

As músicas continuam mas devo ter o ouvido estragado. Depois de uma ou duas soam-me todas ao mesmo embalar. A dado ponto ajeito a mochila, estico-me no banco, só para mim e para umas vespas atrevidas, e ponho-me a dormir. Quando acabar o embalo hei-de acordar. Porque a música quando boa não é preciso ser-se erudito para dar-se pela sua falta. Realmente acordei. Apenas um pouco tarde demais...


Nota: salvado de rascunhos de Junho de 2011

O Serial Killer Salvador ou Libertador


Num espaço escuro e silencioso um homem grita

- "SOCORRO! ALGUĖM!? SOCORRO!"

Vendado, desorientado, agitado, debate-se procurando afrouxar as amarras asfixiantes que o pregam à cadeira.

- "Que se passa!? Que fiz eu!? TÊM O HOMEM ERRADO SEGURAMENTE! Ou é dinheiro que querem? Levem-no todo! O código do meu multibanco é ..."

- "... escusas de continuar que o dinheiro não compra o prazer que tiro ao fazer isto. E asseguro-te que tenho o homem certo exatamente onde ele deve estar."

- "Impossível! Que fiz eu para merecer isto?"

- "Não sei. Mas em breve vamos saber. Só te posso dizer que estavas no local certo quando senti o impulso para fazer isto novamente. E já tenho idade e experiência de vida suficientes para saber que não existem coincidências."

- "Impulso para fazer isto? Isto o quê?"

- "Matar-te ora essa. Mas não te preocupes que não vais sofrer nada. É rápido e limpinho. Nem vão precisar de fazer-te reconstrução para ficares bonito a olhar para as pessoas no velório."

- "Matar-me!? Assim do nada!?"

- "Do nada não. Do meu instinto no momento."

- "Mas eu tenho uma vida pela frente! Tenho família! Mulher, dois filhos que dependem de mim! Por favor deixa-me ir. Juro que não digo nada a ninguém, nem preciso de te ver nem saber onde estou. Deixa-me inconsciente num ermo qualquer que eu oriento-me. Por favor..."

- "Que cliché. Poupa-nos a humilhação. Acomoda-te. Ainda temos tempo."

- "Mas tens tanta gente que podes levar sem que ninguém sinta falta! Vagabundos, criminosos, sei lá! Peço-te por favor..."

- "Ha ha ha! Também vejo essa série na TV. Do gajo que só dá cabo de criminosos. Que tanga. Quando nos dão as ganas não nos interessa quem tem de morrer. Morre e pronto."

- "Filha da puta de vida! Acabar às mãos de um assassino sem qualquer justificação."

- "Gosto mais de ver-me como um salvador ou um libertador. E já te dei a justificação. Apeteceu-me e estavas ali. Era porque tinha de ser."

- "E agora? O que tencionas fazer comigo? Quanto tempo me resta?"

- "Pouco, tenho a dizer-te. Só tens tempo de deixar uma última mensagem que gravarei em vídeo. Uma lembrança para os teus que deixarei junto ao teu cadáver. Chama-lhe a minha assinatura de marca. Digamos que é uma oportunidade que te dou para te despedires desta vida."

Acende-se uma luz ao fundo e é-lhe retirada a venda pelas costas.

- "Olha para a luz da câmara e despede-te."

Num misto de raiva e choro, rendido à situação, o refém anui à macabra gravação. É a única forma de dizer algo aqueles que lhe são próximos. E numa voz embargada discursa para a objetiva.

- "Não sei o que diga... tanto tempo a sonhar com um Euromilhões e o que me sai é isto... é parvo mas a probabilidade deve ser praticamente a mesma... Deixo tantas coisas por fazer, umas sozinho, outras convosco, grandes viagens planeadas para quando tivesse mais tempo, hobbies parvos que me dão gosto apesar de não levarem a lado nenhum, como se isso fosse preciso para praticar um hobby. Querida, ajudei-te tão pouco a criar as crianças... Trabalhei tanto que praticamente só as via acordadas ao fim de semana. Serve-lhes de muito saber que as beijava todas as noites quando chegava e já dormiam... Hão-de ser histórias da carochinha como outras que lhes hás-de ainda contar. Adiei tantos momentos para quando tivesse mais tempo, para quando tivesse mais estabilidade financeira, mais motivação e disponibilidade mental. E percebo agora que não os adiei. Perdi-os para sempre. Não vou ter culpa na minha morte. Mas tudo o que deixei por fazer ou que fiz de mal ainda em vida é culpa minha. Peço-vos desculpa por não ter sido mais presente, mais pleno. Mas é que apesar de os dias passarem tão devagar os anos passam tão depressa... quando dava por mim já tinha perdido oportunidades de imprimirmos boas memórias juntos. Dizia para mim mesmo que compensava na próxima mas depois também essa passava antes de eu me aperceber disso... Amo-vos e só vos peço que não sigam os meus passos. Façam mais coisas, menos planos, tudo o que podem fazer já façam-no, não adiem consecutivamente, obriguem-se a sair do marasmo. Amanhã é sempre outro dia mas ontem, ontem já foi e o que foi e como se foi fica para sempre e não se muda mais. Gostaria de sentir que vos ia fazer mais falta enquanto morto mas tenho perfeita noção que vos fiz muita falta enquanto vivo. Perdoem-me... Beijos, sejam felizes!"

- "Corta!"

A gravação termina e a luz apaga-se.

- "Muy bien, muy bien. Gostei. Pouco lamechas, introspectivo. Assim sim, vale a pena."

- "Vai-te foder! És um serial killer doentio! Não abrirei mais a boca para te dar qualquer tipo de satisfação. Espero que cumpras a tua promessa de entregar essa gravação e que nunca te aproximes deles."

- "Ah valente. A hora da morte dá cá uma descarga de adrenalina e coragem, não é? Não te preocupes que eu cumpro a minha palavra. Bem, vamos ao que importa."

Abrem-se o que parecem ser as portas de uma furgoneta encadeando o refém com a luz solar vinda do exterior. A venda é-lhe recolocada e a cadeira onde se encontra é arrastada até ser jogada para fora, de encontro ao solo. O refém cai desamparado em cima da caruma. O agressor salta da carrinha aterrando com os pés junto à cabeça do homem tombado. Coloca-lhe algo no bolso, e sussurra-lhe ao ouvido

- "Falaste apenas de dias e anos mas esqueces-te que existem também horas, minutos e segundos. Dá-lhes o devido valor e verás que os outros dois serão muito mais proveitosos. O homem que eu queria matar está no vídeo que te deixei no bolso. Foi o homem que se confessou, que no fim queria ser um homem diferente. Espero ser este último quem salvo e liberto agora. Eu disse-te que sou mais um salvador, ou libertador, do que propriamente um assassino. Voltarei sem que saibas quem sou nem quando. Se o homem que se me apresentar à frente fôr o do vídeo, e não o que solto agora, asseguro-te que não haverá segunda oportunidade. Nessa altura conhecerás a minha faceta de assassino que também a tenho."

As amarras são cortadas, pegadas pesadas dirigem-se para a furgoneta, a porta da mesma abre-se e  fecha-se após o que arranca calmamente. Quando deixa de se ouvir o refém move-se. Solta-se, retira a venda e ainda espojado no chão verifica estar num ermo qualquer. Ao longe circula uma furgoneta e olhando para ela diz simplesmente

- "Obrigado"



Lavagem de Roupa Suja

Roupas tesas pendem de um estendal com lotação esgotada. O estendal tem duas cordas, ambas repletas e vergadas pelo peso. Uma tem apenas roupas de homem. A outra apenas roupas de mulher, à excepção de um boxer nitidamente masculino.

Ele chega primeiro, ela pouco depois, cada um com o seu cesto.

- "Chega-te para lá!" avisa-o.

- "Não te preocupes que ainda há espaço para os dois." atiça-a.

- "Ainda!? Que é que queres dizer com isso? Que estou a engordar!? Estúpido."

Ele é maduro o suficiente para saber que um silêncio e um encolher de ombros são a única resposta tolerada depois de uma provocação tão refinada.

Posicionam-se cada um na sua corda como se estivessem alinhados numa pole position de duas pistas e dá-se a partida. Ele pega cada peça como se fosse um trapo que joga aleatoriamente no cesto mas tem o cuidado de colocar a mola de volta na corda de forma a permitir o seu deslizamento sem fricção. Ela faz uma dobra delicada por cada peça de roupa que pousa no cesto e deixa a mola na corda ao acaso. E assim seguem até meio do percurso.

- "Olha para isso. Nem sabes estender uma roupa."

- "Não sei? Porquê? Está cá toda. Não voou nenhuma."

- "És mesmo ignorante. Não vês que tens que colocar a mola nas pregas para não vincares a roupa? Assim estragas-a toda."

- "Mas o que é que isso interessa? Não vai passar a ferro a seguir? Que mania de ter de ser tudo ao teu jeito. Deixa estar que da minha roupa cuido e até agora nunca se queixou. Além de que para quem se preocupa tanto com o sítio onde se põem as molas basta olhar para o que estás a deixar para trás..."

- "A deixar para trás? As molas na corda? Qual é o problema?"

- "O problema é que se quiseres puxar todas para um lado as tuas vão encravar ou saltar da corda em vez de deslizarem de uma forma prática assim" vvvvvvvvvt todas as molas sem roupa vão de uma assentada até ao início da corda, vvvvvvvvvvvvt as molas voltam de uma assentada até ao meio onde se encontra a primeira peça estendida.

- "Tu és doente da cabeça... isso não serve para nada!"

- "Vê-se mesmo que não és tu que estendes a tua roupa..."

Ela tem consciência que é ele que lhe estende a roupa sem que ela o peça e percebe que este não é um caminho a explorar.

Ele acaba por ganhar avanço e termina a sua corda quando ainda existem 3 ou 4 peças na corda dela. Com ar vitorioso coloca as mãos sobre o seu boxer, a última peça no estendal que é sua pertença.

- "O que é que esse boxer está a fazer aqui!?"

- "Já não tinha espaço nesta corda e ainda havia aqui um espacinho."

- "Queres isto tudo só para ti é? O estendal também é meu! 50/50! Não tens nada de invadir o meu espaço."

- "Mas é só um pequeno boxer, qual é o drama? O estendal dá para os dois."

- "E se eu quisesse pendurar mais uma peça?"

- "Apanhavas uma já seca. Ou tiravas o boxer se te incomodava assim tanto. Que maluquice de discussão..."

- "Maluquice não. Não tenho de estar limitada pela tua invasão de espaço! Nem de mexer nas tuas roupas fedorentas! Se fazes favor respeitas o meu espaço para não haver problemas."

- "Ok, ok, esta corda é tua, ponto final. Não te compreendo..."

- "Pois, quem não compreende sou eu. Somos muito diferentes. A vontade que me dá é fazer as malas e ir estender e apanhar a roupa para outro estendal."

- "Realmente parece que é preciso tratarmos da roupa juntos para descobrirmos mais umas facetas escondidas... só tenho pena que não nos tenhamos encontrado aqui no estendal mais cedo..."

O boxer salta para o cesto mas desta vez as molas ficam desarrumadas na corda incapazes de deslizar. Ele vai para dentro de casa dobrar a roupa apanhada. Ela regozija-se pela desarrumação das molas e pega apressadamente as 2 ou 3 peças que lhe faltavam jogando-as para o cesto como se fossem uns trapos. Ainda se vira a tempo de o ver a entrar em casa e segue-o para arrumar a sua roupa.

Não muito depois a máquina de lavar roupa batalha com um conjunto de lençóis sujos que tinham sido acabados de estrear.


Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy

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