Descasca da Cebola

83 anos e chego novamente a ti.
Foi num ápice que descasquei décadas de memórias e volto a dar contigo.
Primeiro revivi mais de 40 anos com a minha falecida, que me aguarda num pedaço de paraíso, rejubilei com o nascer e crescer dos meus pequenos, que agora são os grandes, revisitei tantos bons momentos.
Depois voltei a desorientar-me com a locura do pós-ti, do pré-ela. A vida desregrada, desgarrada, sem pegas, com muitas mãos, alguns nãos ao que nos dão. Foi o trajecto que percorri para te conseguir esquecer. Porque as memórias são como as cebolas, crescem em camadas, com anéis grossos, finos e assim-assim. Criei tantos por cima do teu. Fraquinhos mas muitos, muitos, os suficientes para
não chegar a ti quando me punha a recordar.
Só que estou velho, a velhice erode-nos, a velhice escava-nos, nós ajudamos, escavamos, escavamos, não paramos, nunca estamos satisfeitos, queremos mais e mais retrospectivas, recordações, redescobertas. Voltamos onde estivemos sem sairmos de onde estamos, o que é confortável uma vez que as pernas já não dão para o gasto. Agora eu, que nunca fui de me recordar até muito longe, cheguei a ti... depois dos milhares de km que atravessei, nunca pensei nem sonhei sê-lo capaz, deste retorno.
Viverás? Jazes morta algures? Eu lacrimejo, talvez demasiada cebola descascada, o ter-te desenterrado faz-me voltar a não aceitar muito bem o ter-te perdido. 83 anos e reencravo em ti.
Daqui não serei mais capaz de me mover. Mesmo não sabendo onde andas sei que, a ti, te levo comigo para a cova.

Someone Often Is Truly Is Worse Off

PS - no dia dos finados decidi por piada revisitar os escritos 'enterrados' nos meus cadernos onde aponto ideias, pensamentos, parvoíces, encontrando a base deste texto que uma vez trabalhado aqui fica ressuscitado. De certa forma é o meu milagre do dia. :D

0 comentários:

Enviar um comentário

Olá... estou-te a ver! Podes falar mal ou falar bem mas com juizinho sff! Beijinho e/ou Abraço

Escrito de Fresco porquê?

Há quem me tome por incontinente verbal mas a verdade é que a minha língua não tem débito suficiente para o turbilhão de pensamentos que me assolam a mente a todo o momento. Alguns engraçados, outros desgraçados, mas vários merecedores desta lapidação digital para a posteridade e, quem sabe, para a eternidade. Os escritos aqui presentes surgiram do nada e significam aquilo que quiseres. Não os escrevi para mim mas sim para ti. Enjoy
Ocorreu um erro neste dispositivo

Seguidores