Cafica, a Poça que não quis ser Nuvem

Cafica era uma poça como todas as outras. Tinha acabado de se formar com as primeiras chuvas de Outono. A terra sobre a qual estava assente era ainda dura, reflexo de um Verão quente e seco. Com o passar dos dias e a chegada do Inverno Cafica foi sendo alimentada pelas chuvas e alargou-se bastante em tamanho e profunidade. O solo já se tinha convertido numa lama espessa que a impedia de se infiltrar e juntar-se a um dos muitos cursos de água subterrâneos que cruzam as terras muitos metros abaixo do solo.

Ao seu redor nasceram muitas outras poças e todas em conjunto olhavam o céu sonhando com o dia em que ascenderiam a nuvem. Cada uma sonhava com a forma que iria assumir para desfilar nas alturas, cativando a atenção daqueles que ainda olham para cima. Umas queriam ter a forma de um coração, outras queriam ser uma flor ou animal e as mais arrojadas desejavam conseguir ser a cabeça de um monstro mitológico.

Só Cafica não sabia o que queria ser. Não era grave. Tinha até ao Verão para se decidir.

Quando a Primavera chegou as poças começaram a ser invadidas por pequenos musgos, larvas de mosquitos, pequenos insetos que caminham sobre as águas e girinos de rãs e tritões. Muitas aves percorriam também a sua orla para saciarem a sede, algumas chegavam a banhar-se. As grandes poças outrora inertes e inóspitas transformaram-se em pequenos poços repletos de vida.

Não muito tempo depois o Verão aproximou-se e o seu Sol tórrido lançou o histerismo entre as poças. Era chegado o tão esperado momento da ascensão a nuvens. Finalmente iam assumir o seu lugar nas alturas com as formas com que sempre sonharam. Estranhamente Cafica não partilhava do entusiasmo das suas congéneres. Estava preocupada. Não consigo mas com aquilo que aconteceria aos seus ocupantes e visitantes quando partisse.

Os dias eram cada vez mais longos e quentes e as poças entram na fase da ascensão. Comprimem-se para diminuir tamanho por forma a facilitar a sua evaporação, através da qual levitam graciosamente para o céu. Apenas Cafica lutava contra o inevitável e refugiava-se nas sombras dos rochedos e árvores ao seu redor. Ainda tinha girinos que não eram rãs e banhava muitos tritões e salamandras que nela encontraram um lar.

Num dia de muito calor deu-se finalmente a ascensão de todas as poças. Gaseificadas evaporaram-se para o céu assumindo as formas que tanto planearam ao longo dos últimos meses. Ursos, Golfinhos, Corações, Minotauros, Hidras, o céu era um festival de fantasia com novas nuvens em rejubilação enquanto eram levadas pelos ventos.

Para trás, no chão, deixaram centenas dos seus habitantes a perecer em sofrimento, dezenas deles, com capacidade de deslocação, migraram para a única poça que tinha feito finca-pé, resistido à onda de calor e ao ciclo natural da sua existência. Cafica recusara-se a partir pois não considerava que aquela carnificina fosse justificada pelo concretizar de um sonho que até não era seu. E sobre o solo viu as novas nuvens a desaparecerem no horizonte.

Cafica era agora a única água das redondezas de quem dependiam milhares de seres vivos.

As nuvens recentes seguiram a sua viagem e viram plantas e animais incriveis noutros pontos do planeta, nunca suspeitaram que pudesse existir tanta vida e tão diferente daquela que conheciam. Ao passarem por uma zona árida desprovida de vida, certamente devido às penúrias do Verão, repararam num pequeno oásis que florescia ao redor de uma pequena poça de água abrigada na sombra de um rochedo. Não queriam acreditar quando reconheceram Cafica. Tinham passado 15 dias e sem dar por isso tinham regressado ao ponto de partida depois de uma volta ao mundo.

Perceberam que Cafica nunca ascendeu! Assim o escolheu. E o deserto à sua volta mais não era que o legado que deixaram quando se limitaram a cumprir o seu ciclo de vida em busca do seu sonho. O sonho de assumir formas de fantasia que devido à força dos ventos, e pressões da altitude, foram desfeitas em dois ou três dias. Na verdade eram agora um manto uniforme de nuvens que formava um céu encoberto. O que não era grave tendo em conta que cedo se aperceberam que não há assim tanta gente a olhar as nuvens apreciando-as como obras de arte efémeras.

Ao verem Cafica tão pequena e encolhida, a poucos dias de ver a sua vontade violada e sofrer uma ascensão forçada, repararam no seu próprio reflexo. Uma pálida imagem de tudo aquilo que tanto ambicionaram, e à custa de muitas vidas que delas dependiam enquanto poças. Viram do ar aquilo que poderiam ter proporcionado em terra, bastaria para isso terem dado o devido valor a tudo o que tinham tal como fez Cafica. Não fosse Cafica e nada restaria. Ironia que quem não sonhava ser algo se tenha transformado na base de tudo naquele lugar. Por raiva para consigo mesmas, vergonha e tristeza todas choraram em uníssono.

Foi uma tarde e uma noite de chuva intensa como jamais tinha acontecido em qualquer Verão no passado. E no dia seguinte já não se percebia onde começava e acabava Cafica. Agora existe um enorme lago batizado de Caficamos, tão grande que é impossível de ser evaporado num Verão inteiro.



O Assassino de Razões

Era uma vez um Reino razoável onde se instalou uma grande injustiça sobre a qual todas as Razões se manifestavam.

A Razão Surda falava tão alto que nenhum outro som conseguia furar a barreira sonora gerada em seu redor. Julga-se indiscutível e indesmentível porque afinal ninguém é capaz de argumentar contra os seus pontos de vistas.

A Razão Coração proclamava poesia, cantava canções, ou exprimia por qualquer outra arte a sua opinião. Encanta tudo e todos com a sua veia criativa, artística e dramática mas poucos convence, estar certo disto ou estar certo daquilo dificilmente se resume à impulsividade do sentimento. Justiça ou injustiça aparentam ser para ela meras coincidências do destino pois raramente se obriga a pensar além daquilo que vê e sente no imediato.

A Razão Cega opinava sem ver.  Tudo o que diz parte do escuro e baseia-se nos discursos que lhe chegam aos ouvidos. É uma razão abstracta, teórica, que ouve todas as partes e constrói um modelo da situação. Só 'vê' aquilo que lhe relatam e constrói cenários apenas visíveis por si.

Por fim temos a Razão Muda. Tudo vê e tudo ouve mas nada diz. Pensa mas não fala. Para as outras Razões é a Razão neutra, a Razão tolerante, a Razão indiferente. Nunca está contra, nunca está a favor. Apenas observa sem interferir. É uma Razão low profile que não gosta de dar nas vistas. Mas o que elas não sabem é que dentro desta Razão tudo fervilha. Sobretudo por acreditar que mesmo que não fosse muda nenhuma das outras Razões iria verdadeiramente dar ouvidos ao que tem para dizer nem olhar para os seus pontos de vista. Teme que apenas iria contribuir para diluir a discussão em vez de a ajudar a concentrar-se objectivamente para que dela saísse uma decisão.

Por todas elas passam indifirentes os Sem Razão. Os Sem Razão são aqueles que não veem sentido na discussão. Agem por agir, vivem por viver. São seres amorfos que vivem de acordo com as regras e ditames saídos das discussões das Razões. No entanto a qualquer momento um Sem Razão pode ser cativado e ser absorvido por qualquer uma das Razões tornando-a mais forte, o que não quer necessariamente dizer que se tornasse mais certa. São sobretudo os Sem Razão que sofrem com a injustiça vigente apesar de serem aqueles que menos influência têm sobre os actos que a podem erradicar ou agravar.

Entre os Sem Razão esconde-se uma casta secreta. Os temíveis Razão Paga. Não têm preferência por qualquer uma das Razões mas, para seu proveito próprio, movem-se de Razão em Razão de forma indetetavel. Muitas vezes são usados como espiões ou terroristas de Razões, infiltrando-se para roubar ou minar argumentos de uma Razão a mando de outra. A estes pouco lhes interessa o estado do Reino pois o seu estado pessoal está completamente alheado daquilo que se passa no Reino.

A injustiça que assolava o Reino abordava um assunto fraturante e arrastava-se indefinidamente devido à pluradidade de Razões. A falta de entendimento prolongava a discussão consentindo o perpetuar da injustiça.

Tal era a gravidade da situação que farta deste impasse a Razão Muda, pela primeira vez desde a sua existência, decidiu agir radicalmente. Procurou e contratou o mais terrível dos Razão Paga, incumbindo-o da missão de Assassino de Razões. A sua tarefa era a de aniquilar uma ou mais das Razões existentes até ao ponto em que fosse possível um entendimento. Não interessava que Razões seriam extintas desde que fosse possível pôr fim à injustiça reinante que tanto prejuízo e infelicidade causava ao Reino.

Enfraquecer uma Razão? Isso era possível e trivial. Mas extinguir uma Razão? Não tinha memória de alguma vez isso ter sido tentado. Fazê-lo seria histórico pelo que apenas por vaidade e reputação não poderia deixar de aceitar. O Razão Paga sorriu com desdenho e assim que o pacto estava firmado a primeira coisa que fez foi aniquilar a Razão Muda. Afinal era uma das razões envolvidas na discussão, não foi feita qualquer ressalva de que deveria ser poupada, nem especificada a ordem pela qual deveriam ser desfeitas as Razões. Assim a Razão Muda desapareceu sem deixar rasto. Nenhuma das outras Razões deu pela sua falta e nada retirou ou acrescentou à discussão, pelo que o seu sacríficio foi inconsequente.

Após esta morte, fácil e rápida, o Assassino inicia o plano para atentar contra as outras Razões. A sua missão era clara. Matar Razões uma a uma até que fosse possível a tomada de decisão. No entanto, não muito tempo depois, ainda os seus planos estavam a meio, a Razão Muda estava refeita e voltou a contactá-lo para execução do mesmo serviço como se isso nunca tivesse acontecido.

O Assassino apercebeu-se nesse instante de que as Razões são imortais, podem apagar-se momentaneamente mas não extinguir-se para todo o sempre. Esta poderia ser uma tarefa sem fim! Mas a sua fama de implacável executante, entre os Razão Paga, não poderia ser maculada por este imprevisto. Havia apenas que mudar a abordagem inicial. Mais do que a morte de Razões a sua missão era a de conseguir gerar consenso.

Pela primeira vez na sua vida o Assassino observa atentamente a situação sujeita a discussão e ouve todos os argumentos de cada uma das Razões, excepto da Razão Muda que nada diz. Ao fazê-lo fica espantado em como partindo de um mesmo ponto as Razões chegam a opiniões e conclusões tão diferentes e em como todas fazem sentido parcialmente.

Após pensar arduamente sob a forma como iria conseguir aproximar as Razões, ao ponto de ser tomada uma decisão, decide-se por agir. Rapta cada uma das razões que dispõe num exíguo espaço circular e procede ao seguinte:

  • À Razão Surda são aplicados tampões de ouvidos que se activam apenas quando fala demasiado alto ou demasiado tempo. Sempre que isso acontece a Razão Surda pensa ter perdido a sua voz e deixa de falar, passando nesse momento a ouvir o que nunca ouviu e a ter momentos para pensar antes de continuar a falar.
  • A Razão Cega é forçada a envolver-se na situação relatada pelas outras. Deve ir tocar e sentir o cenário em discussão não se fiando plenamente no relato das outras Razões. Surpreendentemente encontra em cada cenário pormenores e detalhes, omitidos pelas outras Razões, e passa a interpretar melhor as situações em discussão mostrando às outras Razões aspectos que lhes tinham passado despercebidos.
  • A Razão Muda é forçada a escrever tudo o que pensa para que possa ser lido em voz alta às restantes Razões. Ganha um porta-voz, intérprete dos seus pensamentos e opiniões, que lhe permite pela primeira vez ter influência junto das restantes Razões.
  • A Razão do Coração, apesar de enclausurada e privada de meios materiais necessários para se perder em processos criativos, não foi capaz de ser vergada e mantém-se fechada no seu universo próprio saciando-se com as suas próprias criações e projecções mentais. A prazo e por vontade própria deixará de ser uma Razão ao reconhecer que o sonho não pode comandar a vida apesar de a sua presença ser obrigatória na vida.

Desta forma o Assassino de Razões consegue transformar a discussão da injustiça num verdadeiro diálogo retirando-a do anterior formato composto por um conjunto de monólogos que raramente se intersecionam.

Confinando todas as razões ao mesmo espaço de discussão, obriga os Sem Razão a ter de ouvir os argumentos de todas as Razões antes de se decidirem por aquela que é a sua. Inesperadamente surge aos poucos uma nova Razão, diferente de todas as outras, com um pouco de cada uma. É esta última Razão que serve de cola entre todas as Razões e finalmente consegue que se chegue ao entendimento final, repositor da justiça e do bem-estar no Reino.

O Assassino de Razões atingiu o seu objectivo não através da morte de Razões mas sim através da progressiva criação da nova Razão Ponderada. Não sendo ainda a maior é seguramente a mais certeira pois em assunto de Razões a Democracia corre o risco de ser uma enorme tirana ditadora.

O Assassino de Razões foi assim o Criador e primeiro adepto de uma nova Razão tornando ao mesmo tempo muito mais difícil a vida e ofício dos seus antigos colegas da Razão Paga.




A Respeito do Desrespeito

Risos ecoam pela câmara do altar que os amplifica de igual forma ao que faz com as palavras do Senhor.

- "Ha ha ha... he he he..."

Passos incomodados pelo riso num local sagrado, mesmo quando vazio, atravessam a igreja apressados. E chegando perto do folião deslocado dirige-se a ele num tom ríspido e crucificador

- "Shhhhh! Mais respeito! De que te ris tu dessa forma?"

- "Desta mensagens deixadas pelos nossos visitantes. Há com cada uma..."

- "Mas  tu lê-as?"

- "Claro, já que vão ser queimadas porque não dar-lhes a oportunidade de uma leitura?"

- "O facto de serem queimadas não é justificação para violares a privacidade das pessoas! As mensagens contêm os desejos que cada um gostaria de ver cumpridos, é entre eles e o divino!"

- "Privacidade? Não violo a privacidade de ninguém. São todas anónimas. A maioria não vale um chavo, os egoísmos e egocentrismos do costume. Mas há algumas dignas de ler. Além do mais o que é a privacidade? O esconder daqueles que conhecemos algo de pessoal, certo? Mas existe privacidade no anonimato? Não sei quem é o autor de cada escrito logo como posso estar a violar a privacidade de alguém não identificável?"

- "Devias respeitar os segredos de cada um. Anónimo ou não, não tens o direito de aí meter o bedelho."

- "Segredos? Mas se são segredos como podem ser desejos a ver cumpridos? A vida não se muda com segredos. Se são desejos para o futuro é melhor que os anunciem ao mundo e aos que os podem ajudar a concretizá-los. Se têm receio em assumi-los estão a perder tempo em escrevê-los nestas mezinhas."

- "As pessoas não são todas iguais. Há quem não goste de dar nas vistas. Estou certo que muitas não iam gostar de saber que lhe estás a ler os desabafos, os sonhos e pensamentos."

- "Eu diria que deixá-los escritos num espaço público mais não é do que a necessidade inconsciente de que alguém os leia e atenda as suas preces. Em teoria estes rolinhos de papel são invioláveis mas no seu íntimo os seus autores sabem que eventualmente eles serão manipulados para dar espaço aos vindouros.
Invariavelmente serão incinerados ou reciclados pelo que para mim é um acto de misericórdia lê-los antes de destruí-los. Nunca se sabe se lerei um em que possa ter influência ou que me influencie a mim.
Tu não tens a mínima curiosidade em saber que tipo de assuntos entregam as pessoas à intervenção divina?"

- "Sim, claro. A curiosidade desmesurada é um dos nossos grandes defeitos. Só que EU prezo o respeito acima de tudo."

- "Há alguma regra clara que diga que os rolinhos de papel não serão lidos?"

- "Bem, não existe propriamente um regulamento, mas assume-se que a sua entrega é a Deus e aos seus agentes."

- "E não somos todos agentes de Deus? Talvez seja esse o nosso papel. Ler as mensagens aqui deixadas e de alguma forma ao libertar as palavras despoletar uma série de acontecimentos que podem ajudar ou impedir que as preces se concretizem. Porque não experimentas abrir um? Talvez te surpreendas."

- "É verdade que Ele trabalha de forma misteriosa mas não acredito que seja a nossa missão analisar os escritos que nos deixam."

- "Vá lá não sejas um acólito ultra-conservador. Dá-me o benefício da dúvida e lê um e apenas um dos rolos. Toma pode ser este que tirei agora do molho. Era a minha próxima leitura antes da queima."

- "Não quero! Não percebes? Não quero!  E PÁRA COM ISSO!"

O silêncio assenta na igreja durante uns segundos. O prevaricador assume um ar embaraçado e envergonhado. Levanta-se do banco, junto à lareira, pousando o rolo que têm em mãos sobre ele. Sem dizer uma palavra passa a tarefa que tinha em mãos ao dono do dedo acusador e sai da sala.

O respeitador pega no rolo, senta-se no banco agora livre, olha para o molho de rolos ao seu redor e fita a lareira encarregue de os acolher. O crepitar tenta-o como o silvar de uma serpente. E dando o benefício da dúvida ao seu colega ausente começa a desenrolar o rolo que tem em mãos. Lê-o e fita-o inerte por uns momentos até ser interrompido pelo seu colega que retornara para lhe pedir perdão pelo seu comportamento.

- "Surpreendeste-me... nunca pensei que o fosses ler... mas porque estás com um ar tão transtornado?"

Sem responder levanta-se do banco, entrega-lhe a folha de papel, e diz-lhe simplesmente:

- "Continua o teu bom trabalho."

Após o que se afasta pensativo. O retornado reassume o seu posto e lê o papel que tem em mãos. Nele alguém suplicava simplesmente:

"Gostaria que alguém lesse estas preces antes de serem destruídas."



Avaria de TV no Hotel

Acabo de entrar no quarto e a TV está acesa. Não quero TV, não quero tecnologia, não quero media. Estas férias vou desligar-me de tudo. Quero reaprender a ver e sentir o mundo sem ser poluído pelas frases chavão dos opinion makers, sem me afogar na osmose dos eu gosto disto. Quero desvirtualizar-me um pouco.

Mas a TV está ligada. A puta da TV está ligada e não tenho o comando à mão. Não está na cómoda, não está coberto pelos lençóis. Sumiu-se, talvez uma partida dos antigos hóspedes. Eu faço o mesmo por diversão.

Esta TV é daquelas sem botões à vista. Não há nada óbvio para carregar. Apetecia-me carregar à bruta para ela sentir o quanto me incomoda. Percorro a sua moldura na esperança de activar algo por contacto digital. Nada. Cabra! Fito a ponta do dedo indicador, completamente negra, e vejo nitidamente o meu código de barras. Curioso o sermos marcados com estes emaranhados curvilínios. Julgo que li algures, num qualquer blog certamente, que se olharmos para eles tempo suficiente corremos o risco de entrar em auto-hipnose.

Antes disso limpo o dedo e sento-me na cama a pensar o que fazer. Em dois segundos estou especado a olhar para o programa que está no ar desde que entrei. Passa-me pela cabeça que já há tempo demais não sou capaz de ver nada sem zapping constante. Agora sou obrigado a estagnar. Parece ser um daqueles programas de viagens que nos vendem experiências em destinos paradisíacos mostrando apenas as partes boas.

No enquadramento vejo um horizonte panorâmico, com um verde de floresta tropical a diluir-se ao fundo num misto de azul do mar e azul do céu. O céu é rasgado por aves exóticas que me parecem papagaios ou catatuas. Grandes e coloridas, com voos majestosos, emitindo sons que tão depressa se confudem com estridentes gritos de zombaria como com batuques ritmados em madeira. Onde ficará isto? Tem bom ar.

Em primeiro plano estão pessoas num género de feira, ou festival, com cores tão garridas como as das aves no céu. Divertem-se comendo, bebendo e dançando numa algazarra descomunal. As crianças correm desvairadas de um lado para o outro no seu normal chinfrim sem fim. Já não tenho pachorra para estes folclores. Se lá fosse fugiria disso. Ia para o meio daquela selva ou para uma praia deserta apreciar tudo o resto.

Não sei que raio de canal e programa são estes mas abusam daquelas cenas combinadas em que as pessoas acenam para a câmara sorrindo, como se falassem directamente connosco. Neste até ficam um pouco especadas, parece que esperando que algum espectador lhes retribua o cumprimento. Olha, agora apareceu um polícia que lhes levantou o cassetete e resolveu a situação. Ha ha ha. Sairam logo todos do plano. Tomara nós que a nossa polícia ainda gozasse deste nível de autoridade...

JÁ CHEGA! Estou farto. Só quero desligar a TV e entregar-me a umas férias descansado. Para grandes males grandes remédios. Ligo para a recepção e arranho:

- "Olá. La TV esta mala. Necessito el remoto por favor."
- "¿TV? ¿Qué televisión? Nosotros no tenemos televisión en nuestras habitaciones."
- "Como não? Ques eso en la parede?"
- "En la pared? Eso es la ventana señor..."



Ao tomar conta de ti tomo conta de mim

Sempre que te dou a mão tu aperta-la. Habituei-me à forma como não vês o mundo, à tua auto-proclamação de Deus criador de um Universo só teu. O teu olhar está ausente, o teu pensamento é ineficaz para a minha realidade. Não sei onde vives durante a maior parte do tempo, sempre em movimento, em total alheamento.

Limito-me a cuidar de ti. Do tu que percebo, do tu que te prende fisicamente ao meu mundo. Já te quis puxar para o meu plano de existência para tentar, sei lá, dar-te uma maior convivência. Já experimentei o contrário. Pôr-me ao teu nível, olhar para onde olhas, andar por onde andas, fazer o que fazes, para tentar perceber o mundo como tu. Antes de te conhecer de gingeira, no bom e na baboseira, quase endoideci por não conseguir encurtar a distância abissal que nos separa.

Até que desisti. Desisti de nos querer mais iguais. De me preocupar por te ver à deriva. Deixo-te à solta pelos teus caminhos tortuosos, pelas tuas ideias mirabolantes, e sei que de vez em quando ultrapassas todas as fronteiras e obstáculos para vir até cá. Ao meu mundo. Por nada mais do que por mim. Um olhar, um sorriso, um aconchego, o que seja. Nesses breves instantes não sou eu que cuido de ti mas sim tu que cuidas de mim. E faze-lo tão bem.


70 000 para 1

Mais de 70 000 formam a guarnição protectora contra a fúria dos elementos. Têm a estrutura e força alimentada por séculos de existência. Por mais que uma vez deram o corpo ao embate de ondas e ventos de mudança, resguardando a pacatez da vila que vive na sua orla.

As batalhas ao longo do tempo fizeram as suas vítimas, orgulhosamente quebradas pelo atingir do limite das suas forças. Por estes lados dar a vida por uma missão cumprida é uma questão de honra e compromisso.

Mas entre eles surgiu um jovem que não compreendia tamanha devoção e imobilismo. Porque têm de ser uma barreira intransponível e não um filtro que permita a chegada à vila de alguns sopros e salpicos? Qual o sentido de bloquear o que quer que fosse com a única certeza de que a vila permaneceria a mesma? Que ilusão é essa criada pelo intacto e pelo incólume?

Os anos passaram com pouco empenho desse jovem nas manobras defensivas, de resistência às tentativas de mudança impostas pela força do ar e água. Mas a sua inépcia na reacção foi sempre compensada pelos elementos à sua volta e retaguarda pelo que passou a ser apenas uma palha no agulheiro.

Até ao dia fatídico em que se vislumbra no horizonte algo nunca visto. Começa por avistar-se ao longe uma pequena onda a deslocar-se a 900 Km/h, desacelerando à medida que aproxima da costa, crescendo exponencialmente em altura. O embate está eminente. Todos assumem a sua posição de combate. Entrelaçam ramos e raízes, desde o subsolo até  às suas copas, criando uma malha que se manteve intransponível ao longo dos séculos. Quando a onda revolucionária atinge a sua altura máxima de 10 metros, suplanta em quase o dobro a altura dos mais jovens que olham para os anciãos com altura suficiente para olhar para a onda de cima. Estes sorriem-lhes com ar tranquilizador. Mais uma batalha para o registo pensam eles. E retesam seus troncos à sua máxima rigidez e densidade.

O jovem de que falamos à pouco, esse, contempla aquela enorme onda não participando no emaranhado de ramos e raízes. Já tinha desistido de o fazer há muito. Limita-se a torcer em segredo para que ao menos uma vez na vida algo consiga transpor aquela barreira invicta. Qual ingrediente secreto que cai acidentalmente numa fórmula estagnada.

E então dá-se o choque frontal. Ainda antes do contacto físico já a enorme força de sucção tinha levado consigo a terra que firmava a primeira linha. Os corpos dos primeiros tombados serviram de aríetes contra os segundos, que tombados são usados contras os terceiros, que tombados são usados contra os quartos, e assim sucessivamente. O ar crepitava com os milhares de CRAK-TRAK que denunciavam a destruição e desmantelamento da malha criada. Nunca se vira nada assim mas nenhum deles desistiu. Nem a a última linha que assistiu ao massacre de todos os seus companheiros. Limitaram-se a olhar para aquelas águas maciças que usava os próprios corpos das vítimas tombadas como uma paliçada que forma um pára-choque destruidor e imparável. As águas estavam a dar-lhes uma lição de Judo ao usarem a sua própria força contra si multiplicada pela velocidade de deslocação. Quando a última linha tombou as dezenas de milhar de corpos titânicos foram usados para arrasar a vila que durante séculos defenderam. Ironia do destino que os seus maiores defensores fossem agora usados como instrumentos agressores. A vila essa estava completamente indefesa. Há séculos que nada transpirava daquela barreira. Porventura já teriam até esquecido os perigos a que estavam sujeitos com frequência e como a eles reagir. Foram amolecidos pelo sucesso absoluto daqueles que falharam uma única vez na vida, e logo esta.

Quando tudo serenou e as águas abandonaram o que restava da vila existia apenas um observador atento. Alguém que sem lutar contra o inevitável foi moldado ao sabor da maré tendo a sua espinha dorsal suficientemente flexível para evitar mais um CRAK-TRAK. Incrédulo com a magnitude do que se tinha passado, e com a sua sobrevivência, perguntava-se se teria sido o elo mais fraco causador daquela catástrofe. Ou se o evitar de tantas pequenas mudanças ao longo dos séculos teria acumulado a força que  levou aquela transformação radical sendo a culpa de todos aqueles que sucumbiram e foram usados como armas de arremesso.

Terá tempo para pensar nisso no futuro. Por agora, pela primeira vez, sente que germinou no lugar indicado e que vai fazer a diferença numa vila que irá renascer dos escombros completamente mudada. Desta vez será ele o General do novo exército que será refeito em poucas décadas. Com as suas regras, as suas estratégias e a sua experiência não mais serão uma barreira intransponível mas antes um coador que deixará transpirar a fúria dos elementos em quantidade suficiente para fazer a mossa necessária para o fortalecimento contínuo daquela vila.

Mas por agora terá de, sozinho, proteger o que resta contra tudo e contra todos.



PS - Saiu-me isto depois de ver esta história na CNN sobre o pinheiro único sobrevivente do Tsunami de Março de 2011

A Lide da Consciência

O matador entra na arena, que se encontra ao rubro, e vê o alvo dos insultos e exaltação na ponta oposta.

Nunca se tinha visto nada assim. Uma tonelada da mais pura e possante fúria demoníaca. Os toureiros que iniciaram a Faena rodearam-no, estudaram-no, tentaram perceber detalhadamente a sua forma de investir enquanto ao mesmo tempo o procuravam cansar. Cada um deles foi colhido de forma diferente tal a imprevisibilidade deste animal feroz. Deveria estar desorientado, amedrontado, fácil de domar por quem tem o treino adequado. Mas este era diferente.

Este fez a longa viagem a partir da ganadaria sem que se notasse qualquer debilidade, enfrentou a estada nos curros, tão diferentes dos campos que dominava, calmo sem sinal de inquietação. Logo aí os tratadores nos bastidores começaram a avisar "Cuidado que este é diferente!"

Depois dos toureiros vieram os picadores, cavaleiros com suas lanças terminadas em puyas. Lâminas cuja função é dilacerar as terminações nervosas na base do seu pescoço para provocar a perda de força nas patas dianteiras e dificultar o erguer do pescoço. O objectivo seria torná-lo mais lento e forçá-lo a andar cabisbaixo. Chamam-lhe igualar a luta para que o homem fique ao seu nível. Sem esta nivelação, por baixo, facilmente destroçaria o mais forte dos homens. Valentes cavalos, montados por nobres homens, reduzidos a escombros em parcas cornadas. Nem uma vez foi rasgada a carne desta besta. Nem uma!

Neste ponto os organizadores do evento temiam pela possível perda de vidas. Qualquer um dos homens na arena sofria sérios perigos. Mas as bancadas pediam a continuação do espectáculo. Os bandarilhas entraram de seguida para o tentar cansar mas em apenas dois ou três sprints de fuga, à que seria a sua última cornada na vida, já não podiam com as pernas.

O público gritava com ódio de morte aquele bicho que fazia gato sapato dos seus ídolos. A pega foi cancelada. Os forcados não quiseram arriscar enfrentar uma besta que não tinha sido lidada, que não tinha sido picada uma única vez e que não tinha perdido litros do seu sangue que a levasse a cambalear e perder força como seria normal nesta altura da corrida. Esta besta estava no pico das suas capacidades e um forcado não é um kamikaze.

Sobrou apenas o grande Matador. Descendente de uma linhagem dos mais reputados matadores do mundo tauromáquico. Centenas de mortes à primeira estocada, algumas em condições de desvantagem que o tornaram uma lenda viva. Era a ele quem cabia encerrar este assunto.

"Lá está ela. Grande Besta Negra. Deste cabo de tudo o que estava planeado para hoje mas a mim não me escapas. Hoje vou finalmente atingir o recorde de mortes na arena ainda detido pelo meu pai!", pensava com total segurança. Ergue sua espada horizontalmente sobre a cabeça, estanca a sua capa vermelha, que fica perpendicular à espada, e assume a posição de Matador.

O público apercebe-se que finalmente verá o fim para este ultraje de um animal irado que se sobrepõe à valentia e astúcia dos homens e grita extasiado "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ" como se um assistisse a um jogo de futebol onde a sua equipa dominava a outra por completo com passes certeiros sucessivos.

O Matador chama-o. Os cornos viram-se para si, os olhos  focam-no, o corpo massivo alinha-se em posição de embalo e inicia o acumular do seu poder em resultado de um instinto de auto-defesa incutido por todas a tentativas de agressão anteriores. Quando atinge o seu climax de fúria explode num arranque de encontro ao Matador deixando para trás uma cratera com mais de meio metro de profundidade. A arena silencia-se e a vibração provocada pelo galope toma conta de todos. O Matador, firme e hirto, espera o momento em que tem de se esquivar e perfurar com a espada num só golpe, atravessando toda aquela musculatura maciça, de encontro ao coração daquele animal.

Falta pouco para o impacto mas a escassos 10 metros algo o faz travar a fundo, diminuindo a intesidade da corrida, depois caminhando até que lentamente pára a apenas 2 metros do Matador que parece uma estátua.

"Que raio!? Já lhe tinha a rota traçada. Ia ser uma morte limpa. Mas porque me terá poupado a investida se despachou todos os outros sem fazer distinção? Temerá a minha espada? Saberá o que o espera?"

A Besta fita-o e de repente deita-se e rebola-se ficando de peito exposto. O Matador está desorientado com tal comportamento e as bancadas incitam-no a aproveitar aquela vulnerabilidade e fazer o seu trabalho. Perderam uma lide mas não perderão uma morte! "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ"

Ali tão de perto repara que na testa do Bicho está uma cicatriz. Com três letras invertidas.

"Mas!? São as iniciais do meu pai!?" e num flash volta aos seus tempos de infância onde às escondidas de todos brincava no picadeiro com um jovem novilho, filho de uma das vacas bravas do seu pai. Era o seu melhor amigo. Tinha instrucções para treinar as lides com esse novilho mas o raio do bicho lambia-o da cabeça aos pés e em vez de investir entrava em guerra de wrestling e jogo do empurra tirando prazer daquele contacto físico inocente. Inclusive chegava a cavalgá-lo como se de um potro se tratasse. Até ao dia em que o pai os apanhou em flagrante e lhe gritou "Mas o que estás a fazer!? Estás-me a estragar o novilho?" antes de os separar violentamente e após um valente estalo lhe lembrar "TU ÉS UM MATADOR!". Lembra-se da forma como o novilho se fez Touro e de rompante deu uma valente marrada no estômago do seu pai que ficou combalido durante uns bons segundos. O Toirinho esse ficou com a fivela do cinto do seu pai cravada na sua testa. Todos os cintos do seu pai tinham as suas iniciais. Depois desse incidente o Toirinho foi levado para outra ganadaria e não mais foi autorizado a lidar com vitelos sozinho.

E agora aqui estava aquele vitelo já Touro. A agir como se ele, o agora Matador, ainda fosse aquele menino inocente. Como se não tivesse sido já formado como o próximo grande Matador na linhagem da sua família que seguia os lemas de que Amar um Touro, Respeitar um Touro é proporcionar-lhe uma boa lide e uma morte digna durante uma luta de igual para igual.

O público esse não tinha participado no seu Flashback e continuava com os seus "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ".

O Matador olha para a sua espada, ainda erguida, e vê na sua lâmina reflectidos o seu pai e filho que se encontram na bancada. O seu filho tem exactamente a idade que ele tinha quando foi sujeito aquela lição de vida. Está na altura de iniciar o treino para ser o próximo grande Matador. O seu pai, Matador já retirado ainda com o recorde de mortes na arena, faz-lhe sinal com o seu polegar apontando para o chão e acena-lhe com a cabeça para terminar o espectáculo executando aquele que é o seu papel. Não há orgulho maior para um pai do que ver um filho atingir-lhe as pegadas. É a primeira base de partida para as ultrapassar.

O público continuava com os seus "OOOOOOOOLÉ... OOOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ...OOOOOOOOLÉ".

Apesar de não ter acontecido o Matador sentia ter sido esta a maior marrada da sua carreira, só secundada pela melhor marrada da sua vida dada por este mesmo Touro ainda jovem, ao seu pai, quando não era ainda Matador e não se podia defender e às suas ideias por si próprio. O Matador aproxima-se do Touro ali deitado a seus pés, deixa cair a sua espada, abraça-lhe o cachaço, e sussurra-lhe:

- "Olá Touro!"

E ambos choram pelo seu reencontro. O Touro feliz por saber que os homens não são todos iguais e o Matador destroçado por ter morto tantos touros iguais.

Nas bancadas espanto e silêncio. Como é possível as duas criaturas na arena não agirem de acordo com a sua Natureza!? Alguns começam a questionar-se se seria realmente essa a sua Natureza. O pai do Matador por sua vez apercebe-se que o recorde ficará para sempre consigo e encaixa um soco no estômago que o deixará combalido para o resto da vida. Olha para o seu neto, sentado ao seu lado, e vê-o com uma expressão radiante. O neto estava em pulgas por correr para casa e contar o que tinha acontecido ao novilho seu amigo de brincadeiras secretas.


Pensei-o? Disse-o? Fi-lo? Foda-se

Frio. Está, faz ou sinto? Não sei. Apenas frio. Já não devia com tanto sol. Mas agora não há. É noite. Enquanto penso no que digo (ou digo o que penso?)  interrompes-me de surdina por um acaso. Ataco-te imediatamente.

- "O que é?"
- "!? Não é nada. Deve ser confusão."
- "Confusão? Esse olhar? Pois, sim, claro..."
- "Olhava na tua direcção mas não para ti. Foi um acaso."
- "Que novidade... Eu não disse que me tinhas interrompido por um acaso?"
- "!? Não... apenas disseste 'O que é?'. Bruto e mal-educado ainda por cima."

Nisso ela tem razão. Já misturo o que digo com o que penso. Muitas vezes já não sei se falei ou pensei. Mas agora sei que penso o que faz aqui esta mulher a dar trela a um desligado.

- "Não faço nada. Apenas caminho, olho, escuto e vou pensando para me entreter. E como não trouxe o cão também não trouxe a trela."

Merda! Falei!? Arrrgh... oh não... o FDP do frio encravou-me uma das vértebras dois dedos abaixo da cervical, logo no início da torácica, ali onde as clavículas se unem à espinha dorsal. PDI! Não posso mover-me um milímetro sem passar um ar frágil. Aguenta! Não lamenta!

- "E tu que fazes por aqui para além de seres antipático com quem se aproxima demasiado do teu espaço privado?"
- "Eu? Nada. Só frio. Frio hoje não é?"
. "Frio? Estás doente? Com este Sol até a noite é amena. E porque estás tão firme e hirto? Não te mexes um mílimetro! Estás nervoso? Incomodo-te?"
- "Não! Eu é que enervo! Eu é que incomodo! É um jeito que eu tenho, ou um jeito que eu dei. Foda-se! É apenas um jeito!"

Ups. Disse foda-se ou só o pensei? Estou cada vez pior. Mas ela ri-se, deve ser parva. Mas o que faz agora? Dirige-se a mim de braços abertos!? Foge! Mexe-te! FRIO! DÔR NO JEITO! inerte. indefeso. Apanhou-me. Abraça-me como se tivesse razão para isso. Para quê? Porquê? Os abraços dão-se? Recebem-se? Ambos? Há quanto tempo me abraça? Há quanto tempo penso nisso?
Aos poucos quente. O jeito desajeita-se. Quando começo a pensar em evitar abraça-la de volta já o tinha feito por reflexo muscular para confirmar estar desajeitado. Que miséria. Até já o que faço precede o que penso. Afinal para que penso ainda se não me vale de nada mais do que manifestar arrependimento? Agora ficámos entrelaçados.
...
Estou a adorar este abraço.
...
Espero que não se vá embora nunca... FODA-SE! O QUE É ISTO? Que lamechas. É só ficar quente que me derreto todo!? Espero que não o tenha dito.

- "Mas disseste-o!"
- "Disse-o? Ainda bem."

Aniblabla

"Aqui estou no cimo deste penhasco debruçado sobre a sua beira. Sinto as pernas paralisadas, ancoradas no solo mas o meu tronco parece que puxado pela gravidade, cada vez mais inclinado sobre o vazio, perto do ângulo em que não me conseguirei suster. Pior que isso é olhar para o fundo, a centenas de metros, sentir aquele hipnótico impulso de saltar. Devo resistir? Devo deixar-me ir? Será o demo? Estarei doido?"

- "Que grande secas! Salta logo, pá! A ver se ganho sossego!"

"Agora oiço vozes!? Olho em redor e não vejo ninguém? Perdi o juízo! Uma voz tão grave e pujante só pode ser um demónio a atormentar-me!"

- "Um demónio? Já me chamaram muita coisa mas essa foi a primeira vez! Só não me vês se não quiseres ó tónhó. Estou mesmo aqui à tua direita à altura da tua cintura."

- "Mas... mas... tu és uma Joaninha!?"

- "Joaninha o %*%$#%#! Sou um Joaninho, olha para isto!" - diz ao mesmo tempo que estende as suas asas e abre as suas patas expondo o seu baixo ventre - "Digno de um Louva-a-Deus, não!?"

"Só posso estar a sonhar. Ouço insectos falar que ainda por cima me ouvem os pensamentos."

- "Claro que te ouço os pensamentos! O que achas que é pensar? Quando ouves essa vozinha interna pensas que é magia? São tão espertos, tão donos do planeta e ainda estão tão longe de se compreender..."

- "Mas como é isto possível? Afinal, estou no Mundo de Farnia ou nas crónicas de Narnia!?"

- "Rapaz, nós falamos connosco mesmo vibrando as cordas vocais de forma tão inconsciente que provocamos a vibração dos nossos tímpanos sem que seja necessário mover as nossas bocas. Tal como respiras movendo os pulmões sem lhes dar ordem expressa para isso, pensas desta forma sem dar por isso. Nós, os outros animais, somos mais sensíveis a determinadas frequências e em pensamentos muito focados conseguimos sintonizá-los sem dificuldade. E os teus são muito maus mas muito focados a modos que me estás a incomodar ao ponto de ter de te mandar calar."

- "E desde quando falam os animais?"

- "Desde sempre..."

- "Desde sempre? E porque não está isso em livros de ciência? Apenas é imaginado em contos de fantasia."

- "Porque há muito tempo atrás deixaram de nos querer ouvir e nós com o passar do tempo deixámos de vos querer falar. Bate boca entre Homens e outros Animais hoje em dia só quando devoram alguns de nós à boca cheia. Apenas um pequeno grupo de vocês ainda tem a capacidade de nos ouvir se decidirmos expor-nos. Para meu azar tu és um deles pelos vistos."

- "Quer dizer que todos os animais falam?"

- "Sim, todos, inclusive vocês. Uns melhor que os outros."

- "Mas aqui onde estamos ouço muitos outros sons de insectos e pássaros. E não ouço nada mais de inteligível para além das tuas palavras. Custa-me a crer que seja um segredo tão bem guardado ao longo de milhares de anos. Alguém que vos ouvisse iria certamente dar nas vistas e espalhar esse facto."

- "Há quem nos sangre e ao ouvir os nossos urros replique que não sentimos dor. Há quem nos veja paralisar de medo ou definhar de tristeza pela liberdade perdida e diga que não sentimos. Há quem nos mate e ao ver a faísca da vida a apagar-se dos nossos olhos diga que não temos alma. Para vocês a partir de um certo ponto da história passámos a ser apenas bichos.E quem afirme que fala com os 'bichos' só pode ser maluquinho. E ninguém quer passar por ser maluquinho.
Tu não percebes o que dizem os animais circundantes porque eles te estão a ver. E neste momento usam os seus dialectos próprios. Cada espécie tem uma língua própria, excepto vocês que têm umas dezenas ou centenas. Mas se confiarem em ti os que aqui estão nas redondezas passarão a falar na língua universal que nos liga a todos. É o que usamos quando não existem humanos à vista."

- "Confiar em mim? E que é preciso para tal?"

- "Apenas tens de encher os pulmões e gritar ANIBLABLA! É essa a palavra mágica que te dará acesso a um mundo que nem sonhavas existir..."

-"Só isso? Pois bem aqui vai!  ANIBLABLAAAAAAA!"

O grito ecoa pelos prados descendo a encosta até ao vale. De repente silêncio onde antes reinava o chinfrim.

- "Então? De repente calou-se tudo?"

- "Calma, não é todos os dias que se deparam com um humano a quem se podem revelar na plenitude. Deixa-os processar a surpresa. Até eu fiquei surpreso por a gritares sem querer saber mais sobre o seu efeito!"

Os segundos passam gerando algum desconforto e suspense. Afinal que teria ele feito ao gritar aquela palavra mágica? Nisto ouve-se um coro a cantar em harmonia perfeita.

- "Dorme dorme meu menino
Não deites as mãos de fora
Fecha os teus olhos tão lindos
Que o papão já foi embora
..."

- "Mas que vozes majestosas! Em perfeita harmonia. Uma canção de embalar no verdadeiro sentido do termo! Serão rouxinóis certamente?"

- "Rouxinóis? HAHAHAHA Esses ordinários só sabem contar anedotas porcas. Não, tiveste azar. São os sacanas dos mosquitos e melgas. Andam sempre em bando. Cuidado que são como as sereias. Encantam-te com as suas canções e depois sugam-te até ao tutano!"

- "Isto são mosquitos e melgas? Caramba! Fazem sombra à Susan Boyle!"

- "Quem é essa!? Olha, estão todos a ganhar confiança e a perder o pudor de se revelarem. Agora vais sentir o que é verdadeiramente o nosso mundo."

A pouco e pouco cada um dos animais circundantes recomeça a labuta do seu dia-a-dia inundando o espaço com milhares de vozes cruzadas.

- "Dão-se abraços gratuitos!" - gritam as aranhas do centro da sua teia
- "Sigam-me é por aqui! Já sinto o sabor do açúcar!" - dizem milhares de formigas batedoras
- "1+1=2, 2x7=14, 10:10=1, Pi=3.14159265358979323846,..." - balbuciam os bichos de contas
- "Não me apanhas! Não me apanhas! Hop Hop Hop!" - zombam as lebres irrequietas
- "Ai amor, sinto-me a perder a cabeça..." - diz a Louva-a-Deus para o macho que a corteja
- "Estou cheia de frio nos pés!" - diz uma centopeia passante
- "weeeeeeee weeeeeee uhuuuuuuuuuuuuuuuu" - bradam os pássaros das suas acrobacias nos céus

- "Incrível! De repente sinto que aterrei num outro planeta. Mas de certo modo isto é extenuante. Tantas vozes, milhares, mais avassalador que um estádio inteiro a puxar pela mesma equipa."

- "Isso é falta de hábito. Não é pior do que uma visita à cidade onde somos esmagados pela horda de pensamentos dos milhares de pessoas como tu que enchem as ruas juntamente com os barulhos de toda a maquinaria intoxicante que usam para se deslocarem. Dá-te por feliz por vocês pensarem tanto e falarem tão pouco. Aí sim irias ver o que é uma situação insuportável."

- "Passa-nos assim tanta coisa má pela cabeça? É provável que sim. E devemos sabê-lo bem para guardá-lo para nós. Mas estou é muito curioso em experimentar isto com o meu cão e gato. Que será que têm para me dizer?"

- "Cães e gatos? Esses são todos iguais. Estupidificaram de tanto lidarem com vocês. Os cães são crianças lamechas permanentemente carentes de afecto e atenção. A sua comunicação assenta em pedidos, suplícios e falas engraxadoras que vos derrete o coração.Os gatos são imperadores que apenas te sabem dar ordens e fazer exigências, a que vocês correspondem solícitos parecendo servos a servir um amo. Tiveras-me dado tempo e ter-te-ia perguntado se tinhas o que chamam de 'mascotes' porque se soubesse que as tinhas não te teria revelado este segredo. Lamento pelo inferno em que se vai tornar a tua vida com elas.
E recomendo-te vivamente a ficares afastado de zonas de criação de animais para abate. É que a carne que te chega ao prato é muda mas antes de ficar sem voz agoniza em lamentos e tormentos que te podem levar à loucura, ou pior, a uma qualquer forma de vegetarianismo por motivos incompreendidos pelos teus pares. Já aconteceu no passado."

- "Poderá tornar-se assim tão mau este dom? Se assim fôr quando chegar ao ponto de rotura acabo com isto. Como faço para deixar de vos ouvir?"

- "Deixar de nos ouvir? ha ha ha Essa foi boa. Não é daquelas coisas que possas desligar. Depois de entrares neste mundo ficas com a aura transformada. Agora todos sabemos que nos percebes. Devias ter esperado que te contasse mais pormenores sobre aquilo em que te ias meter. Já não há nada a fazer.  A não ser que voltes ao ponto de partida e sigas o impulso de saltar. Se precisares dou-te um empurrãozinho ó mariquinhas!"



Quem é Susan Molly?

- Susan... Susan... SUSAN MOLLY! Onde andas metida rapariga? Estás novamente metida no armário debaixo das escadas a dar asas à batuta e a serpentear feitiços em latim? Ainda não percebeste que a magia dos livros não passa para a vida de carne e osso?

- Evanesco! Evanesco! Evanesco!

- Sim, sim. Mete-te mas é ao fresco. Vamos jantar. O teu pai está à tua espera e quer saber quem é aquele rapaz com quem estavas aos amassos em frente aos Paços do Conselho.  Primeiro comes a sopa em paz e depois prepara-te. Já sabes do que ele é capaz.

A sopa estava deliciosa, cremosa quase ao ponto de se poder comer à garfada. Era uma sopa cruzada de batata e cenoura com um pouco de beringela, o suficiente para polvilhar a superfície com uma constelação de minúsculos pontos negros. No final juntavam-se as beldroegas. O meu pai adorava-a e era o único momento de paz ao jantar. Em que não nos metralhava com perguntas, opiniões e mandos do que fazer com a nossa vida. Durante uns momentos só se ouvia o slurp do sorver de cada colher. Lembro-me de acabar a sopa e dizer:

- Temos de falar.

- Oooh Molly... Falar? Agora? Estão a dar as notícias! É o único momento do dia em que posso ver o que se passou no mundo enquanto estou enfiado em trabalho.

- Hoje sou eu as notícias. Não estou bem. Sinto a falta de experiências. Não me devia ter agarrado a ti tão cedo. Eu gosto de ti, a sério. Mas passei contigo a juventude e agora nestes trinta e poucos sinto-me esvaziada de momentos. Sinto que para crescer individualmente preciso de partir e viver, sei lá.

- Partir, Susan!? Mas julgas que basta um Beam me up Scotty para desapareceres daqui a velocidade Warp? Vais esquecer tudo, desde o nosso primeiro beijo nos Paços do Conselho, assim num abrir e piscar de olhos?

Fechei os olhos para o encarar melhor e naquele momento tive saudades da algazarra do meu pai e das sopas da minha mãe. Ele continuou com o seu bla bla bla. Coisas importantes, sérias e pretensamente acertadas. Mas a busca da felicidade não passa por fazer as escolhas acertadas. Pelo menos para os outros. Abri os olhos pronta para tudo.

- Mas que mais queres tu saber?

- Como conseguiste largar tudo e partir para a missão humanitária em África! E como lá conheceste o pai!

- Sabes que Molly quer dizer maricas ou homem enfeminado?

- Não...

- Pois ficaste a saber agora. A sorte é que sou uma mulher! Susan Molly! 

- Mas mãe! Eu sou Molly! Sou maricas!?

- Cala-te e sorve a sopa.

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy

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