A TV Morreu
Olho e oiço a chuva estática na TV numa espera interminavel de que a emissão retome da interrupção. Não sei há quanto tempo aqui estou. Indeciso entre usar todas as minhas forças num esforço épico para pegar no andarilho, içar-me desta poltrona, onde estou ancorado, percorrer toda a sala, rodeando a mesa de centro, e ter a destreza para me equilibrar enquanto mexo nas duas antenas em simultâneo até achar o sinal. E tudo isto sem que me mije pelas pernas abaixo.
Prefiro esperar que passe, que a maré mude e as ondas do sinal voltem a passar no mesmo sítio de outrora. Já nada me incomoda desde que a solitude física, onde me encontro há décadas, se entranhou em mim isolando-me a mente e espírito de todos os estímulos exteriores. Vivo só, estou só, sou só. Só, só só.
Já nem me lembro se alguma vez tive família, se saí com amigos, nem sequer se fui boa ou má pessoa no passado. Lembro-me de mim já só, no meio das multidões na ruas da cidade, procurando reconhecer alguém para trocar dois dedos de conversa.
Tudo o resto é vago, uma realidade entremeada com fantasia, ou vice-versa, já nem sei bem. Só a matemática mantém o vigor da juventude, fruto da necessidade de esticar reforma risível a tentar manter-me vivo no limiar do confortavel.
Vejo notícias de velhos morrendo sós que demoram meses ou anos a ser encontrados. Não quero isso para mim e já me precavi. Vejo a TV no máximo para que um dia que me vá os meus vizinhos se deêm conta da estranheza de todas as noites o som da chuva estática não os deixar dormir. É por isso que me irritam estes falsos alarmes, estas quebras de sinal, que me podem ainda arranjar problemas de vizinhança enquanto vivo.
Acho que desta me vou levantar. O raio do sinal nunca mais se restabelece.
- "Velho, pára lá com as lamechiches. Está na hora de vires."
- "Oh diabo! Que fazes nas minhas costas? Quem és tu? Como entraste aqui?"
- "Sou um como tu. Entro onde quero quando quero. Portas e paredes são mera ilusões. Mandaram-me vir buscar-te já que nunca mais te dás conta."
- "Vir buscar-me? Como assim?"
- "Morreste. Estás morto há uns aninhos. Começa a ser normal que ninguém dê conta mas é raro o próprio morto nem se aperceber. Parece que és um desses cromos e cá estou eu para te mostrar o caminho."
- "Estou morto? Como se aqui estou?"
- "Aqui estás não, aqui jazes."
- "Morri sem me dar conta e vieste buscar-me?"
- "Sim, mas... porque sorris!? Contentamento por estar morto?"
- "Não, estou simplesmente feliz por ainda ter alguém que sabe que existo e que comigo se importe."
domingo, março 04, 2012 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
A verdade de um bêbado (transcrição de 2010/12/30)
- Amigo! Encontrei-te! Anda, vamos beber uns copos.
- Amigo? Deves-me estar a confundir. Nós não nos conhecemos.
- Lá vens tu com essas merdas, todas as noites a mesma conversa. Cala-te e bebe.
- Cala-te e bebe!? ... ok ... e bebemos ao quê? Ao que comemoramos?
- Ao Universo extraordinário que é este bar! Um lugar onde se
fala de boca cheia sem pensar em julgamento social, onde se ouvem e
apreciam as cagadas de todos a mando dos copos.
- Motivo peculiar e interessante mas este bar também não é assim nada do outro mundo.
- Achas que não? Terás tu um mundo melhor que os demais? O meu
está repleto de conversas banais centradas no Universo comum. São as
histórias sobre os filhos, as viagens, a gastronomia e quando só homens
os inevitáveis carros ou futebol. Mas aqui não. Aqui só se fala de
assuntos refrescantes, sem rodeios, sem preocupação de ficar bem na
fotografia. Isto é vida!
- Bem, admito que conversas com bêbados, desculpa, com pessoas
mais alegres, acabam por ser menos convencionais e muitas vezes bem mais
interessantes e hilariantes.
- Aqui as conversas são geniais, digo-te eu. A língua mais
rápida que o pudor, que o política e socialmente correcto. A guarda da
auto-censura completamente de rastos conjugada com uma abertura de
espírito escancarada por parte dos ouvintes. Sem tabus, sem complexos,
sem julgamentos as palavras limitam-se a fluir.
- Não esperava ouvir algo tão eloquente de alguém evidentemente já com umas rodadas em cima.
- Estou um pouco bêbado mas longe de podre de o ser, ainda sei o
que digo. Refugio-me aqui para trazer ao de cima quem sou, sem as
amarras que me impõem no dia-a-dia. Já não me conheço quando sóbrio, não
gosto desse homem que me possui o corpo nessa altura. Um fantoche para
gáudio da mulher, família e amigos. Não incomodo nem acomodo. Não aqueço
nem arrefeço. Anulo-me numa previsibilidade monótona para dar segurança
e conforto a quem priva comigo.
- Se não gostas do teu círculo social renova-o. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Não reza assim o ditado?
- Agora é tarde... Se romper com tudo o que me asfixia acabarei
sozinho. Terei de começar tudo de novo. Prefiro este escape, noites em
que para viver me entrego ao beber.
- Estranho. Afinal bebes para esquecer a vida que tens ou para te recordar da vida que queres?
- Bem, a verdade é que com essa me fodeste.
quarta-feira, janeiro 25, 2012 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
O último serão no escritório (transcrição de 2010/02/17)
-Estou fartinho de estar aqui!
-Podes crer. Cada vez nos espremem mais. Noitadas atrás de noitadas! O meu marido já se anda a passar.
-É normal. Acho que nestes dois meses passei mais tempo contigo
do que com a minha família! A minha mulher também não anda propriamente
simpática.
-Nisso tens razão, de certo modo até tem sido saborosa esta fuga à rotina caseira! Hihihihihi
-Hehehehehe Sim, nesse aspecto é refrescante. É pena é estarmos aqui fechados no escritório.
-Aaaah mas tem sido divertido. Trocámos umas histórias
engraçadas, já para não falar das anedotas e vídeos estúpidos que vimos.
Lembras-te quando dançámos o mambo e derrubámos a Cola e as pizzas
sobre os arquivos? Hahahahaha
-Hahahaha Essa foi de morte! Espero que já tenha saído das fitas
da vídeo-vigilância! Seria vergonhoso aquilo ir parar ao Youtube...
Ui... a porradinha que eu levaria da minha mulher... Ia logo dizer que
eu estava aqui a divertir-me com outras!
-Sim, o meu marido também se iria mandar às paredes. Não sou nada dessas parvoíces de danças malucas.
-Agora que encarrilámos o projecto acho que nos próximos meses
já não vão haver mais serões. Vamos endireitar as nossas relações que
passaram por uns momentos de aperto devido às exigências profissionais.
-Pois é... que estranho... de certo modo até vou sentir saudades
destes momentos. Saía cansada mas bem –disposta. Tu és divertido e
alivias o stress.
-Vá, não te metas com isso. Só sou divertido porque tu também
és. Tive sorte. Se calhasse seres uma matrafona tinha de estar para
aqui caladinho que nem um rato sob risco de ser ameçado para me calar.
Tu és agradável ao olho e à fala. O chamado 2 em 1. Ou quatro se dermos o
devido valor às tuas mamocas!
-Parvo! Não posso vir com um decote mais atrevido metes-te logo com insinuações.
-hehehe Calma, estou-me só a meter contigo. Sei perfeitamente
que estas alianças nos nossos dedos dão faísca se nos aproximar-nos
menos de 2 metros!
-Pois, por isso é melhor mantermos a distância mínima de segurança!
-Ok. Vamos arrumar? Está na hora de apagarem as luzes.
-Sim, acabei.
Ambos arrumam os pertences e vestem os casacos. Caminham lado a
lado pelos corredores em direcção à saída quando, de repente, as luzes
se apagam. Instintivamente ela agarra-se a ele para sentir segurança e
ele agarra-se a ela sem saber porquê. Não dizem nada enquanto sentem o
corpo do outro contra o seu. Pouco depois os seus lábios tocam-se.
Primeiro ao de leve, timidamente, pressionando até provocar o abrir de
boca e o soltar das línguas sem pudor. Do fim do corredor apenas se vêem
e ouvem duas alianças a faiscar e tilintar de encontro uma à outra.
sábado, janeiro 21, 2012 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Projecto de FDS em Lisboa - Porto (transcrição de 2010-12-16)
Uma pancada seca fecha o porta-bagagens. Dois passageiros ocupam as
pontas do banco traseiro e acomodam-se à sua janela para o mundo nas
próximas horas. Para além do cinto prendem-se com um dar de mãos que
preenche o lugar vazio ao centro.
Lisboa – 0km – 0mnts
- Fim-de-semana maravilha, mas ela que não sonhe ser pedida em noivado!
- No passeio no Douro será perfeito! Irá ele oferecer-me um anel de noivado em ouro?
Vila Franca Xira – 20km – 10mnts
- Desta terra só me lembro de mancharem os coletes de encarnado sangrado dos touros! Cobardes miseráveis!
- Ele não me dirige a palavra!? Pensará nalguma vaca?! Se é isso
sangro-os aos dois, juro! Falo, falo mas sei que me acobardaria. Só a
ideia de tingir o meu colete de encarnado me repugna.
Santarém – 65km – 30mnts
- Deixaram ruir todos os marcos arquitectónicos e perder o estatuto
de capital do gótico. Tanta incúria e decadência. Pior até do que as
louças das Caldas.
- Não acredito! É decadente como de repente deixei de existir. Sinto os nossos alicerces a ruir.
Leiria – 129km – 1h
- Adoro passar aqui. Vá em sentido Sul-Norte, ou Norte-Sul, pouco
mais de uma hora e chegamos. A seguir é Pombal! A ver se é hoje que vejo
o raio de um pombo por ali!
- Mas como é ele capaz de ir ali com aquela cara de parvo e não me dirigir a palavra há mais de uma hora?
Pombal – 153km – 1h15m
- “Vais tão caladinho... Pensas em quê?”
- “Em nada de especial.”
- “Ninguém pensa em nada...”
- “Penso em tanto ao mesmo tempo que tudo somado dá um grande nada!”
- “Como...”
- “O bom que vai ser o nosso FDS!”
Dito isto sorri e beija-lhe a mão.
- Ver pombos já não foi hoje...
- Beija-mão!? Sou alguma velha!?
Coimbra – 189km – 1h30m
- Ui... grandes semanas académicas por aqui... velhos tempos!
- Vieram cá os U2 e ele nem fez um esforço para arranjar bilhetes...
Aveiro – 232km – 2h
- A ver se ela não se lembra dos ovos moles! Depois vai tudo para as ancas!
- Para consolo comia agora uns ovos moles! Mas vai tudo para as ancas...
Porto – 300km – 2h30m
- “Foi rápido! Que queres fazer agora?”
- “Quero voltar para Lisboa.”
- “Estás louca?”
- “Já não te conheço, acabou tudo.”
- “!? Disse algo errado?”
- “Não, mas também nada de certo.”
A marcha é invertida, o lugar ao centro vaza e ele joga a mão ao bolso onde repousa o anel de noivado em ouro.
quarta-feira, janeiro 18, 2012 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 2 Comments
Um Cego em Espera (transcrição de 2011/02/09)
Entro na sala de espera e cheiro o suor, algum com meio dia, outro
apurado há mais tempo. Os perfumes não disfarçam o odor, antes se
misturam criando um cocktail agridoce que quase posso saborear no ar com
a ponta da língua. Os cochichos e zuns-zuns ecoam-me nos tímpanos e
é-me difícil filtrar as vozes que não me interessam, as conversas de
chacha mantidas em toda a extensão da sala.
Em momentos como este queria poder desligar todos os sentidos.
Tal como as pessoas ditas normais podem fechar os olhos, tapar os
ouvidos e eclipsar-se por momentos de uma realidade incómoda. Mas um
cego como eu não consegue fechar-se ao mundo. Cada poro do meu corpo é
um receptor de alta precisão de tudo o que se passa ao redor.
As tosses não são um simples cof cof, são um respirar
arranhado, contínuo, como um motor gripado em que não desistem de dar à
chave. Os bébés mal trocados lembram-me os WCs públicos porque passo ao
largo. As atracções físicas cruzadas dão lugar a palpitações e batidas
dignas de um ritmo techno, aliadas à corrente de ar levantada por
milhares de pelos que se eriçam em simultâneo.
Concentro-me para seguir a aragem, atravessando a sala para me
situar junto à janela. O tik-tak da minha bengala apenas rivaliza com o
clicar contínuo, em ruído de fundo, das teclas dos telemóveis onde
alguns jogam, mandam SMS ou vão a uma qualquer rede social desabafar
“Estou aqui a apanhar uma seca!”.
Encaro a janela apenas para sentir o vidro, opaco, uns graus
mais frio que o resto da sala, e uns resquícios de brisa que passam
pelas frestas da calafetagem. Toco-lhe para sentir as vibrações causadas
pelo rebuliço no exterior. É apenas isto que me pode dar uma janela. De
resto é como se fosse mais uma parede. Não sei o que é olhar lá para
fora. Não sei o que é lá ao longe. Apenas domino o aqui ao perto. Mais
do que aqueles que só o vêem, distraídos que estão com os assuntos do
longe.
Como noutras vezes apetece-me escrever tudo isto que acabei de
pensar e sentir mas não posso escrever sem montar uma parafernália de
utensílios de punção. Sentir a pressão das palavras, que se entopem na
coordenação de movimentos necessária ao perfurar do papel, faz-me entrar
num processo de erosão. Pelo que me limito a usar a memória e bloggar o
que me lembro quando chego a casa.
A enfermeira entra no gabinete do médico. Entre o flirt ouço-a
mencionar o nome do próximo paciente. Atravesso novamente a sala e antes
que abra a porta, e grite o meu nome feita Tarzan, posiciono-me para
dizer ser eu.
sábado, janeiro 14, 2012 | Etiquetas: Crónica (ou género disso) | 0 Comments
Os Pirilampos Fundidos
Aqui a noite costumava ser bela com o escuro como o breu polvilhado pelos pontos de luz orgânica que riscavam o ar quais estrelas cadentes intermitentes pouco acima do solo. Esse pontos de luz mais não eram que um enxame de pirilampos que habita nestas paragens.
Os pirilampos, ou vaga-lume se assim preferirem, produzem luz, diretamente a partir do seu corpo, cuja intensidade e duração varia de acordo com o seu estado de espírito. Nuns dias destacam-se uns, noutros destacam-se outros criando um belo padrão luminoso, caótico e aleatório, sarapintado no ar. Cada pirilampo sabe, pela sua própria experiência, que numa noite em que esteja mais apagado pode contar com a luminescência de outros que se encontrem ao seu redor.
A harmonia estava garantida pois havia sempre algum pirilampo capaz de iluminar o caminho. Davam e recebiam luz sem olhar a quem.
Mas em todo o pano cai a nódoa e numa triste noite começou a mudança que nos leva até às noites de hoje. Um dos pirilampos, sabe-se lá porque motivo, começou a sentir-se menosprezado, subvalorizado. Gostava de ser o holofote do enxame e nas noites em que não era o mais aceso invejava aqueles que o ofuscavam fazendo-lhe uma certa sombra.
Sem dar por isso começou uma campanha que mudaria tudo. Falava com os outros pirilampos diminuindo a sua auto-estima, dizendo-lhes que ultimamente andavam pouco vistosos, que a sua luz, perfeita, não era suficiente para luminar o caminho, oferecendo-se para tomar o seu lugar na linha da frente, mesmo quando a sua luz era muito inferior à do visado pelas críticas. Lentamente todo o enxame começara a perder brilho, porque o estado de espírito de cada um dos pirilampos estava abalado pelas dúvidas incutidas pelo seu solícito conselheiro. Conselheiro este que se passou a destacar pois a sua luz, mesmo nas noites em que se apresentava mais ténue, era agora sem dúvida a mais vistosa. De tal forma que se passou a auto-intitular O Iluminado.
O Iluminado gabava-se da sua luz eterna, comiserava os seus companheiros reconhecendo que iluminar a comunidade é uma tarefa muito exigente e degastante e que era normal que apenas os mais fortes e obstinados conseguissem executá-la em níveis de alto rendimento. Mas que não se preocupassem, bastaria segui-lo para trilhar os caminhos certos, escolhidos por ele, em segurança.
Progressivamente, um por um os pirilampos viram a sua luz fundir-se, a noite foi ficando cada vez mais escura como o breu, com um pontinho de luz ocasional quando o Iluminado estava nas suas melhores noites. E mesmo assim o facho emitido não tinha diâmetro suficiente que lhe permitisse vislumbrar pelo menos os vultos dos seus companheiros que imaginava ainda viverem ao seu redor, dependentes do seu one pirilampo show.
Na verdade, sem o querer, muitos dos pirilampos tinham migrado para outros campos, porque se tinham perdido no escuro derivado da incapacidade do Iluminado em manter uma luz constante, forte o suficiente para tornar os caminhos perceptíveis para todos. Nesses campos restauraram a sua luminescência castrada apenas por condicionantes psicológicos, recuperaram o sentido e valor da vida em verdadeira comunidade a voltaram a executar grandiosos espetáculos visuais.
Só aqui a noite ficou mais triste, menos bela, facto percebido por todos que aqui habitam. O pior é que até o Iluminado isso constatou mas simplesmente não se importou.
domingo, dezembro 11, 2011 | Etiquetas: Conto | 0 Comments
Cafica, a Poça que não quis ser Nuvem
Cafica era uma poça como todas as outras. Tinha acabado de se formar com as primeiras chuvas de Outono. A terra sobre a qual estava assente era ainda dura, reflexo de um Verão quente e seco. Com o passar dos dias e a chegada do Inverno Cafica foi sendo alimentada pelas chuvas e alargou-se bastante em tamanho e profunidade. O solo já se tinha convertido numa lama espessa que a impedia de se infiltrar e juntar-se a um dos muitos cursos de água subterrâneos que cruzam as terras muitos metros abaixo do solo.
Ao seu redor nasceram muitas outras poças e todas em conjunto olhavam o céu sonhando com o dia em que ascenderiam a nuvem. Cada uma sonhava com a forma que iria assumir para desfilar nas alturas, cativando a atenção daqueles que ainda olham para cima. Umas queriam ter a forma de um coração, outras queriam ser uma flor ou animal e as mais arrojadas desejavam conseguir ser a cabeça de um monstro mitológico.
Só Cafica não sabia o que queria ser. Não era grave. Tinha até ao Verão para se decidir.
Quando a Primavera chegou as poças começaram a ser invadidas por pequenos musgos, larvas de mosquitos, pequenos insetos que caminham sobre as águas e girinos de rãs e tritões. Muitas aves percorriam também a sua orla para saciarem a sede, algumas chegavam a banhar-se. As grandes poças outrora inertes e inóspitas transformaram-se em pequenos poços repletos de vida.
Não muito tempo depois o Verão aproximou-se e o seu Sol tórrido lançou o histerismo entre as poças. Era chegado o tão esperado momento da ascensão a nuvens. Finalmente iam assumir o seu lugar nas alturas com as formas com que sempre sonharam. Estranhamente Cafica não partilhava do entusiasmo das suas congéneres. Estava preocupada. Não consigo mas com aquilo que aconteceria aos seus ocupantes e visitantes quando partisse.
Os dias eram cada vez mais longos e quentes e as poças entram na fase da ascensão. Comprimem-se para diminuir tamanho por forma a facilitar a sua evaporação, através da qual levitam graciosamente para o céu. Apenas Cafica lutava contra o inevitável e refugiava-se nas sombras dos rochedos e árvores ao seu redor. Ainda tinha girinos que não eram rãs e banhava muitos tritões e salamandras que nela encontraram um lar.
Num dia de muito calor deu-se finalmente a ascensão de todas as poças. Gaseificadas evaporaram-se para o céu assumindo as formas que tanto planearam ao longo dos últimos meses. Ursos, Golfinhos, Corações, Minotauros, Hidras, o céu era um festival de fantasia com novas nuvens em rejubilação enquanto eram levadas pelos ventos.
Para trás, no chão, deixaram centenas dos seus habitantes a perecer em sofrimento, dezenas deles, com capacidade de deslocação, migraram para a única poça que tinha feito finca-pé, resistido à onda de calor e ao ciclo natural da sua existência. Cafica recusara-se a partir pois não considerava que aquela carnificina fosse justificada pelo concretizar de um sonho que até não era seu. E sobre o solo viu as novas nuvens a desaparecerem no horizonte.
Cafica era agora a única água das redondezas de quem dependiam milhares de seres vivos.
As nuvens recentes seguiram a sua viagem e viram plantas e animais incriveis noutros pontos do planeta, nunca suspeitaram que pudesse existir tanta vida e tão diferente daquela que conheciam. Ao passarem por uma zona árida desprovida de vida, certamente devido às penúrias do Verão, repararam num pequeno oásis que florescia ao redor de uma pequena poça de água abrigada na sombra de um rochedo. Não queriam acreditar quando reconheceram Cafica. Tinham passado 15 dias e sem dar por isso tinham regressado ao ponto de partida depois de uma volta ao mundo.
Perceberam que Cafica nunca ascendeu! Assim o escolheu. E o deserto à sua volta mais não era que o legado que deixaram quando se limitaram a cumprir o seu ciclo de vida em busca do seu sonho. O sonho de assumir formas de fantasia que devido à força dos ventos, e pressões da altitude, foram desfeitas em dois ou três dias. Na verdade eram agora um manto uniforme de nuvens que formava um céu encoberto. O que não era grave tendo em conta que cedo se aperceberam que não há assim tanta gente a olhar as nuvens apreciando-as como obras de arte efémeras.
Ao verem Cafica tão pequena e encolhida, a poucos dias de ver a sua vontade violada e sofrer uma ascensão forçada, repararam no seu próprio reflexo. Uma pálida imagem de tudo aquilo que tanto ambicionaram, e à custa de muitas vidas que delas dependiam enquanto poças. Viram do ar aquilo que poderiam ter proporcionado em terra, bastaria para isso terem dado o devido valor a tudo o que tinham tal como fez Cafica. Não fosse Cafica e nada restaria. Ironia que quem não sonhava ser algo se tenha transformado na base de tudo naquele lugar. Por raiva para consigo mesmas, vergonha e tristeza todas choraram em uníssono.
Foi uma tarde e uma noite de chuva intensa como jamais tinha acontecido em qualquer Verão no passado. E no dia seguinte já não se percebia onde começava e acabava Cafica. Agora existe um enorme lago batizado de Caficamos, tão grande que é impossível de ser evaporado num Verão inteiro.
domingo, novembro 20, 2011 | Etiquetas: Conto | 0 Comments
O Assassino de Razões
Era uma vez um Reino razoável onde se instalou uma grande injustiça sobre a qual todas as Razões se manifestavam.
A Razão Surda falava tão alto que nenhum outro som conseguia furar a barreira sonora gerada em seu redor. Julga-se indiscutível e indesmentível porque afinal ninguém é capaz de argumentar contra os seus pontos de vistas.
A Razão Coração proclamava poesia, cantava canções, ou exprimia por qualquer outra arte a sua opinião. Encanta tudo e todos com a sua veia criativa, artística e dramática mas poucos convence, estar certo disto ou estar certo daquilo dificilmente se resume à impulsividade do sentimento. Justiça ou injustiça aparentam ser para ela meras coincidências do destino pois raramente se obriga a pensar além daquilo que vê e sente no imediato.
A Razão Cega opinava sem ver. Tudo o que diz parte do escuro e baseia-se nos discursos que lhe chegam aos ouvidos. É uma razão abstracta, teórica, que ouve todas as partes e constrói um modelo da situação. Só 'vê' aquilo que lhe relatam e constrói cenários apenas visíveis por si.
Por fim temos a Razão Muda. Tudo vê e tudo ouve mas nada diz. Pensa mas não fala. Para as outras Razões é a Razão neutra, a Razão tolerante, a Razão indiferente. Nunca está contra, nunca está a favor. Apenas observa sem interferir. É uma Razão low profile que não gosta de dar nas vistas. Mas o que elas não sabem é que dentro desta Razão tudo fervilha. Sobretudo por acreditar que mesmo que não fosse muda nenhuma das outras Razões iria verdadeiramente dar ouvidos ao que tem para dizer nem olhar para os seus pontos de vista. Teme que apenas iria contribuir para diluir a discussão em vez de a ajudar a concentrar-se objectivamente para que dela saísse uma decisão.
Por todas elas passam indifirentes os Sem Razão. Os Sem Razão são aqueles que não veem sentido na discussão. Agem por agir, vivem por viver. São seres amorfos que vivem de acordo com as regras e ditames saídos das discussões das Razões. No entanto a qualquer momento um Sem Razão pode ser cativado e ser absorvido por qualquer uma das Razões tornando-a mais forte, o que não quer necessariamente dizer que se tornasse mais certa. São sobretudo os Sem Razão que sofrem com a injustiça vigente apesar de serem aqueles que menos influência têm sobre os actos que a podem erradicar ou agravar.
Entre os Sem Razão esconde-se uma casta secreta. Os temíveis Razão Paga. Não têm preferência por qualquer uma das Razões mas, para seu proveito próprio, movem-se de Razão em Razão de forma indetetavel. Muitas vezes são usados como espiões ou terroristas de Razões, infiltrando-se para roubar ou minar argumentos de uma Razão a mando de outra. A estes pouco lhes interessa o estado do Reino pois o seu estado pessoal está completamente alheado daquilo que se passa no Reino.
A injustiça que assolava o Reino abordava um assunto fraturante e arrastava-se indefinidamente devido à pluradidade de Razões. A falta de entendimento prolongava a discussão consentindo o perpetuar da injustiça.
Tal era a gravidade da situação que farta deste impasse a Razão Muda, pela primeira vez desde a sua existência, decidiu agir radicalmente. Procurou e contratou o mais terrível dos Razão Paga, incumbindo-o da missão de Assassino de Razões. A sua tarefa era a de aniquilar uma ou mais das Razões existentes até ao ponto em que fosse possível um entendimento. Não interessava que Razões seriam extintas desde que fosse possível pôr fim à injustiça reinante que tanto prejuízo e infelicidade causava ao Reino.
Enfraquecer uma Razão? Isso era possível e trivial. Mas extinguir uma Razão? Não tinha memória de alguma vez isso ter sido tentado. Fazê-lo seria histórico pelo que apenas por vaidade e reputação não poderia deixar de aceitar. O Razão Paga sorriu com desdenho e assim que o pacto estava firmado a primeira coisa que fez foi aniquilar a Razão Muda. Afinal era uma das razões envolvidas na discussão, não foi feita qualquer ressalva de que deveria ser poupada, nem especificada a ordem pela qual deveriam ser desfeitas as Razões. Assim a Razão Muda desapareceu sem deixar rasto. Nenhuma das outras Razões deu pela sua falta e nada retirou ou acrescentou à discussão, pelo que o seu sacríficio foi inconsequente.
Após esta morte, fácil e rápida, o Assassino inicia o plano para atentar contra as outras Razões. A sua missão era clara. Matar Razões uma a uma até que fosse possível a tomada de decisão. No entanto, não muito tempo depois, ainda os seus planos estavam a meio, a Razão Muda estava refeita e voltou a contactá-lo para execução do mesmo serviço como se isso nunca tivesse acontecido.
O Assassino apercebeu-se nesse instante de que as Razões são imortais, podem apagar-se momentaneamente mas não extinguir-se para todo o sempre. Esta poderia ser uma tarefa sem fim! Mas a sua fama de implacável executante, entre os Razão Paga, não poderia ser maculada por este imprevisto. Havia apenas que mudar a abordagem inicial. Mais do que a morte de Razões a sua missão era a de conseguir gerar consenso.
Pela primeira vez na sua vida o Assassino observa atentamente a situação sujeita a discussão e ouve todos os argumentos de cada uma das Razões, excepto da Razão Muda que nada diz. Ao fazê-lo fica espantado em como partindo de um mesmo ponto as Razões chegam a opiniões e conclusões tão diferentes e em como todas fazem sentido parcialmente.
Após pensar arduamente sob a forma como iria conseguir aproximar as Razões, ao ponto de ser tomada uma decisão, decide-se por agir. Rapta cada uma das razões que dispõe num exíguo espaço circular e procede ao seguinte:
- À Razão Surda são aplicados tampões de ouvidos que se activam apenas quando fala demasiado alto ou demasiado tempo. Sempre que isso acontece a Razão Surda pensa ter perdido a sua voz e deixa de falar, passando nesse momento a ouvir o que nunca ouviu e a ter momentos para pensar antes de continuar a falar.
- A Razão Cega é forçada a envolver-se na situação relatada pelas outras. Deve ir tocar e sentir o cenário em discussão não se fiando plenamente no relato das outras Razões. Surpreendentemente encontra em cada cenário pormenores e detalhes, omitidos pelas outras Razões, e passa a interpretar melhor as situações em discussão mostrando às outras Razões aspectos que lhes tinham passado despercebidos.
- A Razão Muda é forçada a escrever tudo o que pensa para que possa ser lido em voz alta às restantes Razões. Ganha um porta-voz, intérprete dos seus pensamentos e opiniões, que lhe permite pela primeira vez ter influência junto das restantes Razões.
- A Razão do Coração, apesar de enclausurada e privada de meios materiais necessários para se perder em processos criativos, não foi capaz de ser vergada e mantém-se fechada no seu universo próprio saciando-se com as suas próprias criações e projecções mentais. A prazo e por vontade própria deixará de ser uma Razão ao reconhecer que o sonho não pode comandar a vida apesar de a sua presença ser obrigatória na vida.
Desta forma o Assassino de Razões consegue transformar a discussão da injustiça num verdadeiro diálogo retirando-a do anterior formato composto por um conjunto de monólogos que raramente se intersecionam.
Confinando todas as razões ao mesmo espaço de discussão, obriga os Sem Razão a ter de ouvir os argumentos de todas as Razões antes de se decidirem por aquela que é a sua. Inesperadamente surge aos poucos uma nova Razão, diferente de todas as outras, com um pouco de cada uma. É esta última Razão que serve de cola entre todas as Razões e finalmente consegue que se chegue ao entendimento final, repositor da justiça e do bem-estar no Reino.
O Assassino de Razões atingiu o seu objectivo não através da morte de Razões mas sim através da progressiva criação da nova Razão Ponderada. Não sendo ainda a maior é seguramente a mais certeira pois em assunto de Razões a Democracia corre o risco de ser uma enorme tirana ditadora.
O Assassino de Razões foi assim o Criador e primeiro adepto de uma nova Razão tornando ao mesmo tempo muito mais difícil a vida e ofício dos seus antigos colegas da Razão Paga.
domingo, outubro 30, 2011 | Etiquetas: Conto, Devaneio | 0 Comments
A Respeito do Desrespeito
Risos ecoam pela câmara do altar que os amplifica de igual forma ao que faz com as palavras do Senhor.
- "Ha ha ha... he he he..."
Passos incomodados pelo riso num local sagrado, mesmo quando vazio, atravessam a igreja apressados. E chegando perto do folião deslocado dirige-se a ele num tom ríspido e crucificador
- "Shhhhh! Mais respeito! De que te ris tu dessa forma?"
- "Desta mensagens deixadas pelos nossos visitantes. Há com cada uma..."
- "Mas tu lê-as?"
- "Claro, já que vão ser queimadas porque não dar-lhes a oportunidade de uma leitura?"
- "O facto de serem queimadas não é justificação para violares a privacidade das pessoas! As mensagens contêm os desejos que cada um gostaria de ver cumpridos, é entre eles e o divino!"
- "Privacidade? Não violo a privacidade de ninguém. São todas anónimas. A maioria não vale um chavo, os egoísmos e egocentrismos do costume. Mas há algumas dignas de ler. Além do mais o que é a privacidade? O esconder daqueles que conhecemos algo de pessoal, certo? Mas existe privacidade no anonimato? Não sei quem é o autor de cada escrito logo como posso estar a violar a privacidade de alguém não identificável?"
- "Devias respeitar os segredos de cada um. Anónimo ou não, não tens o direito de aí meter o bedelho."
- "Segredos? Mas se são segredos como podem ser desejos a ver cumpridos? A vida não se muda com segredos. Se são desejos para o futuro é melhor que os anunciem ao mundo e aos que os podem ajudar a concretizá-los. Se têm receio em assumi-los estão a perder tempo em escrevê-los nestas mezinhas."
- "As pessoas não são todas iguais. Há quem não goste de dar nas vistas. Estou certo que muitas não iam gostar de saber que lhe estás a ler os desabafos, os sonhos e pensamentos."
- "Eu diria que deixá-los escritos num espaço público mais não é do que a necessidade inconsciente de que alguém os leia e atenda as suas preces. Em teoria estes rolinhos de papel são invioláveis mas no seu íntimo os seus autores sabem que eventualmente eles serão manipulados para dar espaço aos vindouros.
Invariavelmente serão incinerados ou reciclados pelo que para mim é um acto de misericórdia lê-los antes de destruí-los. Nunca se sabe se lerei um em que possa ter influência ou que me influencie a mim.
Tu não tens a mínima curiosidade em saber que tipo de assuntos entregam as pessoas à intervenção divina?"
- "Sim, claro. A curiosidade desmesurada é um dos nossos grandes defeitos. Só que EU prezo o respeito acima de tudo."
- "Há alguma regra clara que diga que os rolinhos de papel não serão lidos?"
- "Bem, não existe propriamente um regulamento, mas assume-se que a sua entrega é a Deus e aos seus agentes."
- "E não somos todos agentes de Deus? Talvez seja esse o nosso papel. Ler as mensagens aqui deixadas e de alguma forma ao libertar as palavras despoletar uma série de acontecimentos que podem ajudar ou impedir que as preces se concretizem. Porque não experimentas abrir um? Talvez te surpreendas."
- "É verdade que Ele trabalha de forma misteriosa mas não acredito que seja a nossa missão analisar os escritos que nos deixam."
- "Vá lá não sejas um acólito ultra-conservador. Dá-me o benefício da dúvida e lê um e apenas um dos rolos. Toma pode ser este que tirei agora do molho. Era a minha próxima leitura antes da queima."
- "Não quero! Não percebes? Não quero! E PÁRA COM ISSO!"
O silêncio assenta na igreja durante uns segundos. O prevaricador assume um ar embaraçado e envergonhado. Levanta-se do banco, junto à lareira, pousando o rolo que têm em mãos sobre ele. Sem dizer uma palavra passa a tarefa que tinha em mãos ao dono do dedo acusador e sai da sala.
O respeitador pega no rolo, senta-se no banco agora livre, olha para o molho de rolos ao seu redor e fita a lareira encarregue de os acolher. O crepitar tenta-o como o silvar de uma serpente. E dando o benefício da dúvida ao seu colega ausente começa a desenrolar o rolo que tem em mãos. Lê-o e fita-o inerte por uns momentos até ser interrompido pelo seu colega que retornara para lhe pedir perdão pelo seu comportamento.
- "Surpreendeste-me... nunca pensei que o fosses ler... mas porque estás com um ar tão transtornado?"
Sem responder levanta-se do banco, entrega-lhe a folha de papel, e diz-lhe simplesmente:
- "Continua o teu bom trabalho."
Após o que se afasta pensativo. O retornado reassume o seu posto e lê o papel que tem em mãos. Nele alguém suplicava simplesmente:
"Gostaria que alguém lesse estas preces antes de serem destruídas."
sábado, setembro 03, 2011 | Etiquetas: História Curta | 3 Comments
Avaria de TV no Hotel
Acabo de entrar no quarto e a TV está acesa. Não quero TV, não quero tecnologia, não quero media. Estas férias vou desligar-me de tudo. Quero reaprender a ver e sentir o mundo sem ser poluído pelas frases chavão dos opinion makers, sem me afogar na osmose dos eu gosto disto. Quero desvirtualizar-me um pouco.
Mas a TV está ligada. A puta da TV está ligada e não tenho o comando à mão. Não está na cómoda, não está coberto pelos lençóis. Sumiu-se, talvez uma partida dos antigos hóspedes. Eu faço o mesmo por diversão.
Esta TV é daquelas sem botões à vista. Não há nada óbvio para carregar. Apetecia-me carregar à bruta para ela sentir o quanto me incomoda. Percorro a sua moldura na esperança de activar algo por contacto digital. Nada. Cabra! Fito a ponta do dedo indicador, completamente negra, e vejo nitidamente o meu código de barras. Curioso o sermos marcados com estes emaranhados curvilínios. Julgo que li algures, num qualquer blog certamente, que se olharmos para eles tempo suficiente corremos o risco de entrar em auto-hipnose.
Antes disso limpo o dedo e sento-me na cama a pensar o que fazer. Em dois segundos estou especado a olhar para o programa que está no ar desde que entrei. Passa-me pela cabeça que já há tempo demais não sou capaz de ver nada sem zapping constante. Agora sou obrigado a estagnar. Parece ser um daqueles programas de viagens que nos vendem experiências em destinos paradisíacos mostrando apenas as partes boas.
No enquadramento vejo um horizonte panorâmico, com um verde de floresta tropical a diluir-se ao fundo num misto de azul do mar e azul do céu. O céu é rasgado por aves exóticas que me parecem papagaios ou catatuas. Grandes e coloridas, com voos majestosos, emitindo sons que tão depressa se confudem com estridentes gritos de zombaria como com batuques ritmados em madeira. Onde ficará isto? Tem bom ar.
Em primeiro plano estão pessoas num género de feira, ou festival, com cores tão garridas como as das aves no céu. Divertem-se comendo, bebendo e dançando numa algazarra descomunal. As crianças correm desvairadas de um lado para o outro no seu normal chinfrim sem fim. Já não tenho pachorra para estes folclores. Se lá fosse fugiria disso. Ia para o meio daquela selva ou para uma praia deserta apreciar tudo o resto.
Não sei que raio de canal e programa são estes mas abusam daquelas cenas combinadas em que as pessoas acenam para a câmara sorrindo, como se falassem directamente connosco. Neste até ficam um pouco especadas, parece que esperando que algum espectador lhes retribua o cumprimento. Olha, agora apareceu um polícia que lhes levantou o cassetete e resolveu a situação. Ha ha ha. Sairam logo todos do plano. Tomara nós que a nossa polícia ainda gozasse deste nível de autoridade...
JÁ CHEGA! Estou farto. Só quero desligar a TV e entregar-me a umas férias descansado. Para grandes males grandes remédios. Ligo para a recepção e arranho:
- "Olá. La TV esta mala. Necessito el remoto por favor."
- "¿TV? ¿Qué televisión? Nosotros no tenemos televisión en nuestras habitaciones."
- "Como não? Ques eso en la parede?"
- "En la pared? Eso es la ventana señor..."
quarta-feira, agosto 17, 2011 | Etiquetas: História Curta | 1 Comments
Escrito de Fresco porquê?
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