Uma questão de timing

- Falta muito?
- Para o quê?
- Para o tempo certo!
- Outra vez com isso?
- Sim, quero mesmo fazê-lo!
- Então espera, caraças!
- Pelo quê?
- Pela altura certa para o fazer.
- Não percebes que eu preciso de saber o quando? Já sei o quê, o onde e o como!
- És como toda a gente. Sabes tudo menos o mais importante.
- E tu? Só me sabes dizer que não é agora. Só adiar, só adiar... Como é que sei que já não passou o tempo certo de o fazer?
- Está descansado que se passar o saberás de imediato.
- Saberei, saberei... e tu como é que sabes que o meu tempo certo não é neste momento?
- Não sei. Mas se o tentares ficarei a sabe-lo imediatamente...
- Vai-te foder!
- Já estou.
- Vou fazê-lo agora!

E fê-lo mesmo.

- Então como correu?
- Vai-te foder!
- He he he... Já estás.


Prometes?

Dois miúdos aguardam a sua vez na fila, Zé seguido de Tomás, para terem acesso às cabines de duche. A coisa não flui como eles esperariam e a sua impaciência é notória.

- "Fogo... ainda faltam !3! pessoas à nossa frente..."
- "Epá Zé, não quero estar aqui à seca!"
- "Mas temos de estar Tomás! Temos de estar senão nunca mais! Depois os nossos pais..."
- "Então fica aqui tu que eu vou brincar lá para fora. Quando for a minha vez chama-me, ok?"
- "Fica aqui! Não vês que está muito barulho!? Não me vais ouvir!"
- "Chamas-me melhor... duh"
- "Fica mas é aqui quieto ao meu lado que é melhor."
- "Não quero, não tenho paciência. Vou lá para fora para ver se te ouço chamar-me."
- "Não vais nada!"
- "Já fui! CHAMa-meeeeeeee..."

Zé irritado por ser abandonado naquela seca de fila sussurra baixinho o nome de Tomás que do lado de fora, na zona de brincadeira, nada ouve. Progressivamente Zé aumenta o volume até ao tom normal e Tomás ouve-o. Imediatamente corre para o interior do balneário.

- "Vês, Zé! Vês! Ouvi! Ouvi!"
- "Ouviste-me aí à 3ª ou 4ª! Já tinhas perdido a vez. Fica aqui, Tomás!"
- "Então vamos experimentar outra vez!"

A cena repete-se exatamente da mesma maneira com um Tomás frustrado por a coisa não funcionar como previsto e ter de ficar preso aquela fila pasmaceira para não perder a vez. Zé está inchado pelo seu esquema maquiavélico estar a funcionar em pleno. Só que Tomás não tem tempo a perder e prefere solucionar aquele problema do que estar parado na fila. Pede mais uma oportunidade. Desta vez não vai para a zona afastada de brincadeira, de onde não ouve os sussurros de Zé, encostando-se à parede imediatamente após a esquina da porta de saída do balneário. Zé novamente sussurra

- "Tomás..."

Tomás entra de rompante, vitorioso!

- "Ouvi! Ouvi!"

Zé, frustrado por ter sido apanhado no seu esquema.

- "Vá lá, Tomás... não te metas com parvoíces. Fica aqui comigo senão ainda perdemos a vez."
- "hum... JÁ SEI!"
- "O quê?"
- "E se fôssemos até ao outro balneário?"
- "Só faltam três pessoas aqui!"
- "Ya, mas lá pode estar melhor!"
- "Estás a falar a sério?"
- "Sim! Bora, bora, bora!"
- "Tu queres é que eu saia da fila para me passares à frente..."
- "Não! Juro que é para irmos! Boooooraaaaaaa!"
- "Juras? Isso não vale de nada!"
- "É a sério pá! Olha aqui."

Tomás estica o mindinho para Zé. Zé com um ar mais aliviado entrelaça o seu mindinho no mindinho de Tomás que olhando-o nos olhos lhe diz.

- "Prometo que não te vou roubar o lugar e que vamos juntos para o outro balneário."

Zé, tem agora a certeza da verdade nas palavras de Tomás. E zarpam numa correria e barulheira desenfreadas para outro balneário. Cinco segundos depois de saírem vagam três cabines de duche no balneário onde se encontravam. Ao chegarem ao outro balneário estavam seis pessoas em espera e Tomás, por ter ganho a corrida, ficou desta vez à frente de Zé.

Nem Tomás fez as contas para perceber que tinha mais pessoas à sua frente, nem Zé se importou de ter perdido o seu lugar na fila para Tomás. Ambos saboreiam simplesmente o facto de as promessas de mindinho continuarem a ser o que de mais fiável existe e de assim terem mais um pouco de tempo, justificado, para fazerem mais umas parvoíces juntos antes de chegarem atrasados ao ralhete da hora de jantar, junto das suas famílias.


Ser no Mundo vs Mundo no Ser

Eu vejo. Eu sinto. Não a ti. Ao mundo. Esse redor sempre presente. Barulhento, peçonhento, transpira sobre mim como se a minha função não fosse mais do que ser mero papel absorvente.

Caminho. Não! Corro! Fujo! Em vão... Eu estou nele. Eu sou ele. Ele não é eu. Cabrão... Tem-me o cerco montado. É assim desde tenra idade. Não há passo ao lado que não seja notado. Tocam os alarmes, soltam-se os cães de guarda desta realidade.

Sou como um tumor benigno ainda vivo num cadáver em decomposição. Uma flor de lótus que emerge do pântano. Surgidos de um acaso com multiplicação improvavel. Mas existir abre caminho para o que há-de vir.

Estou nele mas ele não está em mim. E isso será o princípio do seu fim.


Há um ano atrás...

Antes de chegar perdemo-nos, conduzindo por caminhos de mistério com a segurança de já nos termos encontrado. Não sabíamos para onde íamos quando finalmente chegámos. Chegámos acompanhados de outros perdidos que não se deixaram empatar pelo atraso e nos encaminharam para a cabeça do grupo. Fomos pé ante pé servindo de batedores que desbravam e apontam o caminho a ser seguido. Fomos assim embalados pelo vento, e espreitados pelo Sol, até que quando demos conta já estávamos na cauda do pelotão.

Não sei se nos pesam as pernas, se nos pesam os corações. Talvez estes últimos de cheios que estão.

Finalmente encontrámos o local ideal. Frio, ventoso, abrigado do sol acolhedor, com terra húmida repleta de galhos, pedrinhas incómodas, e terreno alinhado num plano inclinado. Estendemos os colchões, montaram-se os gongos e transformou-se o espaço e momento em grande sublimação. A Natureza não tem o bom e o mau. Tem o natural. O resto é o que nós fazemos dela. E hoje o que dela fizemos foi bom.


O Concerto no Coreto

A multidão rodeia o coreto de onde os músicos tocam ao ar livre para um público que na sua maioria, tal como eu, não distingue os ensaios do início do concerto. Uns sentam-se na relva, diretamente, sobre uma manta ou enterrados num puff. As crianças misturam-se ao vento juntamente com os cães rodas baixas que as seguem fielmente, os adultos sobretudo olham e escutam, os idosos apenas ali estão a fazer greve à solidão.

Todos estão de frente para o coreto menos eu. Estou sentado de costas num dos bancos livres que lhe estão encostados. Não vejo os músicos mas sim a plateia. Não faz mal. Vim aqui para ouvir música e não para ver os músicos. Prefiro olhar para as pessoas. São muitas mais do que os 3?, 4?, 5? músicos que tocam atrás de mim.

Vejo pessoas intrigadas com a minha presença, sobretudo quando a minha objetiva capta algo que considero especial. Desistam. Coleciono momentos que apenas para mim têm significado. Retratos de anónimos especados cujas poses e semblantes despertam algo no meu pensar.

As músicas continuam mas devo ter o ouvido estragado. Depois de uma ou duas soam-me todas ao mesmo embalar. A dado ponto ajeito a mochila, estico-me no banco, só para mim e para umas vespas atrevidas, e ponho-me a dormir. Quando acabar o embalo hei-de acordar. Porque a música quando boa não é preciso ser-se erudito para dar-se pela sua falta. Realmente acordei. Apenas um pouco tarde demais...


Nota: salvado de rascunhos de Junho de 2011

O Serial Killer Salvador ou Libertador


Num espaço escuro e silencioso um homem grita

- "SOCORRO! ALGUĖM!? SOCORRO!"

Vendado, desorientado, agitado, debate-se procurando afrouxar as amarras asfixiantes que o pregam à cadeira.

- "Que se passa!? Que fiz eu!? TÊM O HOMEM ERRADO SEGURAMENTE! Ou é dinheiro que querem? Levem-no todo! O código do meu multibanco é ..."

- "... escusas de continuar que o dinheiro não compra o prazer que tiro ao fazer isto. E asseguro-te que tenho o homem certo exatamente onde ele deve estar."

- "Impossível! Que fiz eu para merecer isto?"

- "Não sei. Mas em breve vamos saber. Só te posso dizer que estavas no local certo quando senti o impulso para fazer isto novamente. E já tenho idade e experiência de vida suficientes para saber que não existem coincidências."

- "Impulso para fazer isto? Isto o quê?"

- "Matar-te ora essa. Mas não te preocupes que não vais sofrer nada. É rápido e limpinho. Nem vão precisar de fazer-te reconstrução para ficares bonito a olhar para as pessoas no velório."

- "Matar-me!? Assim do nada!?"

- "Do nada não. Do meu instinto no momento."

- "Mas eu tenho uma vida pela frente! Tenho família! Mulher, dois filhos que dependem de mim! Por favor deixa-me ir. Juro que não digo nada a ninguém, nem preciso de te ver nem saber onde estou. Deixa-me inconsciente num ermo qualquer que eu oriento-me. Por favor..."

- "Que cliché. Poupa-nos a humilhação. Acomoda-te. Ainda temos tempo."

- "Mas tens tanta gente que podes levar sem que ninguém sinta falta! Vagabundos, criminosos, sei lá! Peço-te por favor..."

- "Ha ha ha! Também vejo essa série na TV. Do gajo que só dá cabo de criminosos. Que tanga. Quando nos dão as ganas não nos interessa quem tem de morrer. Morre e pronto."

- "Filha da puta de vida! Acabar às mãos de um assassino sem qualquer justificação."

- "Gosto mais de ver-me como um salvador ou um libertador. E já te dei a justificação. Apeteceu-me e estavas ali. Era porque tinha de ser."

- "E agora? O que tencionas fazer comigo? Quanto tempo me resta?"

- "Pouco, tenho a dizer-te. Só tens tempo de deixar uma última mensagem que gravarei em vídeo. Uma lembrança para os teus que deixarei junto ao teu cadáver. Chama-lhe a minha assinatura de marca. Digamos que é uma oportunidade que te dou para te despedires desta vida."

Acende-se uma luz ao fundo e é-lhe retirada a venda pelas costas.

- "Olha para a luz da câmara e despede-te."

Num misto de raiva e choro, rendido à situação, o refém anui à macabra gravação. É a única forma de dizer algo aqueles que lhe são próximos. E numa voz embargada discursa para a objetiva.

- "Não sei o que diga... tanto tempo a sonhar com um Euromilhões e o que me sai é isto... é parvo mas a probabilidade deve ser praticamente a mesma... Deixo tantas coisas por fazer, umas sozinho, outras convosco, grandes viagens planeadas para quando tivesse mais tempo, hobbies parvos que me dão gosto apesar de não levarem a lado nenhum, como se isso fosse preciso para praticar um hobby. Querida, ajudei-te tão pouco a criar as crianças... Trabalhei tanto que praticamente só as via acordadas ao fim de semana. Serve-lhes de muito saber que as beijava todas as noites quando chegava e já dormiam... Hão-de ser histórias da carochinha como outras que lhes hás-de ainda contar. Adiei tantos momentos para quando tivesse mais tempo, para quando tivesse mais estabilidade financeira, mais motivação e disponibilidade mental. E percebo agora que não os adiei. Perdi-os para sempre. Não vou ter culpa na minha morte. Mas tudo o que deixei por fazer ou que fiz de mal ainda em vida é culpa minha. Peço-vos desculpa por não ter sido mais presente, mais pleno. Mas é que apesar de os dias passarem tão devagar os anos passam tão depressa... quando dava por mim já tinha perdido oportunidades de imprimirmos boas memórias juntos. Dizia para mim mesmo que compensava na próxima mas depois também essa passava antes de eu me aperceber disso... Amo-vos e só vos peço que não sigam os meus passos. Façam mais coisas, menos planos, tudo o que podem fazer já façam-no, não adiem consecutivamente, obriguem-se a sair do marasmo. Amanhã é sempre outro dia mas ontem, ontem já foi e o que foi e como se foi fica para sempre e não se muda mais. Gostaria de sentir que vos ia fazer mais falta enquanto morto mas tenho perfeita noção que vos fiz muita falta enquanto vivo. Perdoem-me... Beijos, sejam felizes!"

- "Corta!"

A gravação termina e a luz apaga-se.

- "Muy bien, muy bien. Gostei. Pouco lamechas, introspectivo. Assim sim, vale a pena."

- "Vai-te foder! És um serial killer doentio! Não abrirei mais a boca para te dar qualquer tipo de satisfação. Espero que cumpras a tua promessa de entregar essa gravação e que nunca te aproximes deles."

- "Ah valente. A hora da morte dá cá uma descarga de adrenalina e coragem, não é? Não te preocupes que eu cumpro a minha palavra. Bem, vamos ao que importa."

Abrem-se o que parecem ser as portas de uma furgoneta encadeando o refém com a luz solar vinda do exterior. A venda é-lhe recolocada e a cadeira onde se encontra é arrastada até ser jogada para fora, de encontro ao solo. O refém cai desamparado em cima da caruma. O agressor salta da carrinha aterrando com os pés junto à cabeça do homem tombado. Coloca-lhe algo no bolso, e sussurra-lhe ao ouvido

- "Falaste apenas de dias e anos mas esqueces-te que existem também horas, minutos e segundos. Dá-lhes o devido valor e verás que os outros dois serão muito mais proveitosos. O homem que eu queria matar está no vídeo que te deixei no bolso. Foi o homem que se confessou, que no fim queria ser um homem diferente. Espero ser este último quem salvo e liberto agora. Eu disse-te que sou mais um salvador, ou libertador, do que propriamente um assassino. Voltarei sem que saibas quem sou nem quando. Se o homem que se me apresentar à frente fôr o do vídeo, e não o que solto agora, asseguro-te que não haverá segunda oportunidade. Nessa altura conhecerás a minha faceta de assassino que também a tenho."

As amarras são cortadas, pegadas pesadas dirigem-se para a furgoneta, a porta da mesma abre-se e  fecha-se após o que arranca calmamente. Quando deixa de se ouvir o refém move-se. Solta-se, retira a venda e ainda espojado no chão verifica estar num ermo qualquer. Ao longe circula uma furgoneta e olhando para ela diz simplesmente

- "Obrigado"



Lavagem de Roupa Suja

Roupas tesas pendem de um estendal com lotação esgotada. O estendal tem duas cordas, ambas repletas e vergadas pelo peso. Uma tem apenas roupas de homem. A outra apenas roupas de mulher, à excepção de um boxer nitidamente masculino.

Ele chega primeiro, ela pouco depois, cada um com o seu cesto.

- "Chega-te para lá!" avisa-o.

- "Não te preocupes que ainda há espaço para os dois." atiça-a.

- "Ainda!? Que é que queres dizer com isso? Que estou a engordar!? Estúpido."

Ele é maduro o suficiente para saber que um silêncio e um encolher de ombros são a única resposta tolerada depois de uma provocação tão refinada.

Posicionam-se cada um na sua corda como se estivessem alinhados numa pole position de duas pistas e dá-se a partida. Ele pega cada peça como se fosse um trapo que joga aleatoriamente no cesto mas tem o cuidado de colocar a mola de volta na corda de forma a permitir o seu deslizamento sem fricção. Ela faz uma dobra delicada por cada peça de roupa que pousa no cesto e deixa a mola na corda ao acaso. E assim seguem até meio do percurso.

- "Olha para isso. Nem sabes estender uma roupa."

- "Não sei? Porquê? Está cá toda. Não voou nenhuma."

- "És mesmo ignorante. Não vês que tens que colocar a mola nas pregas para não vincares a roupa? Assim estragas-a toda."

- "Mas o que é que isso interessa? Não vai passar a ferro a seguir? Que mania de ter de ser tudo ao teu jeito. Deixa estar que da minha roupa cuido e até agora nunca se queixou. Além de que para quem se preocupa tanto com o sítio onde se põem as molas basta olhar para o que estás a deixar para trás..."

- "A deixar para trás? As molas na corda? Qual é o problema?"

- "O problema é que se quiseres puxar todas para um lado as tuas vão encravar ou saltar da corda em vez de deslizarem de uma forma prática assim" vvvvvvvvvt todas as molas sem roupa vão de uma assentada até ao início da corda, vvvvvvvvvvvvt as molas voltam de uma assentada até ao meio onde se encontra a primeira peça estendida.

- "Tu és doente da cabeça... isso não serve para nada!"

- "Vê-se mesmo que não és tu que estendes a tua roupa..."

Ela tem consciência que é ele que lhe estende a roupa sem que ela o peça e percebe que este não é um caminho a explorar.

Ele acaba por ganhar avanço e termina a sua corda quando ainda existem 3 ou 4 peças na corda dela. Com ar vitorioso coloca as mãos sobre o seu boxer, a última peça no estendal que é sua pertença.

- "O que é que esse boxer está a fazer aqui!?"

- "Já não tinha espaço nesta corda e ainda havia aqui um espacinho."

- "Queres isto tudo só para ti é? O estendal também é meu! 50/50! Não tens nada de invadir o meu espaço."

- "Mas é só um pequeno boxer, qual é o drama? O estendal dá para os dois."

- "E se eu quisesse pendurar mais uma peça?"

- "Apanhavas uma já seca. Ou tiravas o boxer se te incomodava assim tanto. Que maluquice de discussão..."

- "Maluquice não. Não tenho de estar limitada pela tua invasão de espaço! Nem de mexer nas tuas roupas fedorentas! Se fazes favor respeitas o meu espaço para não haver problemas."

- "Ok, ok, esta corda é tua, ponto final. Não te compreendo..."

- "Pois, quem não compreende sou eu. Somos muito diferentes. A vontade que me dá é fazer as malas e ir estender e apanhar a roupa para outro estendal."

- "Realmente parece que é preciso tratarmos da roupa juntos para descobrirmos mais umas facetas escondidas... só tenho pena que não nos tenhamos encontrado aqui no estendal mais cedo..."

O boxer salta para o cesto mas desta vez as molas ficam desarrumadas na corda incapazes de deslizar. Ele vai para dentro de casa dobrar a roupa apanhada. Ela regozija-se pela desarrumação das molas e pega apressadamente as 2 ou 3 peças que lhe faltavam jogando-as para o cesto como se fossem uns trapos. Ainda se vira a tempo de o ver a entrar em casa e segue-o para arrumar a sua roupa.

Não muito depois a máquina de lavar roupa batalha com um conjunto de lençóis sujos que tinham sido acabados de estrear.


A TV Morreu

Olho e oiço a chuva estática na TV numa espera interminavel de que a emissão retome da interrupção. Não sei há quanto tempo aqui estou. Indeciso entre usar todas as minhas forças num esforço épico para pegar no andarilho, içar-me desta poltrona, onde estou ancorado, percorrer toda a sala, rodeando a mesa de centro, e ter a destreza para me equilibrar enquanto mexo nas duas antenas em simultâneo até achar o sinal. E tudo isto sem que me mije pelas pernas abaixo.

Prefiro esperar que passe, que a maré mude e as ondas do sinal voltem a passar no mesmo sítio de outrora. Já nada me incomoda desde que a solitude física, onde me encontro há décadas, se entranhou em mim isolando-me a mente e espírito de todos os estímulos exteriores. Vivo só, estou só, sou só. Só, só só.

Já nem me lembro se alguma vez tive família, se saí com amigos, nem sequer se fui boa ou má pessoa no passado. Lembro-me de mim já só, no meio das multidões na ruas da cidade, procurando reconhecer alguém para trocar dois dedos de conversa.

Tudo o resto é vago, uma realidade entremeada com fantasia, ou vice-versa, já nem sei bem. Só a matemática mantém o vigor da juventude, fruto da necessidade de esticar reforma risível a tentar manter-me vivo no limiar do confortavel.

Vejo notícias de velhos morrendo sós que demoram meses ou anos a ser encontrados. Não quero isso para mim e já me precavi. Vejo a TV no máximo para que um dia que me vá os meus vizinhos se deêm conta da estranheza de todas as noites o som da chuva estática não os deixar dormir. É por isso que me irritam estes falsos alarmes, estas quebras de sinal, que me podem ainda arranjar problemas de vizinhança enquanto vivo.

Acho que desta me vou levantar. O raio do sinal nunca mais se restabelece.

- "Velho, pára lá com as lamechiches. Está na hora de vires."

- "Oh diabo! Que fazes nas minhas costas? Quem és tu? Como entraste aqui?"

- "Sou um como tu. Entro onde quero quando quero. Portas e paredes são mera ilusões. Mandaram-me vir buscar-te já que nunca mais te dás conta."

- "Vir buscar-me? Como assim?"

- "Morreste. Estás morto há uns aninhos. Começa a ser normal que ninguém dê conta mas é raro o próprio morto nem se aperceber. Parece que és um desses cromos e cá estou eu para te mostrar o caminho."

- "Estou morto? Como se aqui estou?"

- "Aqui estás não, aqui jazes."

- "Morri sem me dar conta e vieste buscar-me?"

- "Sim, mas... porque sorris!? Contentamento por estar morto?"

- "Não, estou simplesmente feliz por ainda ter alguém que sabe que existo e que comigo se importe."



A verdade de um bêbado (transcrição de 2010/12/30)

- Amigo! Encontrei-te! Anda, vamos beber uns copos.

- Amigo? Deves-me estar a confundir. Nós não nos conhecemos.

- Lá vens tu com essas merdas, todas as noites a mesma conversa. Cala-te e bebe.

- Cala-te e bebe!? ... ok ... e bebemos ao quê? Ao que comemoramos?

- Ao Universo extraordinário que é este bar! Um lugar onde se fala de boca cheia sem pensar em julgamento social, onde se ouvem e apreciam as cagadas de todos a mando dos copos.

- Motivo peculiar e interessante mas este bar também não é assim nada do outro mundo.

- Achas que não? Terás tu um mundo melhor que os demais? O meu está repleto de conversas banais centradas no Universo comum. São as histórias sobre os filhos, as viagens, a gastronomia e quando só homens os inevitáveis carros ou futebol. Mas aqui não. Aqui só se fala de assuntos refrescantes, sem rodeios, sem preocupação de ficar bem na fotografia. Isto é vida!

- Bem, admito que conversas com bêbados, desculpa, com pessoas mais alegres, acabam por ser menos convencionais e muitas vezes bem mais interessantes e hilariantes.

- Aqui as conversas são geniais, digo-te eu. A língua mais rápida que o pudor, que o política e socialmente correcto. A guarda da auto-censura completamente de rastos conjugada com uma abertura de espírito escancarada por parte dos ouvintes. Sem tabus, sem complexos, sem julgamentos as palavras limitam-se a fluir.

- Não esperava ouvir algo tão eloquente de alguém evidentemente já com umas rodadas em cima.

- Estou um pouco bêbado mas longe de podre de o ser, ainda sei o que digo. Refugio-me aqui para trazer ao de cima quem sou, sem as amarras que me impõem no dia-a-dia. Já não me conheço quando sóbrio, não gosto desse homem que me possui o corpo nessa altura. Um fantoche para gáudio da mulher, família e amigos. Não incomodo nem acomodo. Não aqueço nem arrefeço. Anulo-me numa previsibilidade monótona para dar segurança e conforto a quem priva comigo.

- Se não gostas do teu círculo social renova-o. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Não reza assim o ditado?

- Agora é tarde... Se romper com tudo o que me asfixia acabarei sozinho. Terei de começar tudo de novo. Prefiro este escape, noites em que para viver me entrego ao beber.

- Estranho. Afinal bebes para esquecer a vida que tens ou para te recordar da vida que queres?

- Bem, a verdade é que com essa me fodeste.

O último serão no escritório (transcrição de 2010/02/17)

-Estou fartinho de estar aqui!

-Podes crer. Cada vez nos espremem mais. Noitadas atrás de noitadas! O meu marido já se anda a passar.

-É normal. Acho que nestes dois meses passei mais tempo contigo do que com a minha família! A minha mulher também não anda propriamente simpática.

-Nisso tens razão, de certo modo até tem sido saborosa esta fuga à rotina caseira! Hihihihihi

-Hehehehehe Sim, nesse aspecto é refrescante. É pena é estarmos aqui fechados no escritório.

-Aaaah mas tem sido divertido. Trocámos umas histórias engraçadas, já para não falar das anedotas e vídeos estúpidos que vimos. Lembras-te quando dançámos o mambo e derrubámos a Cola e as pizzas sobre os arquivos? Hahahahaha

-Hahahaha Essa foi de morte! Espero que já tenha saído das fitas da vídeo-vigilância! Seria vergonhoso aquilo ir parar ao Youtube... Ui... a porradinha que eu levaria da minha mulher... Ia logo dizer que eu estava aqui a divertir-me com outras!

-Sim, o meu marido também se iria mandar às paredes. Não sou nada dessas parvoíces de danças malucas.

-Agora que encarrilámos o projecto acho que nos próximos meses já não vão haver mais serões. Vamos endireitar as nossas relações que passaram por uns momentos de aperto devido às exigências profissionais.

-Pois é... que estranho... de certo modo até vou sentir saudades destes momentos. Saía cansada mas bem –disposta. Tu és divertido e alivias o stress.

-Vá, não te metas com isso. Só sou divertido porque tu também és. Tive sorte. Se calhasse seres uma matrafona tinha de estar para aqui caladinho que nem um rato sob risco de ser ameçado para me calar. Tu és agradável ao olho e à fala. O chamado 2 em 1. Ou quatro se dermos o devido valor às tuas mamocas!

-Parvo! Não posso vir com um decote mais atrevido metes-te logo com insinuações.

-hehehe Calma, estou-me só a meter contigo. Sei perfeitamente que estas alianças nos nossos dedos dão faísca se nos aproximar-nos menos de 2 metros!

-Pois, por isso é melhor mantermos a distância mínima de segurança!

-Ok. Vamos arrumar? Está na hora de apagarem as luzes.

-Sim, acabei.

Ambos arrumam os pertences e vestem os casacos. Caminham lado a lado pelos corredores em direcção à saída quando, de repente, as luzes se apagam. Instintivamente ela agarra-se a ele para sentir segurança e ele agarra-se a ela sem saber porquê. Não dizem nada enquanto sentem o corpo do outro contra o seu. Pouco depois os seus lábios tocam-se. Primeiro ao de leve, timidamente, pressionando até provocar o abrir de boca e o soltar das línguas sem pudor. Do fim do corredor apenas se vêem e ouvem duas alianças a faiscar e tilintar de encontro uma à outra.

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy

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